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quarta-feira, 21 de março de 2018

Resenha sobre o filme El Ghada’a El Eid, de Lucien Bourjeily



De como o Líbano me atravessa: Fecha a porta porque roupa suja se lava em casa!
Por Júnior Lopes[1]

Sinopse: Josephine, the matriarch of a sprawling family, is delighted to gather everyone for Easter lunch for the first time in two years. While they all share a joyful meal, an incident ignites underlying tensions between the family members and leads them gradually into chaos.
Director: Lucien Bourjeily Writer: Lucien Bourjeily
Stars: Samira Sarkis, Nadim Abou Samra, Jenny Gebara, Laeticia Semaan, Farah Shaer, Jean-Paul Hage, Hussein Hijazi, Ghassan Chemali, Wissam Boutros, Nancy Karam, Etafer Aweke, Toni Habib, Mohammad Abbas
Language: Arabic
Português: Josephine, a matriarca de uma família numerosa, pela primeira vez em dois anos, tem o prazer de reunir todos para um almoço de pascoa. No meio do almoço, um incidente inesperado provoca uma grande tensão entre os membros da família que pouco a pouco vai se instaurando um grande caos entre eles.  
Filme: Ghada’a El Eid (2017/2018) Direção e roteiro: Lucien Bourjeily Produção: Farah Shaer  Duração: 91 min
Exibições:
7 de dezembro de 2017 em Dubai Internacional Film Festival
4 de fevereiro de 2018 em European Film Festival
1 de março estreia no Líbano
3 de março de 2018 Cinequert International Film Festival
13 de março de 2018 em Miami Internacional Film Festival


Beirute, Líbano
21de março de 2018

(…)Lucien Bourjely's film answers all the questions that bothered me after these meetings-exchanges in Lebanon and goes beyond: it throws me new questions, other reflections, new raptures. Most of the conflict situations I encountered in Lebanon are on the cinema screen:

               Doors open. Noise. Family meeting. Lunch. A lot of food. Beverage. Friendship. Missing. Reports. Party. Lack of energy. Generator. Policy. Discussion. Optimism. Pessimism. Conflicts. Elections. Policy. Manipulation. Wars. Catholics. Orthodox. Maronitas. Shiites. Sunni. Druses. Pumps. Constitution of 1943. Ministers. Policy. Religion. Names. Last name. Neighborhood. Poetry. Gibran Khalil Gibran. Nation. Freedom. Extremism. Power. Money. Policy. Passport. Diaspora. Sectarianism. Disbelief. Prejudices. Ethiopia. Sri Lanka. Utopia. U.S. Canada. Dubai. Russia. Reality. Brazil. Memory. Forgetfulness. Shot. Conformism. Doors Closed. Silence.

So, with a precise script and excellent direction of actors and scenes, the director and screenwriter of El Ghada'a El Eid opens the door and opens Lebanese conflicts from a family lunch.(…) Júnior Lopes


Portas se abrem: No dia 12 de março após ver uma publicação do diretor Libanês Lucien Bourjeily de que seu filme Ghada’a El Eid estava em cartaz no Beirut Souks, e que por se tratar de ser um filme não comercial, o cinema provavelmente iria tira-lo de cartaz naquela semana, sai correndo para assistir ao filme. Já conhecia o currículo do diretor Lucien Bourjeily pois ele já havia estado no Brasil com o espetáculo teatral 66 minutos em Damasco e pelos temas de seus trabalhos. Mas, foi no Líbano que tive a oportunidade de conhece-lo pessoalmente em uma oficina de improvisação teatral ministrada por ele.
Já é a minha terceira vez em Beirute. A primeira por 15 dias em dezembro de 2016. Depois mais 15 dias em outubro de 2017 e agora por três meses, de fevereiro a abril de 2018. Pois bem, o leitor deve estar se perguntando porque eu estou aqui pela terceira vez e qual é o motivo de estar em Terras Libanesas?
Sempre fui motivado a conhecer o Líbano pois o meu avô era libanês. A questão da descendência foi o pontapé inicial para fazer as malas e embarcar neste novo contexto. Meu avô nunca voltou ao Líbano desde que saiu daqui. Ou seja, foi jovem para o Brasil, solteiro, construiu família, casa, trabalho e lá no Brasil morreu aos 99 anos. Mas, ele deixou para mim a herança libanesa que me orgulho. Assim, de 2016 para cá, Beirute é o “meu caminho da roça”.  Sou professor de teatro e letras na Universidade Federal de Rondônia e no início de 2017 no grupo de Pesquisa Paky’op – Laboratório de Teatro e Transculturalidade, abrimos uma linha de pesquisa com o tema: Teatro e Política no Oriente Médio: paralelos com a América Latina. E essa linha de pesquisa é um dos motivos que me laçam aqui agora.
Hoje completo 45 dias aqui em Beirute. Estou exatamente na metade do período que ficarei aqui. Nos 45 dias do primeiro tempo. Ainda faltam mais 45 dias. Ou seja, o tempo de uma partida de futebol. Muita coisa pode acontecer.
Novamente o leitor deve estar se perguntando... Mas, qual a relação desse relato pessoal com o filme Ghada’a El Eid de Lucien Bourjely?

