segunda-feira, 15 de maio de 2017

Críticas de Luciano Oliveira


Em julho de 2014 três professores universitários tomaram posse no Curso Licenciatura em Teatro e passaram a residir em Porto Velho. Dois vindos de São Paulo, um de Minas Gerais, são eles Adailtom Alves, Alexandre Falcão e Luciano Flávio Oliveira. Meses depois o curso ganhou o reforço de outro mineiro, o professor Luiz Daniel Lerro. Os três primeiros tem contribuído com a escrita acerca da produção teatral portovelhense. Os links abaixo são da produção do professor Luciano, críticas que estão presente em seu blog: https://lucianodiretor.com/




13/09/16 – O barato que sai caro para a formação de público para a dança (produção de outra cidade assistida em Porto Velho)


09/08/15 – Teresinhas – Grupo Meme (o espetáculo ocorreu em Porto Velho, mas trata-se de produção de outra cidade)



segunda-feira, 8 de maio de 2017

A brincante Suely Rodrigues


Adailtom Alves Teixeira[1]

No dia 27 de abril de 2017, às 19:00 h, na Sala do Piano – Unir Centro ocorreu o segundo encontro do Conversas de Quinta: arte e cultura em debate com a atriz, diretora, palhaça e, porque não, brincante Suely Rodrigues, também fundadora do grupo Raízes do Porto. O grupo fará esse ano 25 anos de existência, por si só é mais que um marco. Afinal, existir por tanto tempo produzindo teatro e mantendo um repertório em um país que padece da ausência de políticas públicas estruturantes, sem contar a ausência total no estado de Rondônia e no município de Porto Velho, é digno de nota e de reverência.
Foto: Adailtom Alves - Sala do Piano
Suely é uma pernambucana da cidade de Garanhuns/PE e, a julgar por sua narrativa, desde criança vivia o teatro, pois grande parte das manifestações populares que teve acesso na infância tem partes dramáticas: Boi Bumbá, Festa Junina, Maracatu, entre outros. As cores e a alegria dessas manifestações do povo aparecem no teatro realizado por Suely e quem esteve presente pode acompanhar um pouquinho da história e das imagens mostradas. Um pouquinho mesmo, pois não se consegue explanar 25 anos de história e produção em pouco mais de duas horas de conversa.
Segue os links da conversa, desse encontro com muitos momentos de emoção. Emoção por parte da convidada e dos presentes, que relataram a relação com o teatro do Raízes do Porto. Que venha mais 25 anos! Aproveitem esse documento, que é mais um capitulo significativo da história do teatro portovelhense.
Foto: Adailtom Alves

Vídeos
Parte 1
Parte 2

Áudio




[1] Professor do Curso Licenciatura em Teatro; coordenador do projeto Conversas de Quinta e da linha de pesquisa Memórias da Cena Amazônica do grupo de pesquisa PAKY`OP.

terça-feira, 11 de abril de 2017

Ângela Cavalcante: de rio em rio, a nadar pro mar do teatro


Adailtom Alves Teixeira[1]

Atriz, diretora e professora, Ângela Cavalcante, fez o caminho inverso de muitas atrizes: cursava cinema na UFF (Universidade Federal Fluminense) e abandonou tudo pelo teatro, arte que cursou na Escola Técnica Martins Pena, no Rio de Janeiro, a mais antiga do país. Criadora e criatura de muitos grupos teatrais, saiu do Rio de Janeiro, circulou por diversos países latinos até pousar em Porto Velho em companhia de Alejandro Bedotti, companheiro de cena e de vida por muitos anos.

Passional, como se define em relação ao teatro (e à vida), teve oportunidade de estudar e trocar com pessoas significativas do teatro brasileiro, cabe destacar aqui Amir Haddad e Yan Michalski. Começou a fazer teatro em um momento difícil da história brasileira: ditadura civil-militar. Porém, em fins dos anos 1970, já se vivia o clima da abertura e da Anistia.

Fundou ou fez parte de muitos coletivos como Grupo del Silencio, Cipó e Quebracabeça. Além de ter participado do movimento da CONFENATA (Confederação Nacional de Teatro Amador) e participar de projetos de circulação nacional, pode criar projetos na área de arte-educação junto à Universidade Federal de Rondônia e na pasta da educação do município, de onde saíram diversos artistas.

Criou espetáculos a partir da temática local, sobretudo envolvendo os aspectos do meio ambiente e das lendas, mas também obras significativas da dramaturgia nacional, como A Falecida e Valsa nº 6 de Nélson Rodrigues e Revolução na América do Sul de Augusto Boal, entre outros autores.

Ângela considera o teatro uma ação política, sendo essa também a sua função, devendo sempre instruir, seja a quem faz ou a quem vê. E nisso não há nenhuma concepção pedagógica, no sentido de fazer do teatro algo doutrinário ou jesuítico. Teatro para a diretora é o ato de doar e receber, troca fundamental que só essa arte possibilita.

