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terça-feira, 28 de maio de 2019

Água de Chucalho e sua caminhada pelo Brasil

Adailtom Alves Teixeira[1]

A década de 1980, no que tange à história do teatro em Porto Velho, realmente foi um momento histórico de muita efervescência. Seja pelo fato do Brasil estar saindo de uma ditadura; seja pela organização enquanto unidade federativa (o estado de Rondônia foi criado em 1982); seja pela chegada de artistas de outros estados do Brasil que aportaram por aqui trazendo suas experiências e enriquecendo a cena; seja pela tentativa dos próprios artistas se
Matéria sobre o Água de Chucalho - Foto a partir do arquivo de Bira Lourenço
organizarem e buscarem um maior contato com outros artistas de outros estados do Brasil, inicialmente criando a Federação de Teatro de Rondônia e participando da Confederação Nacional do Teatro Amador (CONFENATA), criando festivais e outras ações; seja pela junção de tudo isso. De fato, ainda não podemos dar respostas definitivas, pois nossa pesquisa está em andamento. Nosso objetivo tem sido juntar as peças do quebra-cabeça e provocar os estudantes, aguçando sua curiosidade sobre a produção teatral rondoniense, já que a produção acadêmica sobre o tema é rara. Nesse aspecto, esse blog se insere nesse objetivo, ao reunir os diversos materiais que vamos encontrando ou construindo.

No último dia 04 de maio convidamos um dos integrantes do grupo Água de Chucalho para uma conversa sobre o trabalho e sobre a experiência desse coletivo pelas ruas e por alguns teatros do Brasil. A conversa ocorreu durante uma aula da matéria Teatro Brasileiro do Curso Licenciatura em Teatro da Universidade Federal de Rondônia. Nosso convidado: Birivaldo Lourenço. Muito conhecido na cena artística, sobretudo na área musical, mas com outro nome: Bira Lourenço.
Bira Lourenço em conversa com estudantes da UNIR

A incursão do Bira pela área do teatro se deu em 1986, a convite dos integrantes do Água de Chucalho para participar de um Festival que ocorreu em Colorado do Oeste naquele ano. Na sequência o artista foi convidado a integrar a circulação que o grupo faria no ano seguinte, 1987, Brasil afora, com o objetivo de chegar até a Argentina. Na bagagem dois espetáculos: Chico Rei de Walmir Ayala (espetáculo de palco) e Quem matou Zefinha? da sergipana Virgínia Lúcia (espetáculo de rua).

O Água de Chucalho, até onde se sabe, foi o primeiro grupo de Rondônia a sair, circular por outros estados do Brasil. Na circulação, não conseguiram chegar até o destina final, marcado para ser a Argentina, mas foram até o Uruguai e retornaram apresentando pelo Nordeste do Brasil. Na viagem de volta, passando por diversos estados da região Nordeste, encontraram outros grupos, como o Alegria, Alegria do Rio Grande do Norte - coletivo que tem uma importância significativa na organização do teatro de grupo, pós-Confenata, já que participou do início do Movimento Brasileiro de Teatro de Grupo (este, ainda pouco estudado).

Bira Lourenço relatou com muitos detalhes a circulação do Água de Chucalho, na qual apresentaram bem mais o espetáculo de rua, já que precisavam apenas dos recursos já disponíveis e as praças onde estavam, público sempre teve. Nos contou também sobre a descoberta e o prazer em
Bira Lourenço e estudantes do Curso Licenciatura em Teatro/UNIR
fazer arte, quando, por exemplo, se viu dormindo em um banco de praça, mesmo tendo casa e um bom emprego, mas que, naquele momento, sentia uma imensa felicidade em estar com os parceiros naquela "divertida" jornada. Na sua perspectiva, ali descobriu o significado de fazer arte.

Na circulação o grupo chegou até Montevideo no Uruguai, passando antes por Curitiba, Londrina, Pelotas, entre outras cidades e, ao retornar, apresentaram-se em Salvador, Aracaju, Natal, Recife, Fortaleza, São Luís e Brasília.

Bira levou uma peça gráfica sobre o Água de Chucalho, na apresentação do grupo podemos ler o seguinte:
"O Água de Chucalho foi fundado no dia 10 de abril de 1986, na cidade de Porto Velho, com o propósito de mostrar um Trabalho de Teatro de bonecos e de atores, buscando levar sempre uma temática forte, lutando
Capa da peça gráfica sobre a peça Chico Rei
Arquivo: Bira Lourenço
por uma transformação  social e procurando também dar uma boa qualidade aos espetáculos.
As montagens produzidas pelo Grupo são as seguintes: QUEM MATOU ZEFINHA? de Virgínia  Lúcia, direção de Ricardo Moreira; CHICO REI de Walmir Ayala, direção de Ronildo Moreira e CHUCALHANDO de Ricardo Moreira, direção de Xuluka.
Quanto a natureza da produção, viabiliza-se montagens com a venda de espetáculos, animação de festas infantis, doações etc. Estamos nas ruas, nos palcos, nos bairros, nas praças e nas bocas."

