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terça-feira, 22 de outubro de 2019

Meu Seridó



Maycon Moura[1]
        
         A peça teatral Meu Seridó, teve como ideia inicial de Titina Medeiros (que faz parte do elenco), uma homenagem à sua cidade. A montagem do espetáculo durou cerca de 9 meses e possui como base a biografia de Seridó, sertão do Rio Grande do Norte. O elenco é composto por: Titina Medeiros, Nara Kelly, Caio Padilha, Marcílio Amorim e Igor Fortunato, com produção do grupo Casa de Zoé (RN). Direção de César Ferrario (que também opera o som), dramaturgia de Filipe Miguez, direção de arte de João Marcelino, direção musical de Caio Padilha, pesquisa de Leusa Araújo, designer de luz feito por Ronaldo Costa, cenotécnica de Rogério Ferraz, operação de luz de Janielson Silva e Ronaldo Costa, técnico de montagem, Sandro Paixão.

A sincronia e a sintonia entre os atores, o jogo com o público, o time cômico, o trabalho corporal e a atuação também ajudam e muito na composição da história. O texto é muito bem estruturado, nota-se uma pesquisa profunda para dar base à montagem do espetáculo, baseado na cultura seridoense.
Foto Raíssa Dourado.

         Os figurinos, são muito bem trabalhados de acordo com cada ator e com os movimentos pensados de cada personagem, há momentos em que a troca de figurinos ocorre assumidamente no palco, durante a peça, sem prejudicar ou quebrar a cena, deixando o espetáculo mais rico.

         Os objetos cênicos, ora são cenários, ora são simples objetos. O grupo trabalha com a ressignificação dos elementos cênicos, as molduras, que fazem parte do cenário desde o início, por exemplo, fazem parte deste jogo cênico. Vale ressaltar a iluminação, singela, porém, deixando a composição de cena mais fotográfica. Grande parte da sonoplastia, executada ao vivo, tanto nos momentos em que se quer transmitir a ideia do som das rádios antigas, quanto nas partes cantadas da peça, é também destaque, pois além de rica, demonstra a versatilidade dos intérpretes.
Elenco de Meu Seridó. Foto Raíssa Dourado.

         A imersão do público é notória; falas do texto que fascinam e ao mesmo tempo nos fazem refletir e conquistam a todos. Frases como “A gente é feito de dor” ou “A arte molda a sociedade”, aliadas aos demais elementos cênicos não deixam que ninguém desgrude os olhos, ouvidos e todos os sentidos até o fim da peça. Mesmo as crianças presentes ficaram atentas a cada cena.

Desse modo, o espetáculo conseguiu comunicar-se com todas as faixas etárias. A riqueza de detalhes trazida pelo grupo foi tão grande que fez com que todos que viram uma vez, queiram ver de novo.


[1] Maycon Douglas Pereira de Moura: Nascido em Vilhena – RO, 25 anos, Graduado em Letras  - Língua Portuguesa (2018), pela Faculdade Metropolitana e mestrando em Literatura pela Unir. Designer gráfico, editor de vídeo, palhaço e ator. Participou do Grupo de Teatro Wankabuki de 2013 a 2017. Atualmente integrante do Grupo de Teatro Ruante.

terça-feira, 15 de outubro de 2019

“O teatro é o extrato da cultura de um povo”



Jamile Soares[1]

No dia 10 de Setembro de 2019, ocorreu, durante o Festival Palco Giratório na cidade de Porto Velho, o espetáculo Traga-me a cabeça de Lima Barreto, baseado na biografia de Lima Barreto (jornalista e escritor negro, filho de ex-escravos) O autor apresenta em seus livros a realidade de um país imerso no racismo durante o século XX, mas que perdura até hoje.

No espetáculo fica notável o uso tão inspirador das palavras, cada uma delas mastigada e deliciada com maestria pelo ator. O dramaturgo Luiz Marfuz, trouxe no seu texto elementos biográficos da vida de Lima Barreto, informações sobre os livros do autor e elementos históricos sobre a eugenia, racismo e genocídios da época.
Hilton Cobra. Foto Raíssa Dourado.