Traduzir em texto o encontro com Ângela Cavalcante é muito difícil, pois é de um impacto avassalador, a sua pessoa, suas histórias, suas memórias-rios que transbordam e nos inunda com imagens, poesia e a força de uma mulher de classe média que se joga no mundo para viver o teatro e o encontro com o humano.

O encontro ocorreu no dia 30 de março de 2017, na Sala do Piano-Unir Centro e faz parte do projeto de extensão Conversa de Quinta: arte e cultura em debate, realizado por mim. O registro pode ser assistido, ouvido nos links abaixo, mas é certo que o impacto, a força de Ângela Cavalcante, assim como o teatro, é sempre melhor ao vivo.

Áudio completo
https://soundcloud.com/adailtom-alves-teixeira/angela-cavalcante-30-03-17

Vídeo
https://youtu.be/asmyoVKXE_8
https://youtu.be/V2h8Vy5mGmQ

Reflexões




[1] Professor do Curso Licenciatura em Teatro/UNIR; coordenador da linha de pesquisa “Memórias da Cena Amazônica” do Grupo de Pesquisa PAKY`OP.


sexta-feira, 31 de março de 2017

O Rio Madeira, seus peixes e a história do Teatro de Porto Velho


José Maria Lopes Junior[1]

Ângela Cavalcante em Encontro de Quinta: arte e cultura em debate
Sala do Piano - Foto Adailtom Alves
Na quinta-feira 30/03 teve início o projeto “Conversas de Quinta: arte e cultura em debate”, uma ação de extensão do Curso de Licenciatura em Teatro da Unir, e coordenado pelo professor Adailtom Alves.

O projeto tem como objetivo organizar, registrar e cartografar a história do teatro de Rondônia a partir de relatos da memória narrados pelos convidados no Conversas de Quinta.

No primeiro encontro o público foi presenteado com uma grande aula/relato de Ângela Cavalcante. Ângela é atriz, professora da Unir, diretora teatral e uma das fundadoras do grupo Quebracabeça; foi também uma das responsáveis por implantar o primeiro curso acadêmico de teatro em Porto Velho, parceria da UNIR/UNB.

A convidada, de uma maneira sensível, sincera e descontraída, apresentou para o público sua trajetória teatral, a partir de um recorte artístico, ou seja, pelas peças apresentadas; um recorte histórico, por meio dos contextos do teatro em Porto Velho desde a década de 70 e que costuraram o seu fazer artístico;  e um recorte geográfico, a partir de seus deslocamentos teatrais,  saindo do Rio de janeiro, passando pela Bolívia, Peru, Chile, Uruguai e Argentina e por fim seus trânsitos pela Amazônia (Amazonas, Acre e Rondônia).

A partir de seus relatos, a atriz traz depoimentos que nos emocionam e mostram que o fazer teatral e os momentos históricos que passamos é um constante ir-e-vir. Um começar-recomeçar, inventar-reinventar. Ouvir a narrativa de Ângela foi uma valiosa aula de história do teatro, não só rondoniense, mas nacional. O micro e o macro se entrelaçavam em suas narrativas. A América Latina ficou muito próxima da gente em seus relatos. As angústias, inquietações, alegrias e frustrações de uma atriz que toma a sua trajetória para falar do sentido do teatro em seu percurso, da formação de grupos teatrais, da relação com a política, dos impasses com governos e ditadura.
Ângela Cavalcante e Alejandro Bedotti em cena - Foto recolhida na internet

Os relatos da memória de Ângela trouxeram à tona questionamentos sobre o fazer artístico e as relações com a política de uma Rondônia de antes e de agora. Ela não narrou um relato perdido do passado. Pelo contrário, atualiza passados presentes. O seu testemunho nos instiga a pensar o nosso contexto atual nacional e rondoniense. Nos deixa a certeza de que é sempre necessário olhar para traz e consultar a história e a memória para que assim, possamos entender e se colocar no presente.

Enriquecedor escutar a narrativa dessas quatro décadas sobre os caminhos e obstáculos do teatro em Porto Velho, e assim chamar a nossa atenção de que somos piabinhas diante de grandes peixes que já enfrentaram o nosso Rio Madeira. Assim, é sempre necessário resgatar a história, a memória para que não mergulhemos na ingenuidade de que estamos reinventando o tablado no Teatro de Rondônia. Terra de constantes recomeços e que muitas vezes dá a impressão que tudo está sempre começando a partir de agora. Sem olhar para traz e ver os grandes cardumes de peixes que por aí estão e já fizeram histórias.

Parabéns Ângela, sucesso para o projeto.




[1] Doutor em Artes Cênicas pela Universidade Federal da Bahia; professor adjunto da Universidade Federal de Rodônia, Licenciatura em Teatro.

quinta-feira, 30 de março de 2017

A ARTE CÊNICA EM RONDÔNIA

       
Valdete Sousa[1]
O teatro tem uma história específica, capítulo essencial da história da produção cultural da humanidade. Nesta trajetória o que mais tem sido modificado é o próprio significado da atividade teatral: sua função social.