Além dos artistas citados acima (Ronildo e Ricardo Moreira, Xuluka), e de acordo com a peça gráfica já citada, participaram também do grupo Braz Dy Vinu, Lucineide dos Santos, Ednéia Sanches, Claudia de Castro e Bira Lourenço.
Jussara Assmann, Adailtom Alves e Bira Lourenço

A conversa foi registrada, para ouvir o áudio completo basta clicar aqui.



[1] Professor no Curso Licenciatura em Teatro da UNIR; mestre em Artes pela Universidade Estadual Paulista (UNESP); integrante do Teatro Ruante.

segunda-feira, 15 de abril de 2019

UM TCC: UM GRITO DE PROTESTO



O que a busca de um tema para o TCC (Trabalho de Conclusão de Curso) pode gerar? No caso de Raoní Amaral, aluno do curso de Licenciatura em Teatro, um espetáculo. A ideia surgiu quando Raoní teve contato com o grupo de pesquisa GEPIAA (Grupo de Estudos e Pesquisas Interdisciplinares Afro-Amazônicos) dentro da disciplina História da Cultura Afro-brasileira e Indígena, ministrada pelo professor doutor Marco Teixeira. O grupo estava iniciando suas pesquisas sobre a mãe de santo Dona Eunice, que foi uma importante líder religiosa de Porto Velho. Raoní, o diretor, atravessado pela história, teve a ideia de montar um espetáculo inspirado nessa temática.
O espetáculo IFÉ da Cia beradera de Teatro, estreou no dia 23 de março de 2019 e atualmente está em cartaz. A peça traz questões de religiões de matrizes africanas e contou com a dramaturgia do próprio diretor. A encenação passa-se em um antigo ''hotel/pousada" localizado na Avenida Sete de Setembro, principal avenida do centro da cidade. O espaço intimista contribuiu para aproximação entre público e atores, possibilitando uma interação entre si. A interação dar-se por meio de olhares, toques, diálogos, porém o público não chega a entrar em cena junto com os atores, oportunidade que poderia ser aproveitada, como por exemplo, nos rituais que envolvem as danças.
A música e a dança dialogam o tempo todo com a encenação, elementos muito bem aproveitados que nos remetem aos terreiros. Vale ressaltar a questão dos figurinos que caracterizam e representam as religiões de matrizes africanas. 
Ao final do espetáculo existe uma itinerância dentro do hotel, na qual o público escolhe uma vela; a cor da vela os direciona para um quarto. As cenas foram criadas pelo próprio elenco e tratam sobre temas de LGBTfobia, escravidão e a mulher ribeirinha.  Uma proposta bem elaborada do diretor, pois ele proporcionou autonomia aos atores para expressarem o que queriam. 
IFÉ vem como um grito de protesto contra todo o racismo, violência, preconceito e intolerância religiosa que estamos vivendo no Brasil e no mundo. O espetáculo expande a mente do público, tirando-os do senso comum a respeito das religiões de matrizes africanas.  

Stephanie Caroline Matos Dantas. 
Estudante do Curso de Licenciatura em Teatro (UNIR); critica produzida na disciplina Teorias do texto dramático e espetacular, ministrada pelo professor Dr. Júnior Lopes. 

quinta-feira, 28 de março de 2019

Em busca do outro teatro ou dos outros teatros


Curso: Licenciatura em Teatro/UNIR (3º período – 2019-1)
Docente: Professor Me. Adailtom Alves Teixeira
Discentes: Dennis Weberton Vendruscolo Gonçalves
Disciplina: História do Teatro e Literatura Dramática A


Uma das frases que mais chamou a minha atenção no documentário “O outro teatro: do ritual à performance”, do pesquisador Zeca Ligiéro, foi: “O teatro está, às vezes, na mesma quadra em que moramos”. Isso porque me recordei dos folguedos natalinos que são comuns na minha cidade natal, Alta Floresta D'Oeste, interior do estado de Rondônia. Antes do Natal, pouco mais de quinze pessoas saem às ruas da cidade com a tradicional Folia de Reis. Os bastiões vão à frente pedindo licença para adentrar nas casas e tocar toadas anunciando a chegada do menino Jesus.

Observei por diversas vezes, antes mesmo de fazer parte de um grupo de teatro, que há em seus gestos, nas suas falas, toda uma teatralidade, um jogo entre os membros da folia e os donos das casas, que recebem em seus recintos o ritual de anunciação. Intuição essa que foi confirmada com pesquisas e mais pesquisas que fiz para uma reportagem sobre a festividade em 2011. Intuição que foi reafirmada ao assistir o documentário de Zeca Ligiéro, o qual classifica a folia de reis como uma performance cultural, estabelecendo o conceito de motriz cultural, em que tradições africanas e ameríndias são perfomadas no Brasil, atualizadas e ressignificadas conforme o contexto em que estão inseridas (a Folia de Reis, por exemplo, mescla elementos da religiosidade cristã européia com a africana).

Essa breve introdução me fez refletir sobre o que é teatro. E é essa questão que também permeia o documentário em seus mais de 20 minutos. O pesquisador Zeca Ligiéro vai em busca dos outros teatros, de possibilidades cênicas difundidas em países da Ásia, da América e da África e nos apresenta a rica história do teatro na China, com sua ópera tão característica em que são mescladas desde as belas artes até as artes marciais, e que foge do tom realista tão caro aos europeus.