A direção é exercida por Fernanda Júlia, mulher negra, mestra e doutoranda em Artes Cênicas, Professora da Escola de Teatro da Universidade Federal da Bahia e fundadora do Núcleo Afro Brasileiro de Teatro de Alagoinhas, responsável por diversos trabalhos com a temática da negritude.
Logo que o público entra no teatro se depara com um cenário cheio de referências, como livros de Lima Barreto, uma bebida alcoólica e um ambiente repleto de palavras ligadas à temática do espetáculo, bem como um objeto que esconde o cérebro de Lima Barreto – feito com búzios, referência à matriz-religiosa africana. A história se passa durante um Congresso dos Eugenistas que farão a autópsia do cérebro de Lima Barreto, com vozes em off fazendo perguntas e escancarando as ideias absurdas dessa pseudociência.

A própria imagem do ator Hilton Cobra já traz uma poética reivindicatória por sua representatividade como homem negro. Sua atuação vem cheia de técnica: dicção perfeita, trabalho corporal impecável e uma verdade absoluta nas suas emoções – o que faz o público se emocionar, seja por ser negra ou negro e sentir na pele a dor de uma sociedade repleta de racismo, seja por empatia à situação da negritude ou mesmo pelo choque de realidade a que são submetidos.

A obra teatral é claramente um grito de protesto aos moldes épicos brechtianos, com songs (músicas utilizadas como comentários, como parte do texto ou com função narrativa), palavras de Lima Barreto e do próprio ator que traz inserções atuais e quebra da quarta parede – que quase não existe em um espetáculo tão próximo ao público. Ator e público, dividem a pinga e a indignação pela desvalorização do trabalhador negro. De acordo com o espetáculo, Lima Barreto queria ter seu trabalho reconhecido, mas graças a sua cor e aos assuntos abordados em suas obras foi rechaçado, por ser considerado uma “mente inferior”.

A pergunta base do espetáculo consiste em: “Como um cérebro de raça inferior poderia ter produzido tantas obras literárias- romances, crônicas, contos, ensaios- se o privilégio da arte e da boa escrita é das raças superiores”? Lima Barreto tentou por três vezes ocupar uma cadeira na Academia Brasileira de Letras, mas não conseguiu, deixando-o frustrado e indignado com o racismo eugênico escancarado. Fazendo um paralelo com a atualidade, temos Conceição Evaristo, mulher negra e autora de livros que trata da questão da negritude. A autora também foi preterida pela Academia, não é possível saber os reais motivos, mas sabe-se que a instituição é formada em sua maioria por homens brancos. Então, cabe a pergunta: o que mudou? Anos depois e as histórias continuam as mesmas.
Hilton Cobra como Lima Barreto. Foto Raíssa Dourado.

O espetáculo apresenta como estética a linguagem do Teatro Documentário, com o uso de documentos que serviram de base para toda estrutura da obra artística. Os documentos em questão tratam sobre as teses eugenistas e sobre os defensores da mesma, fazendo um recorte histórico sobre o Movimento Eugenista que ocorreu no início do século XX e que defendia a limpeza da raça, a predominância da raça dita superior que se limitava a homens brancos e mulheres brancas sem nenhum tipo de deficiência. Ainda assim, essas mulheres eram vistas apenas como boas procriadoras.
Como pode um espetáculo baseado em teses eugenistas que ocorreram durante o século XX ser tão atual e necessário? A resposta é dura: o racismo continua impregnado na sociedade brasileira, sendo as negras e negros ainda tratados como raça inferior, tendo menos oportunidades de trabalho, de estudo e sendo assassinados por um Estado que deveria protegê-los.

Por fim, termino essa crítica com uma fala do ator Hilton Cobra interpretando Lima Barreto: “Parto para o outro lado do Atlântico. Oxalá além daquela curva luminosa possa eu rever os meus ancestrais. Eu já não posso mais cumprir a minha promessa, concluir a história do povo negro no Brasil, mas outros com certeza o farão”.

Viva a negritude e sua resistência!


[1] Acadêmica do Curso Licenciatura em Teatro da Universidade Federal de Rondônia. Atriz nos espetáculos: CIDADE GRANDE, joão ninguém (Grupo Peripécias/UNIR), Era uma vez João e Maria... e Ainda é, Cabaré Ruante, A muy lamentável e cruel história de Píramo e Tisbe (Teatro Ruante) e Inimigos do Povo (Trupe dos Conspiradores).

segunda-feira, 14 de outubro de 2019

A MEMÓRIA DE UM DEUS EXUMADA POR OUTRO DEUS



Édier William[1] 

