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segunda-feira, 13 de fevereiro de 2023

Porto Velho: A Igreja católica e o teatro

Adailtom Alves Teixeira

A Igreja Católica também cumpriu papel interessante na cultura, por meio das Comunidades Eclesiais de Base (CEB), pois criava espaço de convivência e expressão para os jovens, sendo um dos meios o teatro. Assim, no início da década de 1980, o MOJUCA, que depois veio se chamar O Filho do Homem – mesmo nome do espetáculo – e atual Grupo Êxodos, existente até hoje, foi uma de tais expressões.

Incentivado pelos membros da Teologia da Libertação, as CEBs agregavam as pessoas de uma determinada comunidade em torno de problemas comuns, além de estudarem a bíblia pelo método do ver-julgar-agir, fazendo com que seus integrantes discutissem e buscassem soluções aos problemas comuns. Muito forte nas décadas de 1970 e 1980, foi também, em muitos casos, espaços de oposição às arbitrariedades da ditadura civil-militar do período. Como o processo de avanço da chamada última fronteira se deu em tal contexto, isto é, a integração da região amazônica, não foi à-toa que houve muitos enfrentamentos por parte do poder instituído com os integrantes da Igreja, vista como adversária por defender os povos da floresta e se colocar contrária ao latifúndio que estava se constituindo na região (ver mais aqui).

Em Porto Velho, no campo teatral, uma das expressões surgidas nessas comunidades foi um grupo existente até hoje, o Grupo Êxodos, que realiza a encenação da Paixão de Cristo – O homem de Nazaré – no espaço chamado Jerusalém da Amazônia, inspirado em outra cidade cenográfica situada em Pernambuco. A encenação é realizada por dezenas de pessoas e assistidas por milhares. Abaixo um documento do princípio desse trabalho na cidade de Porto Velho.
Jornal Alto Madeira, Porto Velho 26 e 27 de abril de 1981, p.3.


quinta-feira, 2 de fevereiro de 2023

O MOBRAL E O TEATRO

 

Adailtom Alves Teixeira

O Movimento Brasileiro de Alfabetização (Mobral), criado durante a ditadura empresarial-militar (1964-1985), foi um processo de educação de jovens e adultos em um Brasil de muitos analfabetos, entretanto foi extremamente contraditório, posto ter sido criado em oposição à uma educação popular, que tinha como modelo o método Paulo Freire – que acompanhava as mudanças do país nos anos 1950 e 1960 (para saber mais, aqui). Não obstante, o Mobral tinha também um braço cultural e foi, ao que tudo indica, bastante ativo em Rondônia, realizando festivais, cursos de teatro, entre outras atividades culturais. Os documentos aqui apresentados, dão uma pequena mostra de tais processos.

Cláudio Vrena, criador do grupo Cuniã, que começou sua carreira artística em Cacoal, afirma em entrevista à Maria Luzia Ferreira Santos (2021), que ao saber que haveria um curso de teatro de bonecos realizado pelo Mobral na capital, se deslocou até Porto Velho para conhecer de perto essa experiência e nunca mais parou com o teatro de animação. Além da formação por meio de cursos, é possível verificar que grupos teatrais eram convidados, como o Apocalipse, que apresentou em 1981 na cidade de Ariquemes.

As ações do Mobral e quanto estas influenciaram ou não a cena artística local é mais um dos pontos ainda pouco conhecido e que merece ser melhor estudado. Cabe ressaltar que, apesar de sediado em Porto Velho, além do processo educativo, o Mobral realizava ações culturais em outras cidades. Abaixo apresentamos quatro documentos/matérias do jornal Alto Madeira acerca de ações da instituição em 1981.

Jornal Alto Madeira, 13 de março de 1981, p. 3.

Jornal Alto Madeira, 20 de fevereiro de 1981, p. 3.

 

Jornal Alto Madeira, 18 de junho de 1981, p. 3.



Jornal Alto Madeira, 22 de julho de 1981, p. 1.