O documentarista também nos mostrará a potência ameríndia no que diz respeito à teatralidade, em especial da tradição maia no fazer cênico e de como essa estética se aproxima da chinesa, em que o corpo é visto de maneira não realista. Por fim, são mostrados rituais africanos que abarcam processos teatrais na maneira como são contadas as histórias, como são encenadas através do dançar, batucar e cantar histórias míticas de um povo, ou de vários, fazendo uso de dois elementos que se intercalam e por vezes se misturam que são o ritual e o jogo (brincadeira).

Nesse processo de estabelecer e evidenciar a teatralidade em outras culturas que são hegemônicas (asiática, americana e africana), que não estão contidas em um edifício (o teatro - local - espaço onde se vê) ou que não correspondem ao que classificam como teatro contemporâneo, o pesquisador vai nos apresentar o conceito de performance, em que o performer se mostra como o próprio texto, e ao invés de representar um personagem, representa a si mesmo, ou ainda, com seu corpo processa as matrizes culturais a que está inserido e, a partir disso, “corporifica uma literatura viva, desenvolvida a cada apresentação”.

A partir dos conceitos apresentados no documentário, percebo que teatro vai muito além de espetáculos encenados em um espaço previamente estabelecido, muito além do entretenimento, muito além do que peças européias que estudamos e encenamos exaustivamente no mercado e na academia. O teatro é uma possibilidade de reinvenção, de recriação, de comemoração, através do ritual e do jogo, de dramaturgias diversas e que muitas vezes estão à margem do processo de visibilidade. Como Ligiéro diz, esses outros teatros “carregam para a cena as crenças, as concepções espirituais e as peculiaridades de cada cultura” e é desses teatros que precisamos saber e pesquisar cada vez mais.

REFERÊNCIAS

O OUTRO teatro – do ritual à performance. Direção: Zeca Ligiéro. Produção: Núcleo de Estudos das Performances Afro-Ameríndias. Rio de Janeiro (RJ). 2018, Vídeo on line. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=I5BKv48WC7c. Acesso em: 05/07/2019.

sábado, 2 de março de 2019

CARTA PÚBLICA À FUNCULTURAL – PORTO VELHO/RO


CARTA PÚBLICA À FUNCULTURAL – PORTO VELHO/RO
A Fundação de Cultura de Porto Velho – FUNCULTURAL, pelo segundo ano consecutivo, faz um chamamento público às diversas categorias artísticas, dentre elas o teatro, sem nenhum diálogo prévio. A falta de conversa cria certa anomalia e, ao mesmo tempo, demonstra total desconhecimento do fazer artístico teatral, na medida em que dita regras absurdas, a saber: espetáculos com 5 (cinco) artistas em cena, duração de uma hora, pagando a exorbitância de R$ 500,00 (quinhentos reais) por apresentação. Estranho a pré-determinação da quantidade de artistas em cena, bem como a determinação do tempo de uma obra. Como se paga o transporte? Como se paga todas as taxas diante da extensa documentação exigida? E o tempo de elaboração de uma obra? E os custos de produção? Etc.
Se a FUNCULTURAL deseja o desenvolvimento e a profissionalização do teatro em Porto Velho, é fundamental o diálogo com os artistas, o empenho de mais recursos e, principalmente, tirar do papel a Lei 1.820 de 01 de julho de 2009 – Programa Municipal de Fomento ao Teatro Para a Cidade de Porto Velho –, que prevê a contemplação de até 30 (trinta) projetos em editais abertos duas vezes ao ano.
Aguardamos uma resposta à demanda acima e a construção de um diálogo transparente e republicano com a categoria teatral de Porto Velho.

ASSINAM – ARTISTAS E COLETIVOS DA CIDADE:
O Imaginário
Teatro Ruante
Departamento de Artes – UNIR
Taiane Sales – Atriz
Marcelle Pereira – Professora da UNIR
Rosângela Hilário – Professora do Departamento Ciências da Educação – UNIR
Fabiano Barros – Diretor, dramaturgo e gestor cultural
Movimento ProCultura de Rondônia
Almício Fernandes – Ator e produtor
Rafael Barros – Ator e produtor
Raíssa Dourado – Cineasta
Thiago Maziero – Músico
Judilson Dias – Diretor e produtor teatral
Grupo Quebra-Cabeça de Teatro
Trupe dos Conspiradores
Reginaldo Cardoso – Presidente do Conselho Municipal de Cultura
Raoni Amaral – Ator e produtor
Grupo Raízes do Porto
Centro Acadêmico de Artes da UNIR
Gabriel Corvalan – Ator
Grupo Teatral Diz-Farsa
Cia Beradera
Izabela de Lima Feitosa – Cantora
Banda Beradelia
João Almeida de Barros Lima Neto – Ator
Andressa Batista – Produtora Cultural
Betânia Maria Zarzuela Alves de Avelar – Produtora Cultural
Carol Aguiar – Cantora
Mayara Gabaldi Sampaio – Atriz e palhaça
Andressa da Silva – Atriz e bailarina