IM-PE-CÁ-VEL! Não tem como iniciar uma análise sobre esse monólogo sem conferir ao espetáculo esse status
É claro que deveria haver de minha parte uma certa imparcialidade na escrita deste texto. Todavia, Traga-me a cabeça de Lima Barreto é, talvez, uma das obras que mais me impactaram em toda a minha existência nessa ou nas vidas passadas das quais não me lembro. Tal impacto surge pela atuação inquestionável e ao extremo elogiável de Hilton Cobra, que é uma das maiores referências do teatro representativo dos negros na atualidade, e pela abordagem do espetáculo que por vários momentos nos faz questionar em que momento da existência o ser humano perdeu sua humanidade, ou se um dia ela a teve.
Hilton Cobra como Lima Barreto. Foto Raíssa Dourado.
Hilton Cobra, um homem/deus/ator de um pouco mais de um metro e meio de altura, agiganta-se ao exumar a consciência de Lima Barreto e a incorporada em si. Lima Barreto é o maior autor assumidamente negro da literatura Clássica Brasileira. É claro que, como todo mundo sabe e o próprio Lima Barreto assume no palco, neste monólogo, o maior escritor brasileiro é Machado de Assis que, por coincidência, era preto, e digo coincidência, pois Machado não se assume preto em sua obra e a elite brasileira o embranquece para que possam consumir suas escrituras. Bem, não estamos aqui para falar de Machado.
Por meio do pequeno homem, gigante ator, uma entidade se materializa no palco, deixando a plateia em choque por tomar nota do que muitos ainda não sabiam, os eugenistas foram/são reais - ainda que nos dias atuais pareça absurdo o conceito pregado pela eugenia, um dia fora objeto de argumentação de muitos teóricos para endossar seus preconceitos contra os negros ao afirmarem que negros são cognitivamente inferiores aos brancos. 
O espetáculo se passa em uma espécie de sala do purgatório, do céu, do inferno, ou simplesmente da memória de Lima Barreto, viva perpetuamente em sua obra inesquecível e indestrutível. Do piso e paredes brancas saltam palavras. Duas caixas de som que são personificadas durante o espetáculo, respondendo, perguntando, acusando e julgando o autor-personagem. Uma cadeira, uma cesta, cachaça e livros. É nesse cenário, à primeira vista simples, mas muito bem explorado, que é encenado um dos melhores textos da atualidade - e aqui cabe muitos elogios à direção do espetáculo, à iluminação e à sonoplastia, que não deixaram de usar nenhum milímetro do que tinha para ser explorado do texto, do ator e do cenário.
Foto Raíssa Dourado.
No decorrer do espetáculo - que brinca em ser clássico e contemporâneo, com muitas marcações que são executadas com precisão - alívios cômicos, provocados pelas interações com a plateia. Os alívios vindos com os risos, são muletas para que o público segure a emoção - que por vezes precisou usar os dedos, lenços, ou camisetas para secar os olhos, para conseguirem chegar ao fim do espetáculo e virem Lima Barreto no auge de seu confortável e merecido descanso com a glória de um deus. 




[1] Édier William Medeiros da Silva, graduado em Letras, FIAR (2012), Especialização em Metodologia do Ensino Superior, FAEL (2016), Técnico em Produção Audiovisual, CEP (2015). É escritor, dramaturgo, ator, diretor e produtor cultural.