Referências

SANTOS, Maria Luzia Ferreira. A arte de produzir bonecos e sua manipulação: a estética e a plástica dos bonequeiros de Porto Velho-RO. Porto Velho: Temática, 2021.

quarta-feira, 25 de janeiro de 2023

Do Silêncio ao Quebracabeça

 

Adailtom Alves Teixeira

A fluminense Ângela Cavalcante e o argentino Alejandro Bedotti chegaram em Rondônia em 1979, passando antes em Rio Branco/AC para ministrarem oficinas de teatro. A dupla aportam com o Grupo del Silencio. Bedotti veio para trabalhar no Sesc, entretanto rompe rapidamente com a instituição e saem novamente em viagem. Criam o Grupo Cipó, conforme me relatou Ângela, já não eram apenas os dois, havia atores locais, então melhor seria um outro nome.

A vivência Amazônia toco-os profundamente, realizaram laboratório “do outro lado do rio”, como afirmou Cavalcante em entrevista. O objetivo era levar à cena os sons e aquela sensação para o espetáculo  Rio eu rio é... gente!, que teve estreia no auditório da Escola Estadual Camela Dutra – a época era um único espaço com algo que se aproximava a uma casa de espetáculo – em 1981.

Logo após a estreia, o grupo teve oportunidade de se apresentar em outros estados, pois participou do projeto nacional, o Mambembão, realizado pelo Serviço Nacional de Teatro, vinculado ao Ministério da Educação e Cultura (MEC). Na matéria do jornal Alto Madeira (Cf. imagem), somos informados que o grupo estava em São Paulo, no teatro Maria Della Costa.

Jornal Alto Madeira, 21 de janeiro de 1981, p. 3

continuidade da matéria
Jornal Alto Madeira, 21 de janeiro de 1981, p. 3

No ano seguinte, 1982, Cavalcante e Bedotti abandonam novamente o nome Cipó e criam outro coletivo, o Quebracabeça, que apesar de estarem longe da cena a um certo tempo, existe até hoje. Muitas foram as pessoas que circularam e se formaram nos coletivos criados por Ângela e Alejandro, artistas de proa do movimento teatral do estado de Rondônia, sobretudo na década de 1980, quando participaram ativamente com outros atores e atrizes da criação da Federação de Teatro Amador, mas isso é história para abordarmos em outro texto.


quarta-feira, 18 de janeiro de 2023

O teatro da década de 1980 em Porto Velho: contexto

 

Adailtom Alves Teixeira[1]

             A criação deste blog se insere em um processo de pesquisa iniciado em 2017, quando desenvolvi um projeto de extensão pelo Departamento de Artes da Universidade Federal de Rondônia (Unir), junto ao Curso de Licenciatura em Teatro, chamado de Conversa de Quinta: arte e cultura em debate. Naquele momento foram realizados alguns encontros com diversos fazedores e registrados em vídeo, disponibilizados em meu canal no YouTube. O objetivo era conhecer um pouco mais da história do teatro local, já que eu havia aportado na cidade em 2014. Tal projeto desembocou em um projeto de pesquisa maior, um doutoramento, ainda em curso, no qual eu pesquiso quatro décadas da prática dessa linguagem na capital rondoniense (1978-2018). Por estar no último ano do doutoramento e posto que a década de 1980 está um pouco mais distanciada, vou registrar e divulgar por aqui alguns documentos encontrados ou disponibilizados pelos fazedores daquele período, de forma que outros/as pesquisadores/as e interessados/as em geral possam acessá-los.

            A década em tela é significativa por diversos motivos, afinal foi em dezembro de 1981 que Rondônia deixou de ser Território e passou a ser Unidade Federativa, fazendo com que a bandeira brasileira ganhasse mais uma estrela. Além disso, foi uma década de muitas mudanças e esperanças, viveu-se o fim de uma ditadura que durou vinte e um anos; houve todo um movimento político forte e a criação de um pacto nacional, elegendo deputados/as constituintes e daí nascendo uma nova Constituição (1988), vigente até hoje; em Rondônia houve esperança de uma nova vida para muitas pessoas, pois naquele momento teve um intenso crescimento populacional, devido as grandes levas de migrantes que o estado recebeu, processo que impactou também a linguagem teatral, sendo que, até hoje, muitos dos fazedores mais experientes e ainda atuantes são pessoas vindas de outros lugares do Brasil e aqui auxiliaram na diversidade cultural da cidade de Porto Velho por meio do teatro.

             

Matéria do jornal Alto Madeira, publicado em 22 e 23 de fevereiro de 1981 à página 3.