ASSINAM – ARTISTAS E COLETIVOS DO ESTADO E DA REGIÃO NORTE:
Grupo Wankabuki – Vilhena /RO
WebRádio Porto Velho Caos
Associação Cultural Wajari – Guajará-Mirim
Celeiro Cultural – Ji-Paraná
Colegiado do Curso de Teatro da Universidade Federal do Amapá
FETAC – Federação de Teatro do Acre
Movimento Cultural Desclassificaveis/AP
Associação AMAPAENSE de Folclore e Cultura Popular-AAFCP - Paulo Alfaia - Coordenador de Produção Cultura e Arte
Cia. Visse e Versa - Rio Branco/AC
Movimento Cênico Artheatrum – Macapá/AP
Locômbia Teatro – Roraima
Thaise Luciane Nardim - atriz e professora da Universidade Federal do Tocantins

APOIAM – MOVIMENTOS E GRUPOS TEATRAIS DE TODOS O BRASIL:
RBTR REDE BRASILEIRA DE TEATRO DE RUA
MARL Movimento dos Artistas de Rua de Londrina - Londrina/PR
MTR-BA – Movimento de Teatro de Rua da Bahia
MTR/SP – Movimento de Teatro de Rua de São Paulo
FECATE – Federação Catarinense de Teatro
Associação Cultural Joana Gajuru – Maceió/AL
Galpão da Lua - Presidente Prudente/SP
Oigalê Cooperativa de Artistas Teatrais - Porto Alegre/RS
Teatro em Trâmite - Florianópolis/SC
Casa Vermelha - Florianópolis/SC
Teatro de Rocokóz - São Paulo/SP
Circo e Teatro Éramos Três - Cascavel/Curitiba-PR
Cia Pedras - Maringá/PR
Grupo Experimental de Teatro Vivarte - Rio Branco/AC
De Pernas Pro Ar - Canoas/RS
Cirquinho do Revirado - Criciúma/SC
Grupo TIA - Canoas/RS
Cia. Fundo Mundo - Florianópolis/SC
Cia. Estável de Teatro - São Paulo/SP
Cia Delas - Londrina/PR
Escarcéu de Teatro - Mossoró/RN
Grupo Xingó - São Paulo/SP
Teatro de Caretas - Fortaleza/CE
Mamulengo Sem Fronteiras - Brasília/DF
Cia. Canina – Teatro de Rua e Sem Dono - São Paulo/SP
Mãe da Rua - São Caetano/SP
Bando Goliardxs - São Paulo/SP
Os Atrapalhados - Osasco/SP
Teatro Imaginário Maracangalha - Campo Grande/MS
Grupo Teatral Nativos Terra Rasgada - Sorocaba/SP
Cia. Colcha de Retalhos - São Paulo/SP
Tropa Mamulungu - Rio Branco/AC
Cia. MiraMundo Produções Culturais - São Luís/MA
Cia Teatro de Garagem - Londrina/PR
Na Cia da Cabra Orelana - São Paulo/SP
Poeta Capim Santo - Fortaleza/CE
Grupo Teruá – Fortaleza/CE
Buraco d’Oráculo - São Paulo/SP
Cia. Bornal de Bugigangas - Assis/SP
Circo Teatro Capixaba - Divino de São Lourenço/ES
Grupo de Teatro de Rua Loucos e Oprimidos da Maciel - Recife/PE
Som Na Linha - Presidente Prudente/SP
ERRO Grupo -  Florianópolis/SC
Pombas Urbanas - São Paulo/SP
Coletivo Menelão de Teatro - ABC/SP
Fátima Sobrinho - Belém/PA
Trupe Olho da Rua - Santos/SP
Trupe Tamboril de Teatro - Uberaba/MG
Coletivo Dolores Boca Aberta - São Paulo/SP
Grupo Primeiro de Maio - Salvador/BA
Núcleo Ás de Paus - Londrina/PR
Mala nas Costas - São Miguel do Gostoso/RN
Circo Teatro Capixaba - Divino de São Lourenço/ES
CHAP - Companhia Horizontal de Arte Pública - Rio de Janeiro/RJ                                                      
Povo da Rua-teatrodegrupo - Porto Alegre/RS
GRUTTA - Tangará da Serra/MT
Grupo TAMTAN - Tanquinho/BA
Kiwi Cia de Teatro - São Paulo/SP
Coletivo Comum - São Paulo/SP
Cabaré Feminista - São Paulo/SP
Núcleo Pavanelli de Teatro de Rua e Circo - Tatuí/SP
Brava Companhia - São Paulo/SP
Cia Casa da Tia Siré - São Paulo/SP
Estudo de Cena - São Paulo/SP
Dirigível Coletivo - Belém/PA
Grupo de Teatro Quem Tem Boca é Pra Gritar - João Pessoa/PB
Cia. Translúcidas - Londrina/ PR
Mamulengo Rasga Estrada - Presidente Prudente/SP
Grupo Rosa dos Ventos - Presidente Prudente/SP
Tropa Trupe - Natal/RN
Do Buraco Sai o Quê? - Rio de Janeiro/RJ
Grupo Trilho de Teatro Popular - Porto Alegre/RS
Os Mamatchas - São Paulo/Buenos Aires
Trupe Circuluz - Olinda/PE
Grupo Nóis de Teatro - Fortaleza/CE
Traço Cia. de Teatro - Florianópolis/SC
Grupo Ritornelo de Teatro - Passo Fundo/RS
Coletivo ClanDesTino - Dourados/ MS
Rué La Companhia - São Paulo/SP
Grupo Manjericão - Porto Alegre/RS
Gira Cia. Andante – Rio de Janeiro             
Árvore Casa das Artes - Vitória/ES
Mocambo Groove - Presidente Prudente/SP
Cia de Teatro Madalenas - Belém/PA
Coletivo Mulheres Aguerridas - Salvador/BA
Coletivo Arte Marginal - Salvador/BA
Grupo Primeiro de Maio - Salvador/BA
Cia Bornal de Bugigangas - Assis/SP
Grupo Ueba Produtos Notáveis - Caxias do Sul/RS
Teatro Imaginário Maracangalha - Campo Grande/MS
ConsuArte Ltda - PE
Grupo Luz e Sombra - PE
Cia Só/Edna Aguiar - Londrina/PR
Cia MiraMundo / Michelle Cabral - São Luis CT/MA
Cia de Teatro Soluar - João Pessoa/PB
Grupo Olho Rasteiro - Curitiba/PR                                                       
Cia. Os Palhaços de Rua - Londrina - PR
Ói Nóis Aqui Través - Porto Alegre / RS
Será O Benedito? Cia. de Teatro, Circo e Rua - Rio de Janeiro / RJ
Grupo Tibanaré – Cuiabá/MT