Foto pessoal: Tive a oportunidade de assistir uma sessão em que dois atores do elenco estavam presentes.

Bem, aqui em Beirute, além de ter o objetivo de estudar língua árabe, eu trouxe uma pergunta para ser respondida: Qual a relação entre teatro/artes e política no oriente médio, mais especificamente, no Líbano? Meu objetivo, após me aproximar das possíveis respostas, é traçar os paralelos com a América Latina, mais especificamente, com o Brasil.
O filme de Lucien Bourjely me responde todas as perguntas que me incomodavam após esses encontros-trocas no Líbano e ainda vai além: ele me lança novas perguntas, outras reflexões, novos arrebatamentos. Grande parte das situações conflito que me deparei no Líbano estão ali na grande tela:
Portas se abrem. Barulho. Reunião familiar. Almoço. Muita comida. Bebida. Amizade. Saudade. Relatos. Festa. Falta de energia. Gerador. Política. Discussão. Otimismo. Pessimismo. Conflitos. Eleições. Política. Manipulação. Guerras. Católicos. Ortodoxos. Maronitas. Xiitas. Sunitas. Drusos. Bombas. Constituição de 1943. Ministros. Política. Religião. Nomes. Sobrenome. Bairro. Poesia.  Gibran Khalil Gibran. Nação. Liberdade. Extremismo. Poder. Dinheiro. Política. Passaporte. Diáspora. Sectarismo. Descrença. Preconceitos. Etiópia. Sri Lanka. Utopia. Estados Unidos. Canadá. Dubai. Rússia. Realidade. Brasil. Memória. Esquecimento. Tiro. Conformismo. Fecham se as portas. Silêncio. (Descrição minha sobre o filme)

De uma maneira artística, com um roteiro preciso e excelente direção de atores e cenas, o diretor e roteirista de El Ghada’a El Eid abre as portas e escancara conflitos libaneses a partir de um almoço em família.
I only wish more Lebanese movies like  Ghada El Eid would be released, something to educate or question our society’s values” I’ve watched it, the subject is very interesting & concerns or may happen among all Lebanese families. (…)
“(...) Lucien did a great job, we should encourage those kinds of Lebanese movies” (http://www.howitakemycoffee.com/ghada-el-eid-by-lucien-bourjeily-is-simply-a-great-lebanese-movie/)