O primeiro documento que ora apresento, ainda não é sobre teatro, mas justamente uma matéria do jornal Alto Madeira que aborda essas grandes mudanças que ocorria em Rondônia: a mudança de Território para estado; o crescimento populacional devido à migração, posto que o censo revelou uma verdadeira “explosão” em uma década, já que em 1970 eram pouco mais de 150 mil habitantes que ocupavam sobretudo Porto Velho e Guajará-Mirim e em 1980, devido aos mais de 500 mil migrantes – que continuariam a chegar por toda década, chegou próximo de um milhão de habitantes; a matéria apresenta Rondônia como um estado agrícola, em certa medida graças aos projetos de colonização que havia na época, tanto que foram assentadas 12 mil famílias no ano anterior (1980) e se previa o assentamento de mais 15 mil em 1981. Evidente que todos esses processos são contraditórios e merecem serem conhecidos e esmiuçados, não é meu intuito aprofundar aqui, mas fica o alerta cabendo apenas informar que há pesquisas sobre tais temas.



[1] Doutorando em Artes pelo Instituto de Artes da Universidade Estadual Paulista (Unesp); mestre em Artes pela mesma instituição; graduado em História pela Universidade Cruzeiro do Sul; professor adjunto do Departamento de Artes da Unir; autor do livro Teatro de Rua – identidade, território pela Giostri (2020) e coorganizador do livro Paky'op: experiências, travessias, práxis cênica e docência em Teatro pela Edufro (2022); articulador da Rede Brasileira de Teatro de Rua (RBTR); ator e diretor teatral; integrante do Teatro Ruante.

terça-feira, 3 de janeiro de 2023

A cultura rondoniense merece uma secretaria

 

Adailtom Alves Teixeira[1]

             O governador Marcos Rocha (União Brasil), reeleito para mais quatro anos nomeou para a Superintendência da Juventude, Cultura, Esporte e Lazer (Sejucel) o ex-jogador Júnior Lopes (Lourival Júnior de Araújo Lopes), que agradeceu o mandatário: “Obrigado @celmarcosrocha, o senhor tem toda minha admiração e respeito, tem sido um líder incrível para mim, cuidando e me orientando nos mínimos detalhes, me tratando como um Filho, não tenho palavras para lhe agradecer por essa oportunidade, pois para mim não se trata de um cargo, mais se trata de uma posição que terei a oportunidade de potencializar tudo que meu pai e eu Fizemos a vida inteira sem pedir nada em troca, que foi Transformar vidas através do Esporte, proporcionando lazer, trazendo cultura e ajudando os jovens do nosso Estado” (disponível aqui). Até onde apuramos, a carreira do atleta o qualifica para assumir a gestão do esporte, posto ter larga experiência na área. No entanto, há que se perguntar: e a cultura?

            Perdida em uma pasta sem status de secretaria e somada a diversas outras áreas, a cultura em Rondônia vem sofrendo seus percalços, pois as pessoas alocadas nas últimas gestões para gerirem a Sejucel vem de áreas poucas afeitas à cultura. A gestão dos recursos advindas da Lei Aldir Blanc – em Rondônia foram mais de 18 milhões de reais –, revelou a imensa potência criativa e artística no estado e a evidente necessidade de uma pasta própria, com pessoas que entendam dos fundamentos da cultura, de suas políticas e gestão. E desde já, cabe ressaltar que o poder público não tem que fazer cultura, mas criar as condições para quem de fato faz, seu papel é criar, em diálogo com o movimento cultural, políticas públicas adequadas, de forma a permitir a expressão artística em sua potência, garantindo o acesso das artes às/aos cidadãs/ãos em geral.

            A Rede ProCultura, movimento articulado em todo o estado, vem discutindo e pleiteando que a cultura seja desmembrada da Sejucel e que seja criada uma secretaria específica. Na última eleição esta foi uma de suas reivindicações, por meio de documento (aqui) entregue para alguns candidatos. No entanto, durante a campanha o movimento não foi recebido pelo governador Marcos Rocha, mas cabe informar que este, em entrevista no programa Conexão do Rondônia ao Vivo (aqui), manifestou seu desejo de desmembrar a Superintendência, mas tratando apenas do esporte, isto é, prometeu separar o esporte das demais áreas.