sexta-feira, 4 de janeiro de 2019

VIII FESTIN-AÇU - entrevista

Adailtom Alves Teixeira*

Ocorrido entre 15 a 18 de novembro de 2018, o VIII FESTIN-AÇU - Festival Internacional de Teatro de Guajará-Mirim - único festival internacional do estado de Rondônia -, teve diversas apresentações teatrais do Brasil, Bolívia e México, além de ações formativas e o I Fórum de Teatro da Fronteira. O Festival é realizado pela Associação Cultural Waraji, estando à frente da produção Thaiz Lucksis, Paulo Santos e Rafael Barros.

Apesar de já ocorrer a oito anos ininterruptos, o apoio governamental, quando há, é irrisório. O Festival se realiza graças a solidariedade dos artistas e da comunidade. Essa, aliás, é uma das tônicas do Festival, de acordo Thaiz Lucksis, com quem conversamos um pouco. A conversa teve a participação também do Paulo Santos. Estava presente também a monitora do festival e acadêmica de teatro da UNIR, Stephanie Matos.

A entrevista faz parte do levantamento histórico da cena rondoniense, pesquisa que realizo dentro da linha de pesquisa Memórias da Cena Amazônica, do Grupo de Pesquisa PAKY`OP da UNIR, ligado ao Curso Licenciatura em Teatro. Assim, o material (a entrevista) não só amplia o conhecimento da história do teatro em Rondônia, mas é mais um documento para futuras pesquisas de outros pesquisadores. Estamos levando material sobre a história do teatro, ao mesmo tempo em que produzimos documentos, tomando como metodologia a História Oral. 

Acesse o áudio da entrevista aqui.



*Professor no Curso Licenciatura em Teatro da UNIR; mestre em Artes pela Universidade Estadual Paulista (UNESP); integrante do Teatro Ruante.

sexta-feira, 25 de maio de 2018

Política pública de cultura em Rondônia e o desrespeito à legislação



Adailtom Alves Teixeira[1]

A arte não é uma categoria administrativa, mas é, ou deveria ser, a moldura da vida.
George Pompidou

            No Brasil há um ditado em relação a certa legislação que afirma o seguinte: essa lei não pegou. Ou seja, apesar de existir e, portanto, ser respeitada, o que ocorre é um descaso por parte das autoridades. Em Rondônia é possível destacar duas leis no âmbito da cultura que não "pegaram": uma municipal e outra estadual. A primeira é a Lei 1820 de 2009 que institui o Programa Municipal de Fomento ao Teatro para a cidade de Porto Velho, que, em breve fará dez anos, mas não saiu do papel. A segunda, é a própria Constituição do Estado que vem sendo desrespeitada em seu Artigo 208, que criou o Fundo Estadual de Desenvolvimento da Cultura (FEDEC), para o qual deveria ser destinado 0,5% do orçamento à cultura. A mudança ocorreu em 2015 por meio de Emenda Constitucional (EM) de nº 103, aprovada no dia 07 de outubro daquele ano. A EM 103 prevê ainda a “ampliação progressiva dos recursos contidos nos orçamentos públicos para a cultura”, recursos que seriam destinados a um fundo, o FEDEC, mas desde a criação nada foi depositado.
Imagem da divulgação da Audiência Pública.
            Como é regra, a Constituição do Estado segue a Constituição Federal (CF) de 1988 que, em seu Artigo 215, assegura que “O Estado garantirá a todos o pleno exercício dos direitos culturais e acesso às fontes da cultura nacional”. Além da CF, há um Plano Nacional de Cultura, do qual Rondônia e Porto Velho são signatários, daí a necessidade de instituições públicas de cultura, conselhos, e políticas institucionalizadas como os fundos e outras leis. O que explica a mudança na legislação, mas não o descumprimento.
            A política pública de cultura no Ocidente é bastante antiga. Bauman (2013), tomando a França como referência, afirma que o “patrocínio da arte pelo Estado” ocorre, pelo menos, desde o século XVI; até mesmo o que se convencionou por chamar de “política cultural”, apareceu uns duzentos anos antes mesmo do termo cultura. Mas o que denominamos por política pública de cultura, ainda segundo Bauman, teria ocorrido em 1959, sob presidência de Charles de Gaulle e o Ministério da Cultura a cabo de André Malraux:

Agora se entendia ‘cultura’ principalmente como arte e criação artística, e a multiplicação daquela e a intensificação desta tornaram-se foco das atividades do Ministério então recém-estabelecido. A democracia política seria completada pela democratização da arte (BAUMAN, 2013, p. 93).

            Desde então, pelo menos na França, seja a direita ou a esquerda que esteja governando, apoiam a pluralidade das artes, fomentam a criação e possibilitam que a arte chegue até o público, afinal, esse é o papel principal do Estado, na medida em que não produz, deve fomentar as artes e a cultura. Por aqui, no Brasil, há exemplos de políticas públicas de cultura bem sucedidas, como algumas leis praticadas na cidade de São Paulo, como o Programa de Fomento ao Teatro – aliás, diga-se de passagem, a Lei de Fomento de Porto Velho, mas que inspirada é uma cópia dessa, com o único defeito de não ter colocado dotação orçamentária própria; outras cidades como Londrina, Porto Alegre, também tem programas públicos na área da cultura. Políticas de Estado.
            Programas e leis asseguram a continuidade das ações, isso também define e diferencia uma política de governo, da política de Estado. A política de governo, por mais ampla que seja, está sujeita aos humores dos governantes de plantão, isto é, aquilo que é praticado por uma gestão não está assegurada na próxima, pois não se trata de lei, mas sim programa de governo. Só a lei garante que o gestor continue as ações determinadas pela legislação, pois seu descumprimento acarreta (ou deveria) punições. Muito embora, no caso rondoniano, mesmo tendo política de Estado, isto é, leis, não faz muita diferença, pois vem sendo sistematicamente descumpridas. Cabe a pergunta: o que faz com que uma lei pegue? Ou em outros termos: como fazer para que o Poder Público cumpra o que determina a lei?
            No próximo dia 14 de junho às 15h haverá audiência pública na Assembleia Legislativa para se discutir o porquê de não estarem sendo feito os repasses anuais de 0,5% do orçamento do Estado para o FEDEC. A participação de artistas, produtores e outros interessados, é fundamental, afinal, assim como a maior parte da população de Rondônia, anseiam por uma cidadania cultural. Desejamos que daí venha respostas e atitudes e que o mesmo se repita no município de Porto Velho, para que a cultura possa ganhar novo alento e impulso em seu desenvolvimento, pois como afirma Bauman, “Como tantas outras funções do Estado contemporâneo, o patrocínio da criatividade cultural espera urgentemente o ‘subsídio’” (2013, p. 108).

Bibliografia
BAUMAN, Zygmunt. A cultura no mundo líquido moderno.Rio de Janeiro: Zahar, 2013.
BRASIL. Ministério da Cultura. As metas do Plano Nacional de Cultura. São Paulo: Instituto Via Pública, 2012.
CHAUÍ, Marilena. Cidadania cultural. São Paulo: Fundação Perseu Abramo, 2006.

LINKS
Abaixo assinado:
encurtador.com.br/hlprA

Lei de Fomento:
encurtador.com.br/rxOZ3

Constituição do Estado:
encurtador.com.br/ehmzJ

Constituição Federal:
encurtador.com.br/ailZ0



[1] Professor da Universidade Federal de Rondônia; Mestre em Artes pela UNESP; Articulador da Rede Brasileira de Teatro de Rua.

quarta-feira, 21 de março de 2018

Resenha sobre o filme El Ghada’a El Eid, de Lucien Bourjeily



De como o Líbano me atravessa: Fecha a porta porque roupa suja se lava em casa!
Por Júnior Lopes[1]

Sinopse: Josephine, the matriarch of a sprawling family, is delighted to gather everyone for Easter lunch for the first time in two years. While they all share a joyful meal, an incident ignites underlying tensions between the family members and leads them gradually into chaos.
Director: Lucien Bourjeily Writer: Lucien Bourjeily
Stars: Samira Sarkis, Nadim Abou Samra, Jenny Gebara, Laeticia Semaan, Farah Shaer, Jean-Paul Hage, Hussein Hijazi, Ghassan Chemali, Wissam Boutros, Nancy Karam, Etafer Aweke, Toni Habib, Mohammad Abbas
Language: Arabic
Português: Josephine, a matriarca de uma família numerosa, pela primeira vez em dois anos, tem o prazer de reunir todos para um almoço de pascoa. No meio do almoço, um incidente inesperado provoca uma grande tensão entre os membros da família que pouco a pouco vai se instaurando um grande caos entre eles.  
Filme: Ghada’a El Eid (2017/2018) Direção e roteiro: Lucien Bourjeily Produção: Farah Shaer  Duração: 91 min
Exibições:
7 de dezembro de 2017 em Dubai Internacional Film Festival
4 de fevereiro de 2018 em European Film Festival
1 de março estreia no Líbano
3 de março de 2018 Cinequert International Film Festival
13 de março de 2018 em Miami Internacional Film Festival