O diretor literalmente expõe o interior das personagens. Ele não empurra a sujeira para debaixo do tapete. O filme inicia com as portas fechadas que logo se abrem com a chegada dos convidados. A ação acontece exclusivamente dentro da casa na mesa do almoço. Fatos surpreendentes vão arrebatando o espectador e grandes tensões são criadas. Não se trata de um filme didático explicativo para tratar de temas que atravessam a sociedade libanesa. O trabalho é completamente artístico e em um único ambiente e em uma hora e meia de filme o diretor consegue virar a mesa e expor todos os personagens com os seus conflitos mais íntimos e suas relações com a sociedade libanesa.  O fio condutor não é interrompido e uma ação desencadeia a outra.
Impressionante como que um almoço familiar em um filme libanês me fez relembrar questões muito pontuais que aconteceram comigo desde a primeira vez no Líbano. Imagino como deve ter sido a recepção para os libaneses.
Por exemplo, o meu vôo do Brasil para cá sempre foi passando pela Etiópia. E nessa conexão tive o meu primeiro conflito. O avião quando chega em Ades Abeba (capital da Etiópia) fica lotado de meninas etíopes que vêm para o Líbano trabalhar como empregada doméstica. A maneira como elas são tratadas no avião (não pelas comissárias, mas sim por outros passageiros), no embarque, no desembarque e no momento de ser “entregue” a família que irá contrata-a (abriga-la) me chamou muita atenção. Me deu um “sentimento” escravidão.
Uma das cenas mais fortes e violentas do filme, na minha opinião, é protagonizado por uma empregada doméstica etíope e um libanês: O ódio e o preconceito escancarado deste libanês contra ela e qualquer outro imigrante de países subalternos.
Outro conflito que passei tem relação com minha descendência. Meu avô veio de família drusa aqui no Líbano e a primeira vez que estive aqui as pessoas perguntavam o nome do meu avô e o sobrenome e, consequentemente, já sabiam que ele era druso. Ou me perguntavam a região que morava e também já era possível constatar a sua religião. Fui descobrindo isso aos poucos. E essa informação as vezes pode ser um divisor de águas. Algumas pessoas eram indiferentes com essa informação. Outras se aproximavam e outras simplesmente se afastavam.
Assim, a grande parte da discussão levantada pelos personagens no filme sobre religião, política, diásporas, liberdade de certa forma me atravessam/atravessaram nessa minha estadia aqui. Ora no taxi, na rua, nas praças. Ora com amigos, ora com família, etc.
 O filme me fez refletir sobre a questão da liberdade e predestinação quando uma das personagens questiona o fato de que no Líbano a criança já nasce e na sua identidade já aparece a sua religião impressa. Ou seja, ela está predestinada a essa religião. Tal fato implicará outras questões na vida futura. Na política libanesa, por exemplo, presidentes e ministros ocupam partidos a partir da legenda de sua religião. O presidente obrigatoriamente deve ser um maronita. O primeiro ministro um sunita. E por aí vai. Política e religião andam lado a lado.
Portanto, El Ghada’a El Eid me atravessa, me arrebata e me faz lembrar uma expressão em português: Roupa suja se lava em casa. Em El Ghada’a El Eid a cena começa com as portas se abrindo e a partir daí se joga no ventilador todos os conflitos que estão sufocados, neste caso, representado por uma família. No final, após um desfecho surpreendente, as portas se fecham. Ou seja, ficará entre quatro paredes. A roupa suja se lavará em casa? Será? Portas se fecham.



[1] Júnior Lopes, nome artístico de José Maria Lopes Júnior. Brasileiro em intercambio no Líbano. Professor de Teatro do Departamento de Artes da Universidade Federal de Rondônia. Integrante do Grupo de Pesquisa Paky’op – Laboratório de Teatro e Transculturalidade. Professor, ator e diretor de Teatro. (lopez_junior@yahoo.com.br)

sexta-feira, 8 de dezembro de 2017

Chicão Santos: quatro décadas de teatro

Adailtom Alves Teixeira[1]

Dia 30 de novembro tivemos o último encontro do ano do projeto Conversa de Quinta: arte e cultura em debate, recebemos Chicão Santos, diretor e produtor teatral. Capixaba de São Mateus, o artista está em Rondônia desde 1976 e começou a fazer teatro em 1978 na cidade de Cacoal, onde criou ou participou de alguns grupos teatrais.

Com quase 40 anos de teatro, a história de Chicão Santos se confunde com grande parte da história do próprio estado e o artista tem os períodos e as datas muito vivas em sua memória, o que reforçou ou clarificou datas e dados de convidados anteriores, como, por exemplo, a chegada do Sindicato dos Artistas na década de 1990. Ao invés de reforçar a prática dos artistas amadores, o sindicato vai cobrar uma profissionalização que não existia, fazendo com que os artistas diminuam as produções e, por causa disso também, fez surgir um importante festival em Porto Velho: o FEMUT – Festival Estudantil Municipal de Teatro, de onde saíram muitos artistas presentes na cena de hoje.

Chicão fez teatro no interior de Rondônia, teve uma rápida passagem por Brasília e depois chegou à capital. Destaco duas importantes contribuições após sua chegada a Porto Velho: a criação do grupo O Imaginário e o Festival Amazônia Encena na Rua.