(Fernando Peixoto)

Resumo:     A pesquisa realizada trata das questões relacionadas ao desenvolvimento do teatro no Estado de Rondônia, desde suas primeiras manifestações até a atualidade. Os resultados partem de um estudo de desenvolvimento, feito através de instrumentos de coletas de dados, por meio de  formulários e entrevistas. A trajetória do teatro local inicia-se, ainda no período da construção de Porto Velho, com a instalação da sede da Estrada de Ferro Madeira Mamoré, às margens do rio Madeira.


Palavras Chaves: Teatro, Cultura, Arte, Rondônia.


1. INTRODUÇÃO
                   O objeto de pesquisa discutido no presente artigo é o desenvolvimento das artes cênicas no estado de Rondônia, tema abordado na Monografia de conclusão de curso de Graduação de Letras sob o título O Desenvolvimento do Teatro em Rondônia. Portanto, esta pesquisa delineia a  trajetória que a história do teatro em Rondônia trilhou, desde suas primeiras manifestações até a atualidade, sob o ponto de vista histórico, artístico e social.
                   O tema escolhido justifica-se, pois, não existe no estado, até o presente momento, pesquisas nesta área e não há registros que digam como, quando, ou mesmo se ocorrem essas manifestações. O objetivo geral desta pesquisa fixa-se na arte cênica em Rondônia tomando por base os acontecimentos nos municípios de Porto Velho, Ji-Paraná, Cacoal e Vilhena, observando qual a contribuição que o teatro proporciona a essas comunidades. Bem como, a trajetória que percorreu ao longo da história. Os objetivos específicos referem-se à pesquisa e a catalogação dos principais grupos, atores e técnicos em artes cênicas que estão em exercício no momento ou que tiveram relevância na história do teatro local. Como também, fez-se um levantamento de registros que comprovam a origem da arte no Estado.
                   Tendo em vista cumprir o propósito mencionado, foi feito um estudo de desenvolvimento, utilizando de instrumentos para coletas de informações como entrevistas e formulários. Além de pesquisas nos bancos de dados existentes no Estado, como o Centro de Documentação de Rondônia, Bibliotecas municipais e orgão ligados ao teatro: SATED – Sindicato dos Artistas e Técnicos em Espetáculos e Diversões e FETER- Federação de Teatro de Rondônia. Mas, grande parte da pesquisa foi conseguida através da história oral documentada nas entrevistas e de documentos de arquivos pessoais.

2. DESENVOLVIMENTO

2.1 O Porto de partida     
                   As manifestações culturais no município de Porto Velho, no início do séc. XX, conforme Arimar Souza de Sá (2000, p. 60) afirma, possuía alguns locais demarcados: “O Danúbio Azul, o Bancrévea, o Clube da Elite, onde aportava sem pudor a fina flor da rapiocagem. A casa Saudade e O mundo Elegante, os pontos chiques da moda”.O autor aponta, ainda, os encontros culturais do antigo Porto Velho Hotel, atual Unir Centro, local onde os principais artistas do município encontravam-se. Um dos nomes mais marcantes deste período é o de Dona Labibe Barthólo, nascida em 13 de maio 1909, atriz atuante e muito influente que chega a Porto Velho em 1912. Trabalhou como atriz e cantora, primeiro nos grupos do Madeira-Mamoré, na déc. de 30, que faziam apresentações nas casas de militares, a arte caminhava de casa em casa. Posteriormente, no Cine Phoenix ou em bailes que aconteciam no Antigo Clube Internacional.
                   Sabe-se que entre as décadas de 40 e 60, grandes Companhias de Teatro como a de Tônia Carrero passaram pela Capital. Um grande momento para arte deste período ocorre em 1950 com a inauguração do Cine Teatro Resky.
Porto Velho se rendeu fascinada a majestosa beleza do Cine Teatro (...) A partir daquele momento ele passou a ser o orgulho da população do então Território Federal do Guaporé.(...) Era o grande destaque onde o luxo e o requinte naquela nova sala de espetáculos empolgava. (ELETRONORTE, 2005, p. 76)

                   Neste período, Rondônia possui uma produção ainda insipiente e voltado para a encenação de maneira improvisada. Alguns espetáculos eram projetados para entreter o público nos intervalos de trocas das fitas dos filmes no cinema no início do séc. XX. De certa maneira, esta produção contribuiu para o desenvolvimento do jovem estado de Rondônia, a arte sempre presente em festas, cinemas, serenatas e saraus.
Vê-se que a história do teatro se confunde com a do cinema em Porto Velho, conforme se sabe:
As primeiras salas de espetáculos de Porto velho eram de cinemas e algumas ofereciam condições para representações teatrais, como o Cinema Caripuna, Cine Teatro Phoenix, Cine Rosas, Cinema Ideal, Cine Avenida, Cinema dos Padres, Cine Rocha, Cine Catega, Cine Brasil, Cine Teatro Resky, Cine Lacerda e outras salas que não foram registradas por nossos historiadores. (ELETRONORTE, 2005, p. 33)