Beirute, Líbano
21de março de 2018

(…)Lucien Bourjely's film answers all the questions that bothered me after these meetings-exchanges in Lebanon and goes beyond: it throws me new questions, other reflections, new raptures. Most of the conflict situations I encountered in Lebanon are on the cinema screen:

               Doors open. Noise. Family meeting. Lunch. A lot of food. Beverage. Friendship. Missing. Reports. Party. Lack of energy. Generator. Policy. Discussion. Optimism. Pessimism. Conflicts. Elections. Policy. Manipulation. Wars. Catholics. Orthodox. Maronitas. Shiites. Sunni. Druses. Pumps. Constitution of 1943. Ministers. Policy. Religion. Names. Last name. Neighborhood. Poetry. Gibran Khalil Gibran. Nation. Freedom. Extremism. Power. Money. Policy. Passport. Diaspora. Sectarianism. Disbelief. Prejudices. Ethiopia. Sri Lanka. Utopia. U.S. Canada. Dubai. Russia. Reality. Brazil. Memory. Forgetfulness. Shot. Conformism. Doors Closed. Silence.

So, with a precise script and excellent direction of actors and scenes, the director and screenwriter of El Ghada'a El Eid opens the door and opens Lebanese conflicts from a family lunch.(…) Júnior Lopes


Portas se abrem: No dia 12 de março após ver uma publicação do diretor Libanês Lucien Bourjeily de que seu filme Ghada’a El Eid estava em cartaz no Beirut Souks, e que por se tratar de ser um filme não comercial, o cinema provavelmente iria tira-lo de cartaz naquela semana, sai correndo para assistir ao filme. Já conhecia o currículo do diretor Lucien Bourjeily pois ele já havia estado no Brasil com o espetáculo teatral 66 minutos em Damasco e pelos temas de seus trabalhos. Mas, foi no Líbano que tive a oportunidade de conhece-lo pessoalmente em uma oficina de improvisação teatral ministrada por ele.
Já é a minha terceira vez em Beirute. A primeira por 15 dias em dezembro de 2016. Depois mais 15 dias em outubro de 2017 e agora por três meses, de fevereiro a abril de 2018. Pois bem, o leitor deve estar se perguntando porque eu estou aqui pela terceira vez e qual é o motivo de estar em Terras Libanesas?
Sempre fui motivado a conhecer o Líbano pois o meu avô era libanês. A questão da descendência foi o pontapé inicial para fazer as malas e embarcar neste novo contexto. Meu avô nunca voltou ao Líbano desde que saiu daqui. Ou seja, foi jovem para o Brasil, solteiro, construiu família, casa, trabalho e lá no Brasil morreu aos 99 anos. Mas, ele deixou para mim a herança libanesa que me orgulho. Assim, de 2016 para cá, Beirute é o “meu caminho da roça”.  Sou professor de teatro e letras na Universidade Federal de Rondônia e no início de 2017 no grupo de Pesquisa Paky’op – Laboratório de Teatro e Transculturalidade, abrimos uma linha de pesquisa com o tema: Teatro e Política no Oriente Médio: paralelos com a América Latina. E essa linha de pesquisa é um dos motivos que me laçam aqui agora.
Hoje completo 45 dias aqui em Beirute. Estou exatamente na metade do período que ficarei aqui. Nos 45 dias do primeiro tempo. Ainda faltam mais 45 dias. Ou seja, o tempo de uma partida de futebol. Muita coisa pode acontecer.
Novamente o leitor deve estar se perguntando... Mas, qual a relação desse relato pessoal com o filme Ghada’a El Eid de Lucien Bourjely?

Foto pessoal: Tive a oportunidade de assistir uma sessão em que dois atores do elenco estavam presentes.

Bem, aqui em Beirute, além de ter o objetivo de estudar língua árabe, eu trouxe uma pergunta para ser respondida: Qual a relação entre teatro/artes e política no oriente médio, mais especificamente, no Líbano? Meu objetivo, após me aproximar das possíveis respostas, é traçar os paralelos com a América Latina, mais especificamente, com o Brasil.
O filme de Lucien Bourjely me responde todas as perguntas que me incomodavam após esses encontros-trocas no Líbano e ainda vai além: ele me lança novas perguntas, outras reflexões, novos arrebatamentos. Grande parte das situações conflito que me deparei no Líbano estão ali na grande tela:
Portas se abrem. Barulho. Reunião familiar. Almoço. Muita comida. Bebida. Amizade. Saudade. Relatos. Festa. Falta de energia. Gerador. Política. Discussão. Otimismo. Pessimismo. Conflitos. Eleições. Política. Manipulação. Guerras. Católicos. Ortodoxos. Maronitas. Xiitas. Sunitas. Drusos. Bombas. Constituição de 1943. Ministros. Política. Religião. Nomes. Sobrenome. Bairro. Poesia.  Gibran Khalil Gibran. Nação. Liberdade. Extremismo. Poder. Dinheiro. Política. Passaporte. Diáspora. Sectarismo. Descrença. Preconceitos. Etiópia. Sri Lanka. Utopia. Estados Unidos. Canadá. Dubai. Rússia. Realidade. Brasil. Memória. Esquecimento. Tiro. Conformismo. Fecham se as portas. Silêncio. (Descrição minha sobre o filme)