domingo, 13 de outubro de 2019

Do Pôr do Sol ao cair da noite

Stephanie Caroline Matos Dantas¹

No dia 07 de setembro, ocorreu no Parque da cidade, a abertura do Palco Giratório. O Palco Giratório é um importante festival de artes cênicas realizado pelo Serviço Social do Comércio (SESC).  O espetáculo convidado para abrir a programação, foi O Palhaço de la mancha, da Cacompanhia de Artes Cênicas, coletivo que atua em Manaus desde 2017, realizando espetáculos teatrais e a arte da palhaçaria.
Cacopanhia. Foto Raíssa Dourado.
O Palhaço de La Mancha retrata a obra clássica de Miguel de Cervantes (1547-1616): Dom Quixote, na ótica da Palhaça Pãobolo (Stephane Bacelar) e dos Palhaços Caco (Jean Palladino) e Numadi (Richard Harts). O trio se aventura entre moinhos, cataventos e batalhas, proporcionado pela magia literária de Cervantes e pela comicidade, loucura e lógica do palhaço e da palhaça.
O espetáculo é dirigido por Jhon Weiner, professor da Universidade Estadual do Amazonas. A direção propõe que o espetáculo, sempre que possível, seja apresentado ao pôr do sol, para simbolizar o descanso de Dom Quixote. Sua morte se daria quando o sol já não brilhasse mais.
Ainda no elenco, temos Francine Marie responsável pela execução da música e também assina, juntamente com Paulo Tiago, a concepção dos adereços. A percussão é interessante e bem executada. Porém, em alguns momentos, os palhaços e a palhaça não estavam no mesmo tempo da música, havia desencontros.
Vale ressaltar o trabalho de Dione Maciel, responsável pela concepção dos figurinos: belíssimos e nos remete aos tempos antigos.
A interação com o público, no meu ponto de vista, foi pouca. Acredito que os palhaços e a palhaça poderiam receber o público quando eles estivessem chegando, interagindo com os mesmos. Faz-se necessário trabalhar melhor a triangulação. Em vários momentos, Caco, Numadi e Pãobolo ficavam fechados entre si e não abriam a cena para o público. É importante no teatro de rua a relação que se estabelece, por meio da triangulação, entre ator/atriz e público.
O Palhaço de La Mancha é um espetáculo novo, que teve sua estreia em 2018, por isso precisa ser apresentado mais vezes para ganhar ritmo e assim poder observar o que funciona e o que não funciona na relação com o público. O espetáculo tem questões importantes a serem ditas. Quando Sancho Pança relata os seus medos para Dom Quixote, é uma cena muito poética e tocante.
Foto Raíssa Dourado.
O espetáculo trouxe-me a reflexão sobre a importância da utilização do gênero feminino. Muitas vezes, utilizamos as palavras apenas no gênero masculino. Quando nomeamos um grupo de pessoas no masculino, que contém mulheres e homens, acreditamos que ao fazermos isso, estamos mencionando as mulheres desse grupo. Porém a estamos excluindo. Segundo o Manual para o uso não sexista da linguagem, disponível na internet, “Para que a mulher esteja representada é necessário nomeá-la”. Quando a palhaça Pãobolo e Francine enfatizam durante o espetáculo as palavras no feminino: “palhaça”, “mercadora”, “senhora” e “taberneira”, me senti representada e reflexiva a respeito. Ressalto a importância de manter esta proposição do início ao fim do espetáculo.
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¹ Discente do Curso Licenciatura em Teatro da Universidade Federal de Rondônia. 

sábado, 12 de outubro de 2019

Agreste ou das durezas e delícias das boas histórias


Adailtom Alves Teixeira[1]

Nascido a partir de um exercício proposto na universidade, o espetáculo Agreste do coletivo Barulho do Acre, nos lembra que somos feitos também de boas histórias. O espetáculo foi apresentado dia 09 de setembro de 2019 no Teatro 1 do Sesc Rondônia, dentro da programação do Festival Palco Giratório, na cidade de Porto Velho. O espetáculo nos transportou para um nordeste que, talvez, não mais exista, ainda que o que foi contado seja recorrente em todo o país. Trata-se de uma história de amor. Ainda assim, há “algo no amor deles que não devia acontecer”.

Essa não é a primeira montagem do texto primoroso do pernambucano e radicado em São Paulo, Newton Moreno. A montagem realizada pelo grupo Razões Inversas (SP), lhe rendeu os prêmios Shell e APCA de melhor texto, além de projeção nacional, na excelente direção de seu ex-professor Márcio Aurélio. A história de amor de duas pessoas humildes é linda, enquanto “permitida socialmente”. Aí está a grandeza do texto: por meio de algo simples e cotidiano, descortina os preconceitos e as maldades de uma sociedade. Escrito em uma mistura de cultura popular e tons de erudição, a história de amor de um casal que viveram juntos por 22 anos em perfeita união e, aparentemente, eram benquistos por todos até descobrirem algo sobre suas sexualidades.
Matheus Filgueira. Foto Raíssa Dourado.

A montagem do Barulho do Acre, com direção de Sandra Buh[2], é minimalista. Aposta totalmente na palavra, para que a história pule aos nossos ouvidos. A direção musical, a cargo de Écio Rogério – que executa ao vivo com a diretora – cria, por meio da paisagem sonora, o ambiente nordestino, já que em cena, não há elementos que possam propriamente remeter à essa geografia. O mínimo de elementos que a direção opta, para realçar ainda mais a história, está presente no figurino e no cenário – que é composto de apenas uma cadeira e um chão de palavras.

A atuação de Matheus Filgueira, o arquiteto-ator, vai nos envolvendo em sua narrativa – trata-se de um espetáculo épico – até explodir em diversas personagens, que encanta pela sobriedade, pela ausência de exageros, mesmo nas personagens que poderíamos ver como caricatas, demonstrando, assim, seu domínio de cena.
Écio, Sandra e Matheus. Foto Raíssa Dourado.