            Faz-se necessário uma secretaria específica de cultura, posto haver inclusive uma política pública no estado, o Fundo de Desenvolvimento Cultural, ainda que venha funcionando de forma intermitente, mas mais que isso, devido aos rumos nacionais que se apresentam para a cultura brasileira, como a volta do Ministério da Cultura e leis e recursos já assegurados para a área pelos próximos anos, via Lei Paulo Gustavo e Lei Aldir Blanc 2. Rondônia é um polo produtor de cultura importantíssimo, com festivais de teatro e grupos reconhecidos nacionalmente, uma música potente, um audiovisual que vem se destacando ao ganhar prêmios Brasil a fora e uma cultura popular vastíssima, além de uma cultura indígena, quilombola e ribeirinha que merece aparecer para todo o país. É certo que toda essa potência gerará muitos empregos e divisas em todo estado, além de fortalecer a identidade e outros aspectos simbólicos de Rondônia. É certo também que o movimento cultural rondoniense deseja ver cumprida a promessa do governador Marcos Rocha, o desmembramento da Sejucel e a criação de uma secretaria de cultura, para que os artistas dos diversos segmentos, bem como os gestores de cultura dos municípios possam ter um diálogo mais aprofundado sobre a área cultural.



[1] Doutorando em Artes pelo Instituto de Artes da Universidade Estadual Paulista (Unesp); mestre em Artes pela mesma instituição; graduado em História; professor adjunto do Departamento de Artes da Universidade Federal de Rondônia (Unir); articulador da Rede Brasileira de Teatro de Rua (RBTR); ator e diretor integrante do Teatro Ruante.

quinta-feira, 12 de maio de 2022

Mário Zumba - primeiro dramaturgo de Rondônia a ganhar um prêmio nacional no estado

 Apresentação/Explicação

O objetivo é, aos poucos, disponibilizar alguns documentos utilizados em minha pesquisa de doutoramento que está em andamento no Instituto de Artes da Universidade Estadual Paulista "Júlio de Mesquita Filho" (Unesp), acerca do teatro praticado na cidade de Porto Velho entre 1978 a 2018. 

A conversa a seguir foi realizada por mim, Adailtom Alves Teixeira, no dia 30 de abril de 2022 no espaço Tapiri, após a apresentação do espetáculo Meu amigo inglês, de autoria e direção de Mário Zumba. A entrevista, a transcrição e a transcriação (texto aqui publicado)¹ foram realizadas também por mim. O diálogo ocorreu em torno de um prêmio de dramaturgia ganho por Zumba em 1987, o primeiro prêmio dessa modalidade no estado de Rondônia.

                                                  Entrevista Mário Zumba

O prêmio

Mário Zumba em cena de Meu amigo inglês
Foto Eliane Viana

Era o 15º Concurso Nacional de Dramaturgia, promovido pelo Ministério da Cultura. Era o Prêmio Pedro Veiga. Fui o primeiro dramaturgo a ganhar esse prêmio por Rondônia. O texto era um infantil, Cuidado com o tamanduá bandeira. E esse mesmo texto foi premiado depois no concurso Casa de las Americas, de Cuba. Lembra daquele acidente que houve em Goiânia, com o césio-137? O tema da peça era justamente o tamanduá bandeira construindo uma usina atômica sobre um formigueiro. Então casou tudo, entendeu?

Eu era militar, da Aeronáutica. Quando eu ganhei o prêmio em Cuba fiquei temeroso, sem saber o que fazer. Mas as Forças Armadas receberam isso com muito orgulho. Então foi legal! Eles não perceberam que o texto era altamente subversivo pra época. Hoje eu sou da reserva, mas sempre levei a vida militar e o teatro junto. E continuo escrevendo.

A vinda pra Rondônia

Eu vim pra Rondônia porque era militar. Aí cheguei aqui, conversando com um amigo, ele me levou pro Sesc e eu entrei no grupo de teatro de lá e fiquei. O teatro chama a gente. Aonde você estiver, ele te chama!

Eu já fazia teatro. Eu tinha começado, fazia teatro amador, muito novinho... aí depois que eu recebi o prêmio, eu disse: “não, agora eu tenho que ir pro Rio de Janeiro”. Aí fui pro Rio pra me profissionalizar.