Na capital, por volta de 1960, desenvolve-se o teatro radiofônico, feito através da Rádio Caiari que possuía um espaço destinado a produção teatral. Conforme afirma Arimar Souza de Sá, havia “na hora do almoço o Ronaldo Medeiros e seu teatrinho infantil, pela Rádio Caiari, a incitar o ânimo cultural da garotada” e segundo Alejandro Bedotti ”havia algumas cadeiras destinada ao público e se fazia teatro na rádio.”(Bedotti:2008)

2.2 Anos 80: O Auge do Movimento Teatral
Existe um consenso entre os artistas locais de que a década de 80 foi extremamente produtiva. Esse fato é atribuído à diversas razões: I - em 24 de maio de 1978, há a regulamentação da profissão de artista e técnico em espetáculos e diversões, através da lei nº 6.533, e pode ter surtido um efeito energizante para os artistas que passam a organizar-se em grupos; II - o intenso fluxo de pessoas que migravam de outros estado; e III - a criação da FETER - Federação de Teatro de Rondônia, em 1982, ajudou a organizar o movimento. Assim, no final da década de 70 e em toda a década de 80, pode-se encontrar grupos teatrais nas cidades situadas ao longo da BR 364.
Em 1976, há registros que comprovam a atividade teatral em Porto Velho. O grupo Terra ao qual pertencia o artista plástico Geraldo Cruz e o prof. Oswaldo Gomes Oliveira atuava, conforme afirma Geraldo, com um forte cunho político, em decorrência dos resquícios do ainda recente golpe de 1964. O grupo produziu um texto poético, também intitulado Terra, levando aos palcos a temática do meio ambiente. Alguns artistas mudavam-se para a região Norte fugindo da perseguição do eixo Rio-São Paulo, dessa maneira Rondônia ganhou alguns atores, diretores e autores nesse período.  Assim, contribui para uma nova formação no teatro local, a chegada de dois artistas do Rio de janeiro contratados pelo SESC para ministrar aulas de teatro, em Porto Velho, Alejandro Bedotti e Angela Cavalcante.
Esses profissionais, montam um grupo no Sesc, e trazem do Rio de Janeiro o espetáculo de bonecos Panelândia. Em seguida, fundam o grupo Cipó e montam um texto com temática regional Rio que é rio é... gente de Bedotti, que apresenta algumas lendas do folclore amazônico. Em entrevista Angela (2008) conta que:
Quando chegamos aqui, viemos pelo Sesc, a gente encontrou boatos, mas na verdade, não vimos nada. Sabia-se que já tinha o grupo Terra, O filho do homem(...) Então, criamos um grupo de teatro no sesc, anos depois, começamos a apresentar a Panelandia, que era um espetáculo do Rio de Janeiro que estava em cartaz nos parques e jardins lá, tinha bonecos tipo formas animadas. Juntamos as pessoas: era o Jango, Amauri, o Jota e nós, depois foi chegando mais gente. Então nós criamos o grupo Cipó para montar um espetáculo para a secretaria de educação. Era sobre temas amazônicos e se chamava Rio que é rio é...gente. Aí começou o trabalho com o grupo Cipó. (...) tivemos que ir embora do Território. No dia que estava virando Estado nós voltamos, então viemos pra cá (...) e nós fomos ficando, então nós montamos o Quebracabeça.