O Festival Amazônia Encena na Rua é uma referência nacional para quem faz teatro de rua e projetou a imagem da cidade para o restante do país. Muitos coletivos de todas as partes do Brasil já passaram pelo festival, com um público de dezenas de milhares de pessoas.

Já o grupo O Imaginário, a doze anos vem contribuindo com a cena portovelhense, contribuindo com uma pesquisa que tem focado no universo feminino, principalmente no que tange a violência a esse grupo social. A pesquisa, segundo Chicão, iniciou com a vinda de Bya Braga, que ministrou uma oficina e trabalhou um processo a partir da peça de William Shekespeare, Rei Lear, focando nas mulheres dessa peça. A partir daí mergulharam nas histórias das mulheres no período do ciclo da borracha, de onde surgiu a performance Ponto de Fuga, que deu origem ao espetáculo Filhas da Mata.

Filhas da Mata percorreu 40 cidades das cinco regiões do Brasil no projeto do Sesc chamado Palco Giratório. Se tornando o segundo grupo do estado a circular nacionalmente. O primeiro, confirmado por Chicão Santos, foi Água de Chocalho, do qual participavam Bira Lourença, que hoje contribui com O Imaginário, criando as trilhas das peças.

Ainda no universo feminino veio Mulheres do Aluá, criado a partir de processos judiciais do início do século XX e contou com a contribuição na pesquisa da poetiza Nilza Menezes. O espetáculo percorreu outro projeto importante: Amazônia das Artes. Ainda com contribuições da poetiza Nilza Menezes, especificamente de seus versos, veio um outro espetáculo: A arma da mulher é a língua.

Chicão tem contribuições também no campo da política pública, onde tem militado, como informou, desde a década de 1980, mas de forma institucional. Além disso, O Imaginário coordena o espaço Tapiri, sede do grupo e onde são desenvolvidas diversas atividades teatrais, sobretudo oficinas.

Acompanhe toda a conversa no link abaixo:

https://youtu.be/tE4k1rZZv6g


[1] Professor do Curso Licenciatura em Teatro da Universidade Federal de Rondônia; mestre em Artes pela UNESP; coordenador do projeto Conversa de Quinta.



domingo, 29 de outubro de 2017

Jória Lima: uma polivalente


Adailtom Alves Teixeira[1]

Jória Lima, manauara, ainda criança aportou na cidade de Porto Velho em 1981, quando Rondônia ainda era Território Federal. Atriz, diretora, dramaturga e produtora teatral, mas também advogada, até recentemente – antes de se tornar empresária –, levou essas duas atividades com naturalidade: a arte da cena e o campo do direito. Ela foi nossa convidada do Conversa de Quinta: arte e cultura em debate de 26 de outubro de 2017. A conversa ocorreu na Sala do Piano, Unir Centro.


A formação da Jória ocorreu em terras mineiras, Belo Horizonte, no Teatro Universitário (TU) e na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), teatro e direito respectivamente. Ainda em Minas começou sua carreira teatral, antes mesmo de terminar o curso no TU. Quando retornou para Porto Velho ofereceu muitas formações para jovens atores e atrizes que estão hoje na cena portovelhense.

Foi também em Porto Velho onde deu continuidade ao seu desenvolvimento como dramaturga, levando à cena a problemática local, seja a violência contra a mulher, seja discutindo o amor romântico, com a peça Cabaret. Esta última, criada por seu grupo, Anômade Cia de Teatro, foi um sucesso de público, apesar de ter sido apresentada apenas três vezes, levou milhares de pessoas ao Teatro de Arena da Praça da Madeira Mamoré.

Como diretora realizou montagens de dramaturgos importantes, como Nelson Rodrigues, de quem dirigiu Álbum de Família e Os Sete Gatinhos. Foi premiada em algumas de suas montagens, bem como homenageada como atriz em sua terra natal, Manaus.

Jória Lima também teve passagem pelo campo da gestão pública, inclusive recentemente, quando esteve três meses na Fundação de Cultura de Porto Velho, como adjunta do presidente Ocampo Fernandes, onde, segundo ela, buscou encaminhar ações importantes na área das políticas públicas de cultura, como a criação do Fundo Municipal de Cultura.