Eu cheguei aqui em Rondônia em 1985 e fiquei até 1992. E segui a carreira até hoje. Aí ganhei outros prêmios. Um prêmio da prefeitura do Rio, quando eu estava lá, com outro texto. E assim fui... continuei atuando, escrevendo e dirigindo. Eu faço tudo. No Meu amigo inglês eu faço as três coisas, escrevi, dirigi e atuei. Mas essa peça está em cartaz em Belém desde 2017. Lá em Belém eu não dirijo, quem faz a direção é o Marton Maués, o diretor dos Palhaços Trovadores e eu faço com a Romana Melo. Ela é da Rede de Palhaças do Norte, é uma ativista da palhaçaria feminina na Amazônia e ela está fazendo doutorado na Bahia, na UFBA [Universidade Federal da Bahia].

O encontro com os artistas/amigos de Porto Velho

Muito legal, juntar todo mundo de novo. A Ângela Cavalcante, o Bado... o Binho já veio aqui mais cedo, Júlio Yriarte, Eri Oliveira, Suely... todo mundo aí. Foi um encontro de peso. Muito bom! Eu adorei isso!

Teatro e Forças Armadas

Mário Zumba - imagem retirada de sua rede social Facebook
Foto de Sandro Barbosa

Eu nunca tive problemas, cara, nunca tive problemas. As coisas foram fáceis pra mim. Quando eu estava fazendo teatro no Rio, em um curso, na Casa de Artes de Jacarepaguá, nós montamos um espetáculo que era O mendigo ou o cachorro morto de Bertolt Brecht. Dentro da Universidade da Força Aérea, onde eu trabalhava, tinha um projeto chamado “Quarta Cultural” e a gente apresentava qualquer coisa nas quartas depois do almoço. Sempre tinha uma apresentação, convidados... E um coronel falou: “Você não tem nada?” Eu disse: “eu tenho uma peça do Bertolt Brecht.” “Pois então traga”, ele falou. “Trago?” “Traga. É muita gente?” “Não. É só eu e um outro ator”. Eu fazia o rei. Nós levamos pra dentro do quartel O mendigo ou o cachorro morto e as pessoas aplaudiram de pé. Foi espetacular!

Quebramos várias barreiras. As pessoas estavam sedentas disso. Havia também uma vontade de desmistificar aquilo que se pensava. Porque já era abertura... já estava no processo de abertura. Então havia essa boa vontade, entendeu? Eu nunca tive problemas, graças a Deus!

A história local

Eu estava falando com o Júlio Yriarte, a gente fazia e a gente não sabia a importância do que estávamos fazendo. Então, a gente não documentava nada, ia só fazendo, fazendo... mas nos anos 1980 foi uma efervescência. Eu cheguei em 1985.

Era uma força, porque a gente vinha de uma repressão muito forte, quando chegou ali no início dos anos 1980 abriu, a gente “eu tô livre! Eu quero é fazer!” Queria falar pro mundo... Foi uma época boa! Muita produção. Bem legal!

O público também estava ávido disso, entendeu? O público também pensava como a gente, mas o que ele via antes não satisfazia, não ia ao encontro. Então a gente foi ao encontro dessa ansiedade, entendeu? Botar um militante político de esquerda no palco... A gente fazia isso. Tinha uma personagem que era um militante de esquerda, ele querendo conscientizar a favela... então a história era mais ou menos por aí, ia ao encontro do que as pessoas estavam querendo. Havia uma ânsia por mudança.

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Notas

1. Essa distinção, sobretudo entre trascrição e transcriação, faz parte da metodologia da história oral utilizada pelo pesquisador, que se vale de um conjunto de procedimentos, que se inicia na própria elaboração do projeto de pesquisa. De forma simples, podemos definir transcriação como a passagem do oral para o escrito, isto é, transcrever tudo que foi falado, tanto do entrevistador como do entrevistado; já transcriar é aproximar-se do literário, posto ser uma prática utilizada primeiro na tradução de poemas, em especial por Haroldo de Campos, assim, transcriar é deixar o texto corrido, como um texto literário, é um outro texto, sem deixar de ser o mesmo, por isso desaparecem as perguntas, ficando apenas os tópicos da conversa, bem como as repetições tão característico da oralidade, assim, a palavra fica integralmente com o entrevistado. 

terça-feira, 3 de maio de 2022

Mostra A Cena Negra Amazônica (2ª edição) - PROGRAMAÇÃO COMPLETA

Mostra A Cena Negra Amazônica chega a sua segunda edição, com transmissão online e gratuita. Confira toda a programação.