O grupo se desfaz e o casal funda, em 06 de setembro de 1982, o grupo de teatro amador Quebracabeça, que segunda consta, foi o primeiro grupo com personalidade jurídica do Estado. Durante o período em que ficou ativo montou diversos trabalhos, tais como Sapo Tarô-Bequê, Tempo bom com poesia pasquim, Banda Picolé, Rádio nossa de cada ouvinte, que eram apresentados em praças e auditórios.
O grupo Êxodo surge a partir de um grupo de jovens que reunia-se na igreja Nossa Senhora das Graças, em Porto Velho, e passa a funcionar como entidade jurídica em 25 de julho de 1984, com o nome de Clube Teatro Êxodo. Tem como sócios-fundadores José Monteiro, o jornalista Zogbi e Omedino Pandoja. O primeiro texto produzido foi O filho do homem, atualmente, O homem de Nazaré. O grupo possui cerca de 20 atores permanentes e durante a temporada de apresentações admite pessoas da comunidade que compõem o elenco. Ao final, são cerca de 300 pessoas em cena.
Na Porto Velho da década de 80, todos os dias surgia um novo grupo, pois o movimento teatral mostrava-se vivo e promissor. Cite-se os grupos que mais obtiveram destaque no período: O Grupo Porantin, ao qual pertencia o ator Jango Rodrigues que trabalhou com teatro de bonecos junto com Cláudio Vrena. Jango mantinha, com recursos próprios, um local denominado Espaço Curumim, destinado a receber artistas de outras localidade e a ser ponto de encontros culturais. O grupo É do mela volta ou do Mela continua? também esteve presente em muitos momentos, no teatro rondoniense, com a atriz Lenny Carneirinha de Lisboa.
O Água de Chocalho do ator Xuluca Dantas, foi um espaço pelo qual passaram muitos outros atores que atuam no teatro local, como é o caso de Greg Silva e Lú Rodrigues que participaram, em 1986, do Água. Trabalhavam com animação de festas e alguns projetos como Hoje tem espetáculo que trazia a peça  Pimpão, Alegria e confusão (Waldemar Silas, 1989) apresentados em escolas, no Teatro Municipal de Porto Velho e no Sesc.
Em Ji-Paraná, conforme afirma Firminetto Mendes, em 04 de abril de 1981, surge o Arterial seu registro data de 26 de setembro de 1984, fundado por Firmineto Mendes e sua irmã Floraci Mendes Silva. Uma das primeira peças criadas pelo grupo explora o improviso: os personagens Ourino Fedegoso e Caboeta saíam pelos bares da cidade encenando através de um roteiro, sem texto escrito. Em 1984, montam o espetáculo O sentir de nossa gente de Francisco Carlos Silva que foi apresentado em diversos municípios do estado, no Acre, Bahia, Espírito Santo e Mato Grosso.
O grupo, em cerca de 20 anos de história, montou muitos espetáculos de autores locais tais como: Firmineto Mendes(Ji-Paraná) com O manchão e o travesti, Eu não estou louco e Saga da Amazônia; Sheila Ferreira(Ji-Paraná) com Por Favor nos aposentem e Vilão? Aqui não!; Luiz Antônio de Araújo (Porto Velho) com Lulu e Mon’ Amor, Joaquim Inocente e O Menino Jardineiro e a Rosa do ano inteiro; e ainda Quando eu Crescer de Francisco Carlos Silva(Ji-Paraná), Perdidos na Floresta de Antero de Sales(falecido), Eu, Você e eles de Suely Rodrigues (Porto Velho) e Casamento em Crise de Rogério Casovik Viana (Ji-Paraná). Através de todas essas montagens o Arterial recebeu dois prêmios pela Funarte e um pela Petrobrás.
Em 1986, foi criado por Gregório Silva e Lucimar Rodrigues, em Ji-Paraná, o Grupo de Teatro Amador Fama que atuou por pouco tempo, montando os espetáculos: Canteiros(1986) texto de Romildo Monteiro(DF), Proibido ver I, Proibido ver II(1989) (adaptação de textos) e Yapuna-Caá, estrela das águas(1989) (texto adaptado). Seus fundadores mudam-se para Porto Velho, em função da força do movimento teatral na Capital, e começam a participar do Grupo Água de Chocalho. Cite -se ainda o Grupo Shallon que atuou no município em 1987 montando textos de cunho religioso.
                  Em Vilhena, encontra-se em 1986, o Group Novamente, do ator Bráz Divino,  escritor da primeira peça montada, Pé de Guerra, que dirigiu e atuou com Sandra Pedron. O grupo participou de congressos e festivais no Estado até 1993, ano que inicia um longo período de inatividade. Somente em 2004, Bráz produz o monólogo de Alexandro Bedotti A rede. O ator organiza periodicamente, durante o ano de 2006, o Retreta, em bares noturnos, uma espécie de Sarau em que qualquer pessoa pode participar com alguma atividade artística.
                   Na déc. de 80,  muitos grupos surgiram e outros tantos desapareceram em poucos anos: em Cacoal, registra-se o Sol criado por Claudio Vrena e o Essência das coisas(1986), de onde surge Chicão Santos; no cone sul, havia o Senzala, em Colorado do Oeste;  em Porto Velho, observa-se alguns grupos de teatro de bonecos como é o caso do grupo Porantim, Encenação, Teara, É do mela volta ou do mela continua? e o Cuniã. Além desses, havia atividade teatral em escolas e igrejas em diversas cidades, inicia-se nesses ambientes grande parte dos grupos do Estados.