Empresária, atualmente Jória tem se dedicado a outra forma gestão: presta serviços na área de formação de treinamento de trabalhadores. Perguntada se abandonou o teatro, afirma que se for provocada a dizer ou discutir algo – pois é impulsionada a criar quando quer falar algo pro mundo –, retornará à cena.

Acompanhe toda a conversa no link abaixo[2]:





[1] Professor do Curso Licenciatura em Teatro da Universidade Federal de Rondônia; Mestre em Artes pela UNESP; ator e diretor teatral.
[2] Durante a gravação ocorreu um pequeno problema com a filmadora e alguns minutos deixaram de serem registrados, mas nada que atrapalhe o entendimento geral.

sexta-feira, 29 de setembro de 2017

Mado: poesia, teatro, música e educação popular


Adailtom Alves Teixeira[1]

Carlos Macedo, o Mado, filho da terra, um autêntico beradeiro, chega ao mundo em 1953. Em suas memórias três momentos são fundamentais: a infância em que cria todo um imaginário sobre Porto Velho, a adolescência, momento de afirmação de sua identidade e os anos 1980, momento da sua formação política. Dessas três etapas, pode-se dizer que o artista Mado passou da descoberta do quintal de sua casa, ampliou para a cidade e depois descobre o Brasil e a América Latina, como frisou.

Além dos três momentos, quatro linhas-escolas-linguagens lhe acompanha: a poesia, o teatro, a música e pedagogia popular. Da primeira, muito presente na sua forma de falar, desenvolve o que chama de poesia falada. Da música, apesar de não ter desenvolvido técnica para tocar nenhum instrumento, afirma ter desenvolvido uma sensibilidade para o escutar e isso lhe acompanha no seu modo de ser e de construir sua arte. A terceira, a pedagogia popular, tem como referência o método Paulo Freire, que aprendeu e desenvolveu junto aos movimentos populares na década de 1980, aí, pode-se afirmar, que descobriu sua classe e por meio dessa pedagogia pode ajudar a organizar pessoas para se expressarem com teatro as suas reais demandas, sempre em uma busca por liberdade.

A liberdade é algo caro ao poeta Mado, pois mesmo quando lhe é perguntado de forma objetiva, em certo enquadramento cartesiano que cabia ao meu papel de mediador, o artista não se intimidava e contornava ou criava outros percursos para expressar ou (des)responder sobre o perguntado, fugindo da prisão das caixas de enquadramento da academia.

Rico de histórias, carrega a memória de Porto Velho em seu corpo, em seu vocabulário, em suas palavras geradoras; estas, as palavras, saem de sua boa e de seus poros com uma dramaticidade ímpar, na medida em que são denúncias, mas são também carregadas de um lirismo ribeirinho-caboclo-amazônida-sul americano, em enfrentamento direto a tudo que nos rodeia e que é hegemônico, logo, oprime. Seu teatro, se dá pelas margens, escolha que fez sabendo do alto preço a ser pago, mas daí advém sua liberdade. 

Nossa intenção no projeto Conversa de Quinta não é hierarquizar a cena, por isso mesmo a ideia é levantar todas as formas teatrais e todos aqueles que produziram ou estão produzindo. Assim, mesmo o adjetivo “marginal” aqui expresso, não visa criar um juízo de valor, mas expressar o que Mado chamou de “outro caminho”. Para ele, existiam, sobretudo nos anos 1980 e 1990, duas cenas: uma que ocupava os lugares ditos “próprios” para essa linguagem, e o teatro que ia por "outros caminhos". Ainda que, talvez pudéssemos afirmar, que toda a produção daqui, em relação ao eixo sul-sudeste, pudesse ser vista como marginal. O caminho escolhido por Mado é, na verdade, aquele que não separa a arte da vida, não separa a arte da política e, por isso mesmo, via de regra, negligenciado pela história oficial.

O poeta, ator e diretor Mado, continua a produzir, seja realizando suas oficinas juntos às comunidades, movimentos populares, seja apresentando-se nos espaços culturais da cidade, seja dirigindo, inclusive em contato com uma geração que chegou a pouco à cena. Após nossa conversa, no fim de semana (30 de setembro e 1º de outubro), haverá estreia de uma peça que escreveu e dirigiu: Inventamos de se ver, com Amanara Brandão e Rafael Barros, no Espaço Cojuba.