Nos dias 05, 06 e 07 de maio, será realizada a Mostra A Cena Negra Amazônica (2ª edição), que contará com apresentações de obras artísticas e debates sobre a temática afro diaspórica com artistas-pesquisadores do Brasil. Para Jamile Soares, idealizadora do projeto, “realizar apresentações e debates com foco nas questões do povo negro é de suma importância para difusão dos conhecimentos para os habitantes da região amazônica, assim como uma forma de reparo social por tentativas históricas de nos invisibilizar”. Dentre as participações teremos artistas e coletivos dos estados do Pará, Mato Grossso, São Paulo e Rondônia (confira programação abaixo).

A segunda edição da Cena Negra Amazônica vem para enaltecer a cultura negra e por consequência a cultura amazônica e de todo o país, com obras artísticas, debates e roda de conversa que fortalecem o movimento negro amazônico, oportunizando a muitos artistas e ativistas negros e negras a mostrarem seus trabalhos e pesquisas, trocando experiências com pessoas de todo Brasil, inspirando muitas pessoas e levando informações primordiais para nossa sociedade. Faz-se necessário ter espaço para ecoar as vozes dos artistas e ativistas negros e negras, e como afirmava Lélia Gonzalez: “Em razão disto é ir à luta e garantir os nossos espaços que, evidentemente, nunca nos foram concedidos”.

As transmissões ocorrerão via plataforma digital, pelos canais do Teatro Ruante (YouTube e Facebook), com duração de até duas horas cada a dia. Os debates contarão com mediação e com intérpretes de Libras visando a acessibilidade da comunidade surda.

O projeto foi contemplado no Edital nº 32/2021/SEJUCEL-CODEC – 2ª Pacaás Novos Prêmio Para Difusão de Festivais, Mostras e Feiras Artístico-Culturais – EIXO II, Categoria I – Artes Cênicas.


PROGRAMAÇÃO

Dia 05/05: Curta-metragem Escreviventes – Coletivo Negro Universitário UFMT/MT

Escreviventes - foto Pedro Soares

Escreviventes
é composto por performances poéticas de corporeidades pretas que revelam aspectos e sentidos de pessoas afrodiaspóricas com individualidades singulares, apresentando diversidades de escrevivências em que elas são o centro de um universo imenso de histórias pretas, materialidades e subjetividades presentes no cotidiano acadêmico. As performances revelam a pluriversalidade africana, brasileira e quilombola, nas expressões artísticas, lugar de pensamento e outras inscrições.

Ficha Técnica
Título: Escreviventes
Ano de produção: 2021
País: Brasil
Duração: 10 minutos
Classificação: 10 anos
Gênero: Biografias
Direção: Zizele Ferreira e Vinicius Brasilino
Roteiro: Zizele Ferreira
Gravação e fotografias: Luana Sampaio
Edição: Silvano Junior
Poetas: Lupita Amorim, Pedro Soares e Vinicius Brasilino
Fotos: Luana Sampaio, Luzo Reis e Júlia Tinan
Realização: Núcleo de Estudos e Pesquisas Sobre Relações Raciais e Educação - NEPRE
Produção executiva: Candida Soares da Costa, Filipe Silva e Zizele Ferreira

Sobre o coletivo
O Coletivo Negro Universitário da UFMT - Campus Cuiabá, Mato Grosso/ CNUUFMT tem por objetivo reunir discentes, docentes da Rede Básica de Ensino e Ensino Superior, servidores públicos e terceirizados e a comunidade externa à academia em torno da temática da Educação das Relações Étnico-Raciais e Educação quilombola, buscando contribuir para que seus integrantes ampliem a compreensão das dinâmicas sociais que envolvem a comunidade negra no âmbito local e regional no que diz respeito ao reconhecimento e valorização dos conhecimentos, das vidas negras e quilombolas e no combate ao racismo.