2.3 Anos 90: O Teatro Estudantil
                   A década de 90 inicia-se com mudanças no cenário teatral, a maioria dos grupos criados anteriormente se dissolve, continuam existindo: o Arterial, o Êxodo, o Group Novamente. Paralelamente, surgem alguns grupos novos como o Raízes do Porto em 1992, fundado por Suely Rodrigues, que adquire grande espaço no estado e na região, pois participa de festivais no Acre e em Manaus. O primeiro texto montado pelo grupo é de Suely, Eu, vocês e eles. Desde sua criação, esteve ativo mantendo sempre um espetáculo diferente em cartaz, são cerca de 17 texto produzidos de 1992 a 2007. Grande parte são obras de artistas locais, porém também produziram clássicos infantis. Cite-se: Suely Rodrigues com Eu, Vocês e Eles, Minhoca na Cabeça, Histórias do Sítio, Mateus e Zulmira e Porções e Magias (adaptação das poesias de Nilza Menezes); Tira a canga do boi de Marcos Freitas; Confissões de um espermatozóide careca de Carlos Eduardo Novaes; A formiga Fofoqueira de Carlos Nobre; Flicts, a cor de Aderbal Júnior e Os saltimbancos de Chico Buarque de Holanda.
Porém, a década de 90 é marcada por outro tipo de manifestação teatral: o teatro estudantil. Registra-se, ao longo da década, diversos grupos e festivais que partem da iniciativa de alunos e professores de escolas particulares e municipais em todo o estado. Em Porto Velho, há a criação do Grupo de Teatro Oficina da Unir, dirigido por Angela Cavalcante, que neste período era integrante da DIAC/UNIR e ministrou três cursos para os alunos. O Oficina produziu, Revolução da América do Sul(1990) de August Boal, Os sonhos de Tom e Théo(1991) de Arnaldo Miranda e Hep e Heg - Os moleques(1992) de Arnaldo Miranda.
                   Fato importante também foi o surgimento do GRUTTA - Grupo Regional Unidos Trabalhando pelo Teatro Amador, em 1991, por iniciativa da Prof. Léia Leandro da Escola Risoleta Neves. Em 1994, o GRUTTA possuía, cerca de 48 integrantes, e mantinha apresentações no espaço do Teatro I do Sesc, além de uma oficina permanente semanal que desenvolvia atividades de reciclagem teatral. O espaço conquistado por esse grupo é relevante e a partir dessa iniciativa outras escolas também envolveram o teatro em suas atividades. Como ocorre na Escola Kepler, onde se desenvolve o Grupo Art Kepler, que destacava-se entre os grupos de escolas particulares. Ocorria, em Porto Velho, em 1993, diversos festivais de teatro estudantil, congressos e encontros de teatro amador. Além disso, o grupo organizou um Festival de Teatro  entre as escolas particulares de Porto Velho. Assim como o movimento teatral estudantil estava forte em Porto Velho, no restante do estado não era diferente.

2.4 Anos 2000: Uma nova fase
Ao longo de sua história, o teatro produzido em Rondônia acumulou experiências e desenvolveu-se em diversos sentidos. Os profissionais que atuam após a década de 90, buscam uma atividade teatral mais concisa, e muitos tem o  teatro como profissão ou ligam de alguma maneira sua atividade profissional ao teatro. A atuação de artistas como Alejandro Bedotti, Angela Cavalcante e Firminetto Mendes, durante mais de duas décadas, trouxeram para o teatro local grande desenvolvimento quanto à formação de atores, diretores e outros profissionais da área. O resultado dos cursos e oficinas ministrados por esses profissionais irão aparecer nesse momento. Os grupos que surgem, demonstram maior preocupação estética, mais responsabilidade com o público.
Assim, temos artistas antigos como Chicão Santos, formando grupos novos como a Associação Cultural O Imaginário, surgido em 2005, um grupo preocupado com a formação de seus atores e da platéia, que viaja o estado promovendo oficinas e divulgando seus espetáculos, além de participar de festivais em outros estados. Junto com o Raízes do Porto são atualmente os dois grupos mais conhecidos e ativos de Porto Velho.
Encontra-se também, em Cacoal, atividade teatral com o grupo Risoterapia, formado em 2003, pelo ator Edimar Oliveira que trabalha com texto de comédia, todos escrito pelos próprios atores. Desde sua criação, manteve-se ativo, montando espetáculos periodicamente,  são mais de 13 peças, dentre elas, cite-se: Penosa do sul vai às urnas, Quem matou Tenório?, O pecado da Carne, Homem por um fio, O Madrasto, O escritor, Programa de Quinta, Pequenos cérebros, grandes bobagens e Dolores da Madrugada. Assim como o grupo Nada d+ da atriz Tainah Musa Lobato que é formada em Artes cênicas e além do trabalho com o grupo de teatro produz oficinas paralelas.
                   O Cone sul do Estado, ainda possui uma produção insipiente. Apesar de existirem grupos atuantes, em Vilhena, a produção é pequena e em sua maioria de cunho religioso. Um exemplo é o grupo The Crasy formado em meados de 2000 por jovens da Igreja católica. Assim como o Manah, grupo desenvolvido por pessoas da Igreja Comunidade Cristã que além da atividade teatral engloba a música gospel. Também de cunho religioso é o grupo Tempus, criado por atores oriundo do Manah. O Canaã, de criação de Josemar Fernandes, surgiu de atividades estudantis, dentro da Escola Zilda da Frota Uchôa.
Além desses, em Vilhena atua, desde 2004, o grupo de teatro Wankabuki surgido da iniciativa do professor Oswaldo Gomes Oliveira e das  acadêmicas da Universidade Federal de Rondônia Valdete Sousa, Diomar Soares e Núbia Rodrigues, em 16 de agosto de 2003. O grupo montou Morte e Vida Severina uma adaptação do texto de João Cabral de Melo Neto por Luiz Antônio de Araújo, A Lenda da Ecologia, texto do Prof. Oswaldo Gomes, e o texto Tragédia no Lar adaptação das poesias de Castro Alves por Valdete Sousa.

