Adailtom
Alves Teixeira[1]
A literatura infantil tem,
cada vez mais, revelado uma potência estética e política que ultrapassa o mero
entretenimento. Nesse sentido, as produções amazônidas tem muito a nos ensinar,
especialmente da Amazônia Ocidental, como a que vem sendo produzida em
Rondônia. O porco-do-mato e o caçador corajoso, de Eva Silva Alves,
insere-se como uma obra que recupera não apenas narrativas da tradição oral,
mas também modos de existência profundamente enraizados na experiência da
floresta. A autora, doutora em educação e sócia-fundadora da Editora Temática,
é nascida em Guajará-Mirim, e, conforme me confidenciou, foi criada em um
seringal. A partir desse universo ela mobiliza suas memórias e escutas para
construir uma ficção que, embora destinada ao público infantil, carrega
densidade histórica e simbólica dessa parte do Brasil.
Logo de início, chama atenção
o modo como o livro constrói a espacialidade amazônica. As distâncias, que em
contextos urbanos poderiam soar como exagero ou fantasia, aqui são apresentadas
de modo espontâneo: a cidade mais próxima do seringal fica a cinco dias de
canoa, isso se ela for motorizada (rabeta), o amigo do caçador, leva três dias
para chegar após o seu chamado. Esses elementos não apenas situam o leitor em
um território específico, mas também produzem um efeito de isolamento que
amplia o campo da imaginação. Trata-se de um isolamento que não empobrece, muito
pelo contrário, intensifica a experiência do mundo, fazendo com que o cotidiano
se torne matéria de fabulação. Aqui é preciso relembrar Walter Benjamin no
texto O narrador (2012), em que o autor aponta que os bons contadores de
histórias são o marinheiro e/ou comerciante, que viaja o mundo e traz (aproxima)
as histórias de um mundo distante; e o camponês, gregário, aquele que se fixa
no seu lugar, mas detém a tradição, as histórias do lugar, portanto, aproxima o
passado do presente. Penso que o livro de Eva faz parte desse universo,
apresenta um certo passado de nosso presente, justamente porque ele ainda tem
algo a nos ensinar.
Tais aspectos são fundamentais
para compreendermos a obra em tela: o imaginário não surge como fuga da
realidade, mas como extensão dela; é um modo de compreendê-la. Pensemos aqui na
definição dada por Wunenburger, que entende o imaginário como “um conjunto de
produções, mentais ou materializadas em obras, com base em imagens visuais
(quadro, desenho, fotografia) e linguísticas (metáfora, símbolo, relato),
formando conjuntos coerentes e dinâmicos, referentes a uma função simbólica no
sentido de um ajuste de sentidos próprios e figurados” (2007, p. 11). Pensemos
na floresta com sua densidade e mistério, exige dos sujeitos uma escuta atenta
e uma relação sensível com o ambiente, por isso fundante na obra. É nesse ponto
que o livro articula uma de suas dimensões mais potentes: o imbricamento entre
humanidade e natureza. Diferentemente de narrativas que colocam o humano como
dominador, aqui se evidencia uma relação de reciprocidade — ainda que
atravessada por tensões.
A personagem de dona Raimunda,
figura de sabedoria, sintetiza essa ética ao advertir sobre a desnecessidade da
caça diante da abundância. Sua fala — “isso é pra vocês nunca mais pensarem que
podem enganar a Mãe Natureza” — não funciona como simples moral didática, mas
como expressão de um saber ancestral, que reconhece limites e consequências.
Quando os caçadores desobedecem, a floresta responde, não como vingança, mas
como reequilíbrio. A narrativa, assim, aproxima-se de cosmologias indígenas e
tradicionais, nas quais a natureza não é recurso, mas entidade viva.
Essa perspectiva ganha ainda
mais relevância quando situada no contexto histórico de Rondônia. Para quem
conhece nossa história, é sabido que há uma tensão entre diferentes ciclos de
ocupação: de um lado, os chamados ciclos da borracha, marcado também por certa violência,
mas também por uma adaptação (ainda que forçada) aos modos de vida mais
próximos dos povos que aqui já estavam; de outro, o chamado ciclo da
colonização, sobretudo a partir da segunda metade da década de 1970, que
intensifica a lógica de exploração e ruptura com a floresta. O livro, ao
recuperar um tempo anterior, não o idealiza, mas aponta para formas de relação
que foram progressivamente sendo apagadas.
Outro elemento que merece
destaque é o diálogo entre texto e imagem. As ilustrações de Edina Costa,
também oriunda de Guajará-Mirim, não apenas acompanham a narrativa, mas a
expandem. Há, nelas, uma paleta e uma composição que evocam a textura da
floresta, contribuindo para a imersão do leitor nesse universo.
Do ponto de vista editorial, é
importante reconhecer o papel que a Editora Temática, responsável pela publicação
do livro, vem desenvolvendo. Em um cenário em que produções regionais
frequentemente enfrentam dificuldades de circulação, iniciativas como essa
assumem uma função crucial na valorização da cultura amazônida, promovendo
vozes e a ampliação da cultura local.
Por fim, O porco-do-mato e
o caçador corajoso de Eva da Silva Alves, pode ser lido como uma obra que
recompõe um imaginário de outros tempos, mas que dialoga diretamente com as
urgências do presente. Em meio à crise climática global, a narrativa nos
convoca a repensar nossa relação com o mundo natural. Ao recuperar saberes e
sensibilidades, o livro reafirma aquilo que muitos xamãs já nos alertaram:
contar histórias é, também, uma forma de adiar o fim — ou, como dizem em
algumas cosmologias, de “adiar a queda do céu”.
Referências
ALVES,
Eva da Silva. O porco-do-mato e o caçador corajoso. Porto Velho:
Temática, 2024.
BENJAMIN,
Walter. Magia e técnica, arte e política: ensaios sobre literatura e
história da cultura. 8ª ed. Trad.: Sérgio Paulo Rouanet. São Paulo:
Brasiliense, 2012. (Obras Escolhidas v. 1)
WUNENBURGER,
Jean-Jaques. O imaginário. São Paulo: Edições Loyola, 2007.
[1] Professor na Universidade Federal de
Rondônia (UNIR), doutor e mestre em Artes pelo Instituto de Artes da Universidade
Estadual Paulista (Unesp), graduado em história pela Universidade Cruzeiro do
Sul (Unicsul); dramaturgo, ator, diretor e integrante do Teatro Ruante.