Espetáculo: Divinas Cabeças - Coletivas Xoxós/PA

Divinas Cabeças - foto Danielle Cascaes

Divinas Cabeças
revela o protagonismo da mulher negra, em uma metrópole da Amazônia urbana, contemporânea e neocolonizada. No centro do processo de criação, uma questão-desejo de infância: “eu quero uma boneca que se pareça comigo! Que se pareça comigo...”. O espetáculo é fala cênica em resposta poética à pergunta-desejo da criança, mas também ao mundo em travessias pandêmicas, por entre ancestralidades, negritude, espiritualidade, diferença, cura. Enquanto Teatro Dadivoso e seguindo os princípios da bioescritura, do teatro ao alcance do tato e do protagonismo de mulheres em cena, as experiências de vida da performer se entremeiam a uma pergunta subliminar devolvida ao espectador: quantas cabeças pensam o nosso viver? Quem nos pensa?

Ficha técnica
Performance e Dramaturgia: Andréa Flores
Performance Musical: Leoci Medeiros
Direção Musical: Leoci Medeiros e Thales Branche
Direção Vocal: Thales Branche
Preparação Vocal: Tainá Coroa
Trilha Original: Thales Branche, Andréa Flores e Leoci Medeiros
Iluminação: Vandiléia Foro e Coletivas Xoxós
Ambientação Cenográfica e Figurino: Coletivas Xoxós
Confecção de Bonecas de Pano: Rejane Sá
Fotografia e Design Gráfico: Danielle Cascaes
Assessoria de Imprensa: Lucas Del Corrêa
Gerenciamento de Mídia: Lucas Corrêa e Yasmin Seraphico
Direção de Palco: Roberta Flores e Leoci Medeiros
Produção Audiovisual: Grazi Ribeiro
Direção Audiovisual: Alexandre Baena
Encenação e Direção Cênica: Wlad Lima

Sobre o coletivo
O Coletivas Xoxós é um coletivo de teatro de Belém-PA, existente desde 2014. Formado a partir da amizade e convívio entre mulheres de teatro, iniciou seu trabalho no ano de 2014. Desde então, foram produzidos seis espetáculos, sendo Divinas Cabeças o mais recente, em uma vertente que o coletivo chama de Teatro Dadivoso. O Coletivas Xoxós cumpre residência no Teatro do Desassossego, espaço cultural alternativo situado no porão de um casarão histórico do centro de Belém, e segue em atuação no que reconhece como três vertentes principais: as bioescrituras poéticas (histórias de vida em cena), o teatro ao alcance do tato e o protagonismo de mulheres amazônidas.


Dia 06/05: Aula de dança – Gu Ieladian / RO

Gu Ieladian - divulgação

Tutorial de uma coreografia, sentaDONA remix, uma música do estilo pop/bregafunk que está super em alta nas paradas músicais. A coreografia é baseada na original (coreógrafo Flávio Verne e do tiktok), com adaptações do canal da FitDance. Vai ser ensinado 50 segundos da música.

Sobre a artista
Gu Ieladian, amante da dança desde sempre (começou a dançar com É o Tchan), mas profissional como dançarina e professora de dança desde 2013. Já dançou em diversos eventos e lugares de Porto Velho, desde a Flor do Maracujá, Shopping, Mercado Cultural entre outros, já viajou para outros estados para concursos e workshops de dança (como Zumba, Kpop, FitDance), tendo até dado aula de dança fora do país (Irlanda, 2016). Já fez aula de diversos estilos de dança, mas atualmente trabalhando com FitDance e Danças Urbanas (como Jazz Funk).


Pocket Show – Sarah Soul / RO

Sarah Soul - foto Mateus Fidelis

Sarah Soul apresenta um show autoral com músicas inéditas que serão lançadas no seu próximo álbum chamado “correria”.

Sobre a artista
A cantora de 25 anos é natural de Porto Velho/RO e iniciou sua trajetória com a música muito cedo na igreja, influenciada pelas mulheres cantoras de sua família, sua mãe e tia. A artista vive da música há 5 anos fazendo shows em pubs, restaurantes, eventos corporativos e teatros. Ela canta e é inspirada por estilos como black music, jazz, blues, pop, r&b entre outros, e essas influências se refletem no seu trabalho autoral.




