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sábado, 15 de novembro de 2025

Teatralidades indígenas: memória, gesto e cosmovisão

 

Adailtom Alves Teixeira[1]

A noção de teatralidade pode ser entendida como o conjunto de elementos expressivos (corporais, vocais, espaciais e simbólicos) que produzem sentido para quem vê e para quem age. Ela não se restringe ao teatro enquanto instituição ou prática artística formal; antes, diz respeito à dimensão estética e comunicativa presente em toda ação humana que, ao ser realizada diante de alguém, passa a revelar intencionalidade, construção e presença. Nesse sentido amplo, a teatralidade é o modo como o corpo, a voz, o ritmo, o silêncio, o olhar, a espacialidade e os símbolos são ativados para narrar, transmitir, persuadir ou partilhar conhecimento.

Nas culturas indígenas, a teatralidade se manifesta de forma intrínseca à oralidade e à cosmovisão. A palavra falada, que vem carregada de ancestralidade, memória e territorialidade, não opera sozinha: vem acompanhada de gestos, marcas no chão, inflexões vocais, pausas e movimentos que compõem uma cena viva. A transmissão de histórias, mitos de origem, ensinamentos sobre a floresta e o manejo da vida comunitária envolve uma performance que é, ao mesmo tempo, estética, ritual e pedagógica. Contar é encenar: o corpo do narrador torna-se veículo de conhecimentos ancestrais, reativando a presença dos antepassados, dos espíritos e dos seres da floresta que compõem a ontologia indígena.

Essa dinâmica se aproxima da afirmação de Augusto Boal de que “todo mundo é teatro, ainda que não faça teatro”. Ao narrar, o sujeito mobiliza sua corporeidade, modulando gestos e palavras conforme observa a si mesmo e se relaciona com quem o escuta. Há um processo contínuo de lapidação expressiva: cada história exige um corpo específico, uma energia, um ritmo, uma intenção. Nos contextos indígenas, essa lapidação torna-se ainda mais significativa, pois envolve uma responsabilidade comunitária — não se trata apenas de transmitir um enredo, mas de manter viva uma memória coletiva, vinculada ao território, à ética da convivência e à continuidade espiritual.

A teatralidade indígena, portanto, não está separada da vida cotidiana. Ela emerge nas cerimônias, nos cantos, nos rituais de cura, nas narrativas ao pé do fogo, nas danças que reatualizam presenças e fazem circular saberes. Mais do que representação, trata-se de presentificação: o ato de contar faz com que o passado se torne agora; faz com que o território fale através dos corpos; faz com que as gerações se encontrem dentro de uma temporalidade circular.

Ao reconhecer essas teatralidades, amplia-se também a compreensão sobre o que é teatro e sobre como a cena pode ser concebida fora da lógica ocidental. As práticas indígenas revelam que a teatralidade é inseparável da vida, da memória e do corpo-território. E mostram que a arte de narrar, performar e partilhar saberes é, antes de tudo, uma arte de existir em relação: relação com os outros, com a natureza, com os ancestrais e com o futuro que se quer preservar.

 

Referências

BOAL, Augusto. Brecht e, modestamente, eu!. Disponível em: https://augustoboal.com.br/2013/06/13/brecht-e-modestamente-eu/. Acesso em: 15 nov. 2025.

SILVA, Adnilson de Almeida; AMARAL, José Januário de Oliveira; LEANDRO, Ederson Lauri. Narrativas indígenas e suas representações territoriais. In: AMARAL, Gustavo Gurgel do. Cultura indígena, ciência e arte: exercícios de hibridismo cultural. Porto Velho: Temática, 2017.



[1] Professor da Universidade Federal de Rondônia (UNIR) no Curso Licenciatura em Teatro; mestre e doutor em Artes pelo Instituto de Artes da Universidade Estadual Paulista (Unesp); ator, diretor e dramaturgo; integrante do Teatro Ruante.

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