Esse encontro ocorreu no dia 28 de setembro, na Sala do Piano - Unir Centro. Acompanhe toda a conversa no link abaixo:





[1] Professor do Curso Licenciatura em Teatro da Universidade Federal de Rondônia; Mestre em Artes pela Unesp; ator e diretor teatral. 

domingo, 17 de setembro de 2017

Fabiano Barros: humanizando mitos

Adailtom Alves Teixeira[1]

O autor e diretor Fabiano Barros foi o convidado do Conversa de Quinta: arte e cultura em debate do dia 31 de agosto de 2017. Pernambucano de Recife, desde criança esteve envolvido com a arte teatral, no entanto, como afirmou, sempre foi um “péssimo ator”, daí sua escolha pela escrita. A direção também veio por acaso, “como ninguém queria encenar meus textos, eu tive que dirigir”, foi a sua afirmação no encontro que provocou muitas reflexões e risadas nas pessoas que ali estavam presentes.

Fabiano chegou a Porto Velho ainda muito jovem, 19 anos, em 1990. Enturmou-se rapidamente com os fazedores de teatro da cidade, dentre os quais citou Heleninha e Francis Madson. Lembrou com saudade quando saía pela Avenida Sete de Setembro, no centro de Porto Velho, catando papelão para construir seus cenários. Da mesma forma que lembrou com alegria de quando pediu pra mãe, ainda em Recife, lhe pagar por um curso de teatro, já que, praticamente fugiu do curso de enfermagem ao presenciar um parto. A mãe lhe pagou o curso, o que lhe rendeu muitas refeições à base de cuscuz e charque, pois, na sua memória deveria equivaler a 30% do que ela ganhava.

Essas lembranças do artista provocaram momentos agradáveis, com muito riso, mas nos faz refletir e pensar sobre a condição de artista, sobretudo de teatro, isto é, de como somos forjados. Seja pela ausência de uma política de formação nesse campo artístico, ainda não disseminado em todo o país, seja pela desvalorização do campo das artes no Brasil. São muitas as reflexões que podemos fazer e muitas as conclusões a que podemos chegar a partir das memórias apresentadas por Fabiano Barros: como se forma um artista? Como essa formação de vida influenciará sua produção futura? Quais parceiros, pessoas, mestres são importantes nessa caminhada? O autor citou alguns.
Mas foi com os jovens de teatro que encontrou em Porto Velho quando aqui chegou que criou o grupo Fiasco, com o qual vem trabalhando desde então: escrevendo, dirigindo. Os atores e atrizes já não são os mesmos, mas é com o Fiasco que tem levado adiante sua experimentação.
O autor falou um pouco do seu processo de escrita: ele vai acumulando a temática, o assunto, lendo, pesquisando, ouvindo e criando em sua cabeça e quando decide escrever, sai todo de uma vez, aos borbotões, ou como se costuma dizer: em uma sentada. O autor afirmou que não consegue escrever aos poucos.

Fabiano graduou-se em Licenciatura em Teatro (2013) pela Universidade de Brasília, um curso à distância, em parceria com a Universidade Federal de Rondônia, e o primeiro nessa área em Rondônia. Seu Trabalho de Conclusão de Curso (TCC) foi justamente sobre o que vem pesquisando e se debruçando em suas criações e que tem chamado de “humanização dos mitos e lendas amazônicos”. A partir dessa pesquisa, por exemplo, foram criados os espetáculos Nove Luas e Ópera Beradeira. O primeiro abordando a lenda do boto e o segundo a lenda da Iara.
Em seu TCC, Fabiano defende que os mitos e lendas são “escapatórias de comportamentos inadequados”, no entanto, compõem a identidade cultural dos amazônidas: As lendas como as do boto, da cobra grande, da vitória-régia, do guaraná, Ajunicaba, a origem da mandioca, a origem do rio Amazonas e tantas outras, são mitos de origem e fazem parte do conjunto de conhecimento do homem amazônico. (...) A nível nacional é impossível tentar retratar a Amazônia sem mencionar nem retratar seus contos e lendas”.
Fabiano Barros também falou de sua experiência em gestão de cultura. Ele esteve por anos à frente da Coordenação de Cultura do SESC Rondônia, onde pode coordenar e criar muitas ações para o teatro, mas não só para essa área. Atualmente trabalha na SEJUCEL onde, como afirmou, vem buscando desenvolver ações que possam permanecer no campo das políticas públicas, embora reconheça que a máquina do estado seja mais complexa e difícil.
Acompanhe o encontro e a conversa no link abaixo:




[1] Professor do Curso Licenciatura em Teatro da UNIR; Mestre em Artes pela Universidade Estadual Paulista (UNESP); coordenador do projeto Conversa de Quinta.




terça-feira, 22 de agosto de 2017

FEMUT

Adailtom Alves Teixeira[1]

Arte do I Festival. Arquivo de Neri Rodrigues
No dia 29 de junho de 2017, na Sala do Piano – Unir Centro, ocorreu mais um Conversa de Quinta: arte e cultura em debate, dessa vez o motivo do encontro foi o Festival Estudantil Municipal de Teatro (FEMUT) e contamos com a presença de Elcias Villar, Kenny Frazão e Neri Rodrigues.

O Festival foi muito importante na década de 1990 e, de acordo com os debatedores, a presença do Sindicato dos Artistas, com mão pesada na cobrança pela profissionalização, o enfraquecimento da Federação Estadual de Teatro, levou os profissionais para dentro das escolas, que teve um grande impulso com a criação do FEMUT.

Muitos foram e são os profissionais que ainda hoje atuam e que saíram ou começaram suas carreiras no Festival, a própria Kenny, presente no encontro é uma delas. A atriz abriu sua fala com um vídeo, uma entrevista que fez com Cláudio Vrena[2], idealizador do FEMUT. O vídeo é parte do material que pretende transformar em documentário. Kenny Frazão também realizou seu Trabalho de Conclusão de Curso, Licenciatura em Teatro pela UnB/UNIR, sobre o citado festival e entrevistou muitos artistas, dentre os quais Neri Rodrigues.
Certificado de Neri Rodrigues do I Festival

Neri Rodrigues contou emocionado sua participação e sua premiação em diversos anos, com os espetáculos produzidos dentro do Colégio Tiradentes. Além disso, levou ao encontro parte de seu acervo, que continua bem conservado e foi fotografado e alguns itens são aqui apresentados. São programas, cartazes, certificados, entre outros. O artista teve uma participação bastante intensa, chegando a ter três espetáculos concorrendo em um mesmo ano. A julgar pelas falas e o encontro, seu principal concorrente no FEMUT era Elcias Villar.

Elcias, hoje técnico na área de cenografia do Curso de Licenciatura em Teatro da UNIR, além de dirigir, chegou a organizar o festival quando estava na gestão pública do município. Um ponto a destacar de sua fala, foi quando levou um espetáculo com poucos elementos cênicos, apenas quatro banquinhos e os jurados disseram não se tratar de teatro, talvez pelo fato de cenografia ser um item importante na premiação. O fato é que a discussão e o desconforto gerados, abriram novos diálogos e depois vieram outros espetáculos de outros artistas com a cena quase vazia, modificando, assim, a visão sobre o teatro por parte dos jurados.
Programas do FEMUT de 1995 e 1996. Arquivo Neri Rodrigues

Na fala dos três, o FEMUT foi um festival muito significativo e importante e, conforme relatou Elcias, a prefeitura pretende retomá-lo. Sem dúvida uma proposta importante no incentivo e na formação de público, bem como no estímulo à formação na arte teatral.

Acompanhe toda a conversa no link abaixo:





Kenny, Neri, Elcias e Adailtom
  


[1] Professor do Curso Licenciatura em Teatro da UNIR; coordenador do projeto Conversa de Quinta; mestre em Artes pela Unesp.
[2] O artista foi convidado para esse encontro também, no entanto, não pode comparecer. Vrena é artista plástico, ator, diretor e bonequeiro.
Link do vídeo:


domingo, 28 de maio de 2017

Zaine Diniz: das brincadeiras infantis para os palcos

Adailtom Alves Teixeira[1]