3. CONCLUSÃO
                  Conclui-se então que o início das artes cênicas no Estado ocorre sem planejamento ou teoria a seguir. Mesmo assim, houve um aprimoramento e surgiram técnicas, textos e grupos ao longo da história. Do teatro dos grupos do Madeira-Mamoré e de Dona Labibe, poucos dados restaram.         As apresentações para o público dos cinemas portovelhenses da década de 50, ocorridas nos intervalos das trocas de fitas, serve como marca de um período e do comportamento de um povo. Assim como, é prova da evolução do teatro local que, nesse momento, migra das casas e clubes para o palco dentro dos cinemas. O público, também é outro. Quem vai ao cinema tem o intuito da diversão, o teatro passa a ser mostrado para um público seleto e elitizado.
                  O período promissor do teatro de Rondônia firma-se nas formações de grupos, prevalece a “idéia coletiva”. Assim, as décadas de 70, 80 e 90 serão repletas de formações e desaparecimentos de grupos. Esse movimento, serviu para que os profissionais se aprimorassem, são geradas oficinas, cursos, discussões, festivais, seminários e todo tipo de atividades que sem a coletividade ficaria mais difícil ocorrer. Nos últimos anos,  observa-se uma mudança de comportamentos. Ainda há, certamente, muitos grupos desenvolvendo-se, principalmente no interior do estado, mas vigora os princípios de individualidade. Os profissionais das artes cênicas estão aprendendo a trabalhar como nos grandes centros culturais: um produtor que contrata diretor, atores, iluminador, e todos os profissionais necessários.
                  Fato é que as produções rondonienses existem e possuem valor reconhecido, tanto dentro do estado quanto fora dele. É o que se vê nas participações feitas por grupos locais em festivais no Acre, Manaus, Recife, entre outras localidades. Dessa maneira, resta concluir-se que esta pesquisa comprova a existência das artes cênicas de Rondônia a qual segue uma linha evolutiva paralela aos acontecimentos no Brasil, com suas particularidades e necessidades.

4. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
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ASSIS, Machado. Críticas teatrais. São Paulo: LEL. Proveniente de www.dominiopublico.gov.br [s.d.]. p.200-229.
BERRETTINI, Célia. O teatro ontem e hoje. São Paulo: Perspectiva, 1980.
BORIE, ROUGEMONT & SCHERER. Estética teatral: textos de Platão a Brecht. 2ed. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, 2004.
BRECHT, Bertold. Diário de trabalho. Vol. I. Rio de Janeiro: Rocco, 2002.
BORZAKOV, Ary Pinheiro – DIAS, Antônio Gonçalves(org.). Compêndio da história e cultura de Rondônia. Vol. III. Porto Velho: FUNCER, 1995.
BORZAKOV, Yêdda Pinheiro. Rondônia Cabocla. Porto Velho: Instituto histórico e geográfico de Rondônia. Academia de Letras de Rondônia, 2002.
BRANDÃO, J. De Souza. O teatro grego: tragédia e comédia. 6ed. Petrópolis: vozes, 1985.
CADEMARTORI, Lígia. Períodos Literários. 7ed. São Paulo: Ática, 1995, p. 36.
CAMARGO, Roberto Gill. A sonoplastia do teatro. Rio de Janeiro: Instituto nacional de artes cênicas, 1986.
DESLANDES, Suely F., GOMES, Romeu. Maria Cecília de S. Minayo(org). Pesquisa social: teoria, método e criatividade. 25ed rev. atual. Petrópolis(RJ): Vozes, 2007.
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STANISLAVSKI, Constantin. A preparação do ator. 21ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2005.




[1] Graduada em Letras pela Universidade Federal de Rondônia. E-mail: valdetesous@hotmail.com

terça-feira, 28 de março de 2017

A força da memória


Adailtom Alves Teixeira[1]

O autor galês Raymond Williams, em seu texto A cultura é algo comum, apresenta o termo cultura com dois sentidos fundamentais: modo de vida e a maneira como se aprende e se expressa um povo. Assim, a cultura é algo comum a todas as sociedades humanas, que se expressam por meio das instituições, das artes e do conhecimento, revelando, dessa forma, todo o poder de expressão de um povo, uma comunidade, um grupo social.


E é justamente ao compreendermos esse sentido da cultura que o Projeto Quilombo, realizado pelo O Imaginário, exprime toda sua força. Seja como recuperação da memória de uma comunidade, seja por travar diálogo com realidades distintas, isto é, permitindo àqueles que não são quilombolas poderem se aproximar um pouco dessa história, a partir do levantamento de material e da criação de uma exposição e uma videodança. Além disso, trouxe algumas pessoas do universo pesquisado, proporcionando, para quem compareceu ao Tapiri (sede do grupo), momentos de trocas e diálogo.