De uma maneira artística, com um roteiro preciso e excelente direção de atores e cenas, o diretor e roteirista de El Ghada’a El Eid abre as portas e escancara conflitos libaneses a partir de um almoço em família.
“ I only wish more Lebanese movies like  Ghada El Eid would be released, something to educate or question our society’s values” I’ve watched it, the subject is very interesting & concerns or may happen among all Lebanese families. (…)
“(...) Lucien did a great job, we should encourage those kinds of Lebanese movies” (http://www.howitakemycoffee.com/ghada-el-eid-by-lucien-bourjeily-is-simply-a-great-lebanese-movie/)

O diretor literalmente expõe o interior das personagens. Ele não empurra a sujeira para debaixo do tapete. O filme inicia com as portas fechadas que logo se abrem com a chegada dos convidados. A ação acontece exclusivamente dentro da casa na mesa do almoço. Fatos surpreendentes vão arrebatando o espectador e grandes tensões são criadas. Não se trata de um filme didático explicativo para tratar de temas que atravessam a sociedade libanesa. O trabalho é completamente artístico e em um único ambiente e em uma hora e meia de filme o diretor consegue virar a mesa e expor todos os personagens com os seus conflitos mais íntimos e suas relações com a sociedade libanesa.  O fio condutor não é interrompido e uma ação desencadeia a outra.
Impressionante como que um almoço familiar em um filme libanês me fez relembrar questões muito pontuais que aconteceram comigo desde a primeira vez no Líbano. Imagino como deve ter sido a recepção para os libaneses.
Por exemplo, o meu vôo do Brasil para cá sempre foi passando pela Etiópia. E nessa conexão tive o meu primeiro conflito. O avião quando chega em Ades Abeba (capital da Etiópia) fica lotado de meninas etíopes que vêm para o Líbano trabalhar como empregada doméstica. A maneira como elas são tratadas no avião (não pelas comissárias, mas sim por outros passageiros), no embarque, no desembarque e no momento de ser “entregue” a família que irá contrata-a (abriga-la) me chamou muita atenção. Me deu um “sentimento” escravidão.
Uma das cenas mais fortes e violentas do filme, na minha opinião, é protagonizado por uma empregada doméstica etíope e um libanês: O ódio e o preconceito escancarado deste libanês contra ela e qualquer outro imigrante de países subalternos.
Outro conflito que passei tem relação com minha descendência. Meu avô veio de família drusa aqui no Líbano e a primeira vez que estive aqui as pessoas perguntavam o nome do meu avô e o sobrenome e, consequentemente, já sabiam que ele era druso. Ou me perguntavam a região que morava e também já era possível constatar a sua religião. Fui descobrindo isso aos poucos. E essa informação as vezes pode ser um divisor de águas. Algumas pessoas eram indiferentes com essa informação. Outras se aproximavam e outras simplesmente se afastavam.
Assim, a grande parte da discussão levantada pelos personagens no filme sobre religião, política, diásporas, liberdade de certa forma me atravessam/atravessaram nessa minha estadia aqui. Ora no taxi, na rua, nas praças. Ora com amigos, ora com família, etc.
 O filme me fez refletir sobre a questão da liberdade e predestinação quando uma das personagens questiona o fato de que no Líbano a criança já nasce e na sua identidade já aparece a sua religião impressa. Ou seja, ela está predestinada a essa religião. Tal fato implicará outras questões na vida futura. Na política libanesa, por exemplo, presidentes e ministros ocupam partidos a partir da legenda de sua religião. O presidente obrigatoriamente deve ser um maronita. O primeiro ministro um sunita. E por aí vai. Política e religião andam lado a lado.
Portanto, El Ghada’a El Eid me atravessa, me arrebata e me faz lembrar uma expressão em português: Roupa suja se lava em casa. Em El Ghada’a El Eid a cena começa com as portas se abrindo e a partir daí se joga no ventilador todos os conflitos que estão sufocados, neste caso, representado por uma família. No final, após um desfecho surpreendente, as portas se fecham. Ou seja, ficará entre quatro paredes. A roupa suja se lavará em casa? Será? Portas se fecham.



[1] Júnior Lopes, nome artístico de José Maria Lopes Júnior. Brasileiro em intercambio no Líbano. Professor de Teatro do Departamento de Artes da Universidade Federal de Rondônia. Integrante do Grupo de Pesquisa Paky’op – Laboratório de Teatro e Transculturalidade. Professor, ator e diretor de Teatro. (lopez_junior@yahoo.com.br)