Dia 07/05: Curta-metragem performativo Sobre pele, palavras e decomposição – Amanara Brandão / RO

Sobre pele, palavras e decomposição
foto Cleber Cardoso

No curta-metragem Sobre pele, palavras e decomposição, o recurso do hibridismo de linguagens é utilizado para a criação de uma "experiência audiovisual literário-performativa" de celebração do movimento, da poesia cotidiana e da indocilidade dos corpos. Com textos autorais apresentados através de cinco breves cenas, a autora constrói sua poética audiovisual através das palavras, das luzes, da musicalidade, da corporeidade e da atuação performativa.

Ficha Técnica
Direção, texto e performance: Amanara Brandão Lube
Câmera e montagem: Rafa Brito Correia
Trilha sonora: João Belfort
Iluminação: Chicão Santos
Atriz convidada: Flávia Diniz
Fotos: Cleber Cardoso
Locação: Espaço Tapiri
Produção: Amanara Brandão Lube

Sobre a artista
Amanara Brandão Lube (24/11/97, Porto Velho/RO), artista afroamazônida - Atua na cena teatral nacional desde 2014 com o grupo O Imaginário e desenvolve trabalhos independentes como escritora, produtora cultural, performer e artista-pesquisadora em Performance Art. Graduada em Licenciatura em Teatro pela Universidade Federal de Rondônia.


Show Derramagoa de Mulher – Clarianas / SP

Clarianas - foto Nego Júnior

"Cânticos de Cura, Proteção e Asè" Clarianas apresenta neste show, cânticos para evocar a força de proteção e cura que tanto necessitamos neste momento específico do país e do mundo.

Ficha técnica
Cantadeiras: Naruna Costa/Martinha Soares/Naloana Lima
Violão e Viola: Giovani di Ganzá
Violino e Rabeca: Carla Raiza
Baixo: Augusto Iúna
Percussão: Jackie Cunha
Arranjos: Giovani Di Ganzá
Direção Musical: Naruna Costa

Equipe Técnica:
Roudie/Cenógrafo e iluminador: Rager Luan
Produtor: Washington Gabriel
Estudio 185
Direção audiovisual:Beto Mendonça
Câmeras: Gabi Oliveira e Bruno Marques
Técnico de som: Gustavo Du Vale

Parcerias:
Figurinos: Casa Cléo e Ateliê Sal
Jóias: Arte Ameríndia (ponte da Alice Haibara com a arte das mulheres das tribos Kaiapó, Xucuru, funiô e do Xingu)
Fotos: Nego Júnior e Bia Verella

Sobre o grupo
Clarianas é um grupo de cantadeiras urbanas que investiga a voz da mulher “ancestral” na música popular do Brasil. A voz é o fio condutor que revela um amplo universo sonoro, genuinamente brasileiro, que vai desde os Cânticos indígenas aos Aboios Sertanejos, passando pelas Brincantes do Côco, Ladainhas do Catolicismo Popular, Sambas de Roda, Maracatus, Xotes, Rezas e Tambores Africanos.


SOBRE A PROPONENTE DA MOSTRA A CENA NEGRA AMAZÔNICA

Jamile Soares é produtora, atriz e palhaça com 8 anos de experiência cênica, integrante dos coletivos Teatro Ruante, Trupe dos Conspiradores e Cia Peripécias. Com o Ruante foi ganhadora dos Prêmios Funarte de estímulo ao Circo 2019, Prêmio Sesc de Incentivo a Arte Cênica 2018 – (2018); com o mesmo coletivo integrou a produção da Mostra de Repertório do Teatro Ruante (2017 e 2018), como atriz atuou em diversos espetáculos dos grupos citados como Era uma vez João e Maria... e ainda é, CIDADE GRANDE, joão ninguém e Um inimigo do povo. Mais recentemente, participou do Curso de Extensão Estudos em Teatro Negro (2020), Curso em Dramaturgia Negra (2020) e do Grupo de Extensão em Crítica Teatral da UNIR.


SERVIÇO
O QUE: Mostra A Cena Negra Amazônica (2ª edição)
QUANDO: Dias 05, 06 e 07 de maio de 2022 às 19h (horário de Rondônia).
ONDE: pelos canais do Teatro Ruante – YouTube e Facebook
MAIORES INFORMAÇÕES: (69) 99201-6765

Fonte: Assessoria de Imprensa da Produção