O Imaginário foi criado em 2005, de lá pra cá vem contribuindo com a cena portovelhense e amazônica por meio de seus espetáculos, bem como com a realização de grandes projetos, como o Festival Amazônia Encena na Rua – uma referência nacional para grupos e artistas que praticam o teatro no espaço aberto. O Projeto Quilombo é mais um mergulho na cultura rondoniense, nesse caso, na cultura de matriz afro, universo, ainda pouco conhecido e marginalizado.

Maurice Halbwachs, em seu livro A memória coletiva, afirma que, quando um grupo social se insere em determinado espaço, ele “(...) o molda à sua imagem, mas ao mesmo tempo se dobra e se adapta a coisas materiais que a ela resistem” (2008, p. 159). O projeto tem muitos elementos importantes, o primeiro é nos revelar parte dessa cultura ainda pouco conhecida. O que fica claro, como deixa transparecer Halbwachs, é que o quilombo rondoniense é distinto daqueles que conhecemos no Sudeste, por exemplo. É possível perceber traços da cultura ameríndia na expressão dos quilombolas. Dessa forma, seja pelas características da região, seja por causa do contato com os povos do lugar, os primeiros negros moldaram e foram moldados pelo lugar. Logo, trazer à tona parte dessa história já é, em si, meritório e significativo para todos que se interessam pela cultura em nosso Estado.

Outro aspecto diz respeito à autoestima que um projeto dessa natureza pode provocar nas pessoas pesquisadas, já que se trata de uma cultura historicamente negligenciada e que vem lutando para se afirmar. Apesar de algumas conquistas, sabemos, que esse grupo social ainda tem muito por conquistar, como fica patente pelos relatos no documentário – mais um dos produtos gerados pelo projeto.

Ainda em relação a autoestima, aproveito para relatar a beleza estampada nos olhos de uma participante do projeto, na condição de detentora do conhecimento de sua história e que apresentou seu relato para o projeto. Em nossa conversa, tons de saudade e a alegria de poder viver aquele momento, ao se ver representada pelo projeto no espaço do Tapiri.

Edna Almeida, educadora de trânsito em Guajará-Mirim e que, como disse, fez questão de estar presente no lançamento da exposição, da videodança e do documentário, frutos do Projeto Quilombo. Pudemos fruir a exposição juntos, eu, ela e Chicão Santos. Depois o último, na condição de anfitrião e de produtor, se retirou devido a seus afazeres e ficamos vendo as fotografias expostas na parede e no ar, penduradas por uma estrutura, decoradas por chitas. Difícil descrever e traduzir a alegria, a emoção da Edna em se ver ali representada, embora não tivesse fotos suas, mas dos seus. Ela repetiu algumas vezes: “essa é a minha história.” Alguns momentos seus olhos marejaram ao ver o rio e as pessoas nas imensas fotografias à nossa frente; citava os nomes de cada homem e de cada mulher daquelas imagens. Falou também da dança típica, o rasqueado, dos momentos religiosos, todos registrados em fotos à nossa frente.

As fotos de autoria de Andréa Melo, Chicão Santos e Raíssa Dourado são belíssimas, não só pela plasticidade, pelas cores, mas, sobretudo, porque captaram movimentos de trabalho, de lazer e religiosidade, isolando-os, ao mesmo tempo em que revelam a geografia espacial e humana. Se, grosso modo, dança é organização do movimento no espaço, cada fotografia, captou movimentos da dança maior que é a cultura dos quilombos rondonienses. A videodança, segue na mesma linha, a diferença é que os põe em movimento. Assim, os dois vídeos (GuariterêBenguela e Quilombolas: veias negras do Guaporé), a exposição e o encontro ao som do rasqueado se completam, ao transpor para a cidade de Porto Velho, ainda que de forma momentânea, a cultura quilombola do Vale do Guaporé.

Por fim, cabe informar que o Projeto Quilombo, Residência Artística Flutuante pelas águas do Vale do Guaporé, no Estado de Rondônia – Amazônia, foi contemplado pelo Prêmio Funarte Klauss Vianna de dança de 2015 e vem sendo realizado desde agosto de 2016, o que demonstra a importância das políticas públicas de cultura para viabilizar projetos dessa importância, sem apelo comercial, mas fundamental para enriquecer o nosso imaginário.

Bibliografia
HALBWCHS, Maurice. A memória coletiva. Trad.: Beatriz Sidou. São Paulo: Centauro, 2008.
WILLIAMS, Raymond. Recursos da esperança: cultura, democracia, socialismo. Trad.: Nair Fonseca, João Alexandre Peschaski. São Paulo: EDUNESP, 2015.




[1] Professor do Curso Licenciatura em Teatro da Universidade Federal de Rondônia; Mestre em Artes pela Universidade Estadual Paulista(UNESP); Membro do Grupo de Pesquisa Paky`Op; Membro do GT Artes Cênicas na Rua da ABRACE; Articulador da Rede Brasileira de Teatro de Rua (RBTR); ator e diretor do grupo Teatro Ruante.