Adailtom Alves Teixeira[1]
A frase que dá título a este
texto é dito pela personagem da peça As Marias somos nós, interpretado
pela atriz Kaline Leigue, e que pude assistir ontem no Centro Cultural
do Sesc. Desatino que se soma à coragem, pois só mesmo uma dose de loucura para
enfrentar tantas violências aos corpos de tantas Marias.
O corpo é território, é
coletividade. Somos porque viemos de algum lugar e estamos todas/os vinculados
a um corpo social. No movimento da vida, de nossas histórias, há as
encruzilhadas que nos atravessam e nos conectam a outros saberes. No caso da
atriz, pode-se dizer que um corpo afrodiaspórico encontrou os saberes dos povos
tradicionais na Amazônia ocidental. Como nos lembra Leda Maria Martins em Performances
do tempo espiralar (Cobogó, 2021, p. 59), “[...] o princípio filosófico da
ancestralidade é motriz do corpo individualizado, do corpo coletivo e do corpus
cultural, de todo o pensamento sobre a condição humana, de toda plumagem
ética e estética, de toda a produção de conhecimento, em todos os âmbitos em
que a mesma acontece, dos mais técnicos aos mais transcendentais ou rotineiros”.
Kaline Leigue em cena - Foto Andréa Melo
Kaline vem se debruçando sobre
uma memória ancestral desde seu espetáculo Eva e sua produção
audiovisual – pode ser anterior, mas é desde quando tenho acompanhado – e em As
Marias somos nós aprofunda esse processo porque expande para além de si. A
intérprete, que colabora também com a direção e com a dramaturgia, aqui realiza
um mergulho em suas memórias, mas especialmente sobre a vida de Nilce de Souza
Magalhães, conhecida como Nicinha, pescadora e uma das lideranças do Movimento
dos Atingidos por Barragens de Rondônia (MAB/RO), assassinada a uma década
(2016).
Eliane Brum tem dito e escrito
que a Amazônia é o centro do mundo e qualquer mudança radical que possa
significar a continuidade de nossa espécie, precisa passar por aqui. Brum, no
seu livro Banzeiro Òkòtó (Companhia das Letras, 2022, p. 25) afirma
ainda que “Tanto os povos originários (indígenas) quanto as comunidades
tradicionais (ribeirinhos, beiradeiros, quilombolas etc.) são povos da
floresta. Com a ofensiva dos brancos, tornaram-se também os maiores protetores
da floresta, colocando a própria existência, o próprio corpo como obstáculo à
destruição não só da sua casa, mas do que são coletivamente”. Não há como não
reconhecer a Nicinha da vida real nessa citação e nessa luta. A personagem
Nicinha da peça, segue dialogando com a dona Maria, tenta chamar, mobilizar
mais pessoas para o enfrentamento das forças poderosas da destruição, que chegam
em nome do progresso, ela reconhece: “Sozinha eu não posso”.
As Marias somos nós - Foto Andréa Melo
O teatro é a arte da presença
e do tempo presente, isto é, quando os/as intérpretes se conectam com o momento,
conduz o público, que ocupa o mesmo tempo-espaço, a viver o momento e a
história à nossa frente. Não há passado ou futuro, há o instante. Kaline tem
uma capacidade incrível de pegar nossa mão e nos conectar ao instante narrado,
vívido e vivido. Há uma alegria em cena que transborda. A peça é urgente e
necessária, especialmente em uma região em que os corpos femininos estão sempre
em perigo. Mulher e floresta, tem a mesma raiz feminina.
A dramaturgia de Ecilma Glória
e Kaline Leigue nos brinda com um texto poético, carregado de imagens e
metáforas, que faz com que nos aterremos juntos os pés descalços da atriz.
Palavra é força; pés no chão é conexão. O texto é a demonstração da necessidade
de voltarmos a investir com cuidado na força da palavra em cena.
A direção de Rafael Barros,
com colaboração também de Kaline Leigue, conseguiu deixar uma cena limpa,
apenas com o necessário, nada de excesso apenas para preencher espaços vazios.
O simples, quando bem executado, é o que há de mais belo no teatro.
O mesmo vale para o
cenário/adereços cênicos minimalista, composto pelo casal Andréa Melo e Frank
Busatto. Temos uma cena com poucos elementos: uma paneiro que a atriz carrega
em sua cabeça – nos rememorando uma imagem dos povos originários – e de onde
saem outros objetos que enriquecerão a história, por exemplo, o rio Madeira –
colcha de retalhos –, um rádio, que serve de voz ao progresso e busca convencer
a população; uma pequena canoa, meio de transporte tão caro aos ribeirinhos,
encerra o espetáculo.
Kaline Leigue - Foto Andréa Melo
Há outras pessoas envolvidas
no processo, pois o teatro é uma arte coletiva sempre. Vemos uma atriz em cena,
mas várias pessoas trabalharam para a obra ficar de pé. Não falarei de todos,
mas destaco a preparação corporal da Andréa Melo, pois é bonito quando vemos
silêncios em cena, mas que não preenchidos de significados dados por
movimentos. A coreografia sobre a morte de Nicinha é comovente.
Saí ontem preenchido e com a
certeza de que Nicinha vive em Kaline e em toda mulher luta. Vida longa ao
espetáculo As Marias somos nós!
[1] Professor no Curso Licenciatura em
Teatro da Universidade Federal de Rondônia (UNIR); doutor e mestre em Artes
(área de concentração Artes Cênicas), pelo Instituto de Artes da Universidade
Estadual Paulista (UNESP); ator, diretor, dramaturgo e integrante do Teatro
Ruante.