A sul-mato-grossense Zaine Diniz, nascida na pequena cidade de Fátima do Sul, na região de Dourados/MS, chegou ao estado de Rondônia a 25 anos, veio para trabalhar em sua área de formação: pedagogia. Pertencente a uma família de músicos, em sua lembrança atuava desde criança, quando inventava histórias com outras crianças da família e rodava o chapéu entre os mais velhos. Ainda assim, prefere dizer que começou a fazer teatro em Cacoal com Chicão Santos, hoje seu companheiro de arte e de vida. A música, as artes plásticas, as manifestações populares, como as festas juninas, fazem parte de sua vida, ser atriz, como afirmou, “é mais uma função”. Zaine faz essa afirmação como quem diz: a mulher já tem que fazer tantas coisas na vida, escolhi também o teatro como uma forma de expressão.
Foto: Patrícia Pessoa

Seu início ocorreu dentro do projeto “Salto Teatral”, em 1990, com o Grupo Essência das Coisas, que coordenava um espaço da prefeitura, onde ocorriam as oficinas teatrais nos fins de semana. Apesar de fazer teatro a bastante tempo, falou da dificuldade de manter-se nessa área; seu relato chama a atenção para a ausência de políticas públicas, sendo contemplada com editais públicos – aí já residindo em Porto Velho – apenas a partir de 2006, quando, finalmente acessam verbas federais. Zaine destacou ainda a falta de políticas públicas no município e o estado de Rondônia, por isso a dificuldade em se manter um trabalho continuado. Mesmo assim, só esteve longe dos palcos quando mudou de Cacoal e foi para uma cidade menor, período que coincide com sua gravidez.

Chegando em Porto Velho, ela trabalhou em quatro espetáculos do grupo Raízes do Porto, sobretudo os infantis, e que guarda com alegria em sua memória. Zaine destacou a importância de trabalhar em grupo, pois só coletivamente é possível “realizar algumas loucuras”, como afirmou. Paralelo ao trabalho no Raízes do Porto, fundou em 2005, novamente com Chicão Santos, O Imaginário. Em 2006 o grupo O Imaginário foi contemplado com o primeiro edital público, com o qual realizaram a montagem de O Mistério do Fundo do Pote, de Ilo Krugli (argentino radicado no Brasil) e direção de Narciso Telles. Com o espetáculo circularam todo o estado de Rondônia e a região Norte.
Foto: Patrícia Pessoa

Depois vieram outros espetáculos: Ponto de Fuga, As Sombras de Lear, trabalho desenvolvido com Bya Braga. É nesse trabalho que, segundo Zaine, veio o desejo de investigar mais a questão da mulher, do feminino e seus problemas em sociedade. Muitas foram as histórias de mulheres que recolheram, de onde nasceu As Filhas da Mata. Teve ainda as produções de Olhos Verdes da Neurose, Varadouro (pesquisa sobre os coronéis de barranco), A Ferrovia dos Invisíveis (sobre a construção da Estrada de Ferro Madeira Mamoré). A última montagem, Mulheres de Aluá, criado a partir de processos jurídicos do início do século XX, circulou pela região Norte e ainda continua em cartaz.

Nem todas as produções Zaine está em cena, mas esteve envolvida de alguma forma com todos os processos realizados pelo O Imaginário, que, além dos espetáculos teatrais, coordena o espaço cultural Tapiri (próprio), onde é realizado um trabalho de formação desde 2012 e, além disso, o grupo idealizou e produz dois festivais: Mostra Tapiri de Breves Cenas e Monólogos e Amazônia Encena na Rua, uma referência  para os fazedores de teatro de rua do Brasil.
Divulgação: Mulheres do Aluá - Zaine Diniz, Amanara Brandão,
Agrael de Jesus e Flávia Diniz

Como se pode ver, muitas foram as realizações e as contribuições para a cena rondoniense. A própria Zaine afirmou que, ao preparar as fotos para mostrar para os presentes, não se dava conta do quanto já havia produzido. Que venham mais produções e realizações, ainda que os tempos não sejam favoráveis à arte.

Confira abaixo os links de áudio e vídeo do encontro realizado no dia 25 de maio de 2017, na Sala do Piano, Unir-Centro.










[1] Professor do Curso Licenciatura em Teatro da UNIR; mestre em Artes pela UNESP; coordenador do Projeto Conversas de Quinta: arte e cultura em debate.