Há um trecho da peça em que o narrador afirma que “é preciso muita coragem para dar um passo”. O Barulho do Acre deu um passo certeiro na escolha do texto, com uma temática fundamental nos dias atuais, afinal “qualquer maneira de amor vale a pena”, já dizia o poeta. Além disso, foram corajosos em apostarem na palavra, esta que já imperou por séculos e depois foi tão negada na cena contemporânea, mas como demonstra a montagem de Agreste, ainda é fundamental nos palcos, sobretudo nas boas histórias.



[1] Professor do Curso Licenciatura em Teatro da Universidade Federal de Rondônia; Mestre em Artes pela Universidade Estadual Paulista; integrante do Teatro Ruante; coordenador do Grupo de Pesquisa e Extensão em Crítica Teatral; e articulador da Rede Brasileira de Teatro de Rua.

[2] Ficha Técnica enviada por Sandra Buh:
Direção: Sandra Buh
Ator: Matheus Filgueira
Criação e execução musical: Écio Rogério e Sandra Buh
Figurino: Sandra Buh e Matheus Filgueira
Cenografia: Mateus Filgueira

sexta-feira, 11 de outubro de 2019

Grupo de Pesquisa e Extensão em Crítica Teatral


Adailtom Alves Teixeira

Desde o início de agosto desse ano (2019, um pequeno grupo de artistas tem se reunido para estudar, discutir e produzir críticas na área teatral. O projeto tem minha coordenação e é intitulado Grupo de Pesquisa e Extensão em Crítica Teatral e tem o objetivo de firmar as análises críticas na cidade.

Os envolvidos tomaram contato com alguns conceitos e tiveram a oportunidade de receberem uma aula com o professor Dr. Alexandre Mate, do Instituto de Artes da Universidade Estadual Paulista (UNESP), que coordena um grupo de pesquisa em críticas teatrais cadastrado no CNPq e do qual sou membro.


Após alguns encontros estabelecemos como início de produção o Festival Palco Giratório, que ocorreu em setembro e teve uma programação extensa e diversa com dezenas de espetáculos. O coletivo escolheu antecipadamente alguns espetáculos, tendo cada apresentação escolhida ao menos duas apreensões críticas.

Esperamos que esse trabalho venha render frutos e que seja o início de um longo diálogo com a cena teatral de Porto Velho. Evoé!

quarta-feira, 9 de outubro de 2019

Audiência pública e os rumos da cultura em Porto Velho


Adailtom Alves Teixeira[1]

No último dia 03 de outubro ocorreu uma Audiência Pública sobre cultura na Câmara Municipal de Porto Velho. A demanda surgiu das provocações do Movimento PaCultura, que tem mexido com a cena cultural da cidade no que tange às políticas públicas. O coletivo pressionou para que a Funcultural (Fundação Cultural de Porto Velho) realizasse a Conferência Municipal de Cultura, seguida do acompanhamento da posse do novo Conselho de Cultura e agora essa Audiência – que, diga-se de passagem, durou meses até conseguirem, pois o pedido havia sido protocolado em março desse ano. O PaCultura vem se reunindo desde fevereiro e desde lá, muitas águas rolaram.

O dado mais importante da Audiência, presidida por Edwilson Negreiros (PSB) – e também atual Presidente da Câmara – é que o movimento obteve o compromisso do vereador a não votar o orçamento do próximo ano sem antes destinar uma porcentagem ao Fundo Municipal de Cultura. Cabe ressaltar que os artistas que lá estavam sugeriram o mesmo percentual do Estado de Rondônia: 0,5%. Se for destinado esse aporte de recursos para a Cultura, será o início de uma mudança significativa para os fazedores de arte da cidade. Claro, isso deve vir por meio dos programas já existentes e de editais transparentes, mas o passo inicial para qualquer política pública é que haja recursos.

A relação de quem faz cultura com os entes estatais sempre passou por momentos bons e conflituosos desde a Grécia Antiga. Mas sempre que há no Estado (município, UF e União) pessoas comprometidas com os avanços civilizacionais, nesses momentos as políticas públicas dão uma guinada e todos ganham, sobretudo os cidadãos, destino final de toda e qualquer política pública importante.

