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sexta-feira, 11 de outubro de 2019

Grupo de Pesquisa e Extensão em Crítica Teatral


Adailtom Alves Teixeira

Desde o início de agosto desse ano (2019, um pequeno grupo de artistas tem se reunido para estudar, discutir e produzir críticas na área teatral. O projeto tem minha coordenação e é intitulado Grupo de Pesquisa e Extensão em Crítica Teatral e tem o objetivo de firmar as análises críticas na cidade.

Os envolvidos tomaram contato com alguns conceitos e tiveram a oportunidade de receberem uma aula com o professor Dr. Alexandre Mate, do Instituto de Artes da Universidade Estadual Paulista (UNESP), que coordena um grupo de pesquisa em críticas teatrais cadastrado no CNPq e do qual sou membro.


Após alguns encontros estabelecemos como início de produção o Festival Palco Giratório, que ocorreu em setembro e teve uma programação extensa e diversa com dezenas de espetáculos. O coletivo escolheu antecipadamente alguns espetáculos, tendo cada apresentação escolhida ao menos duas apreensões críticas.

Esperamos que esse trabalho venha render frutos e que seja o início de um longo diálogo com a cena teatral de Porto Velho. Evoé!

quarta-feira, 9 de outubro de 2019

Audiência pública e os rumos da cultura em Porto Velho


Adailtom Alves Teixeira[1]

No último dia 03 de outubro ocorreu uma Audiência Pública sobre cultura na Câmara Municipal de Porto Velho. A demanda surgiu das provocações do Movimento PaCultura, que tem mexido com a cena cultural da cidade no que tange às políticas públicas. O coletivo pressionou para que a Funcultural (Fundação Cultural de Porto Velho) realizasse a Conferência Municipal de Cultura, seguida do acompanhamento da posse do novo Conselho de Cultura e agora essa Audiência – que, diga-se de passagem, durou meses até conseguirem, pois o pedido havia sido protocolado em março desse ano. O PaCultura vem se reunindo desde fevereiro e desde lá, muitas águas rolaram.

O dado mais importante da Audiência, presidida por Edwilson Negreiros (PSB) – e também atual Presidente da Câmara – é que o movimento obteve o compromisso do vereador a não votar o orçamento do próximo ano sem antes destinar uma porcentagem ao Fundo Municipal de Cultura. Cabe ressaltar que os artistas que lá estavam sugeriram o mesmo percentual do Estado de Rondônia: 0,5%. Se for destinado esse aporte de recursos para a Cultura, será o início de uma mudança significativa para os fazedores de arte da cidade. Claro, isso deve vir por meio dos programas já existentes e de editais transparentes, mas o passo inicial para qualquer política