É fato que todas as pessoas têm uma forte relação com as artes, inclusive os políticos, por isso, via de regra, não se colocam contra. Todos têm algum momento marcante de suas vidas em que obras artísticas são lembradas: um poema, uma música, um filme um local histórico etc. Dessa forma, “ninguém” é contra a cultura, muito embora ela seja sempre a última área a ser pensada. E, ultimamente, artistas vem sendo criminalizados, como se eles não fossem importantes para o desenvolvimento do país.

A cidade de Porto Velho já tem algumas leis que não vem sendo cumpridas: Sistema Municipal de Cultura, Fundo Municipal de Cultura, Lei 1820 de 2009 (Programa de Fomento ao Teatro). Passou da hora do poder público dar a devida atenção a este problema. É preciso fazer com que essas leis saiam do papel.

O sociólogo Zygmunt Bauman em seu livro A cultura no mundo líquido moderno (2013) afirma que “Entre 1815 e 1875 [portanto, pós-revolução francesa, pós-terror, passando pela Primavera dos Povos e a Comuna de Paris], o regime do Estado mudou cinco vezes. A despeito das drásticas diferenças entre eles, um tema estabelecido por seus predecessores foi aceito sem questionamento: a necessidade de as autoridades do Estado prosseguirem em seus esforços no sentido de esclarecer e cultivar, noções agora coletivamente conhecidas como desenvolvimento e disseminação da cultura.” Mesmo o regime tendo mudado cinco vezes, repito, o regime, ninguém questionou o significado das artes e da cultura para aquelas sociedade, bem como a importância de investimento para o seu desenvolvimento. E hoje, esse é um dos países que miramos e vemos como civilizado.

Lembro um grande diretor de teatro, Amir Haddad, quando afirma que “os políticos fazem o país, os militares fazem a pátria, mas só os artistas fazem uma nação”. Ainda que tenha exageros nessa máxima, quando lembramos de Portugal pensamos em Camões, Fernando Pessoa, no fado; o Brasil é conhecido lá fora pela sua música, sua cultura popular, como o carnaval etc. Via de regra são os artistas, as obras artísticas, os monumentos patrimoniais  que nos fazem lembrar dos lugares, das cidades, dos países e marcam nossa história pessoal e coletiva. Por que então a arte e a cultura são tão negligenciadas?

No âmbito nacional gostaria de destacar as três dimensões da cultura, presentes no Plano Nacional de Cultura (Lei 12.343/2010), do qual Porto Velho é signatário: Dimensão simbólica, cidadã e econômica. A dimensão simbólica reconhece que todo ser humano é capaz de criar símbolos que se expressam nos costumes, nas artes, na culinária, nas crenças etc. A dimensão cidadã, reconhece a cultura como direito social, já presente na Constituição de 1988, isto é, por meio das políticas públicas, as pessoas devem acessar os “meios de produção, difusão e fruição”. A dimensão econômica, coloca a cultura como estratégia do desenvolvimento econômico.

E aqui é importante atentarmos ao fato e vermos a cultura como geradora de renda e empregos – em tempos de desempregos massivos, é fundamental o investimento em arte e cultura. Cito dois exemplos, para que se entenda a complexidade da cadeia produtiva das áreas artísticas – cabe destacar que cada linguagem tem suas especificidades. Vamos aos exemplos: um festival de teatro quando recebe recursos, por não lidar com a lógica da acumulação, faz com que todo o dinheiro circule por outras áreas: gráficas, transportes aéreos e terrestres, hotéis, restaurantes, até pequenos ambulantes ganham, além disso, os demais comércios, pois os artistas consomem no lugar onde ocorre o festival; um outro exemplo recente, o filme Bacurau impactou direta e indiretamente mais de 800 pessoas, apenas um único produto cultural mobilizou essa quantidade de pessoas. Isso talvez explique o pequeno milagre que a cultura brasileira opera: os investimentos na área nunca chegam se quer a 1%, mas a economia da cultura é responsável por quase 3% do PIB nacional.

Penso que fica claro a importância da Audiência Pública e do comprometimento do Presidente da Câmara em haver orçamento para a área cultural no próximo ano. Fica claro também a importância de mais artistas participarem do Movimento PaCultura, afinal as conquistas vêm organização e luta. Por fim, cabe destacar, que a vitória não está assegurada, é preciso acompanhar e cobrar os recursos e o funcionamento do Fundo Municipal de Cultura, só assim, talvez tenhamos o desenvolvimento de todas as linguagens artísticas em Porto Velho.


[1] Professor do Curso Licenciatura em Teatro da Universidade Federal de Rondônia; integrante do Teatro Ruante; articulador da Rede Brasileira de Teatro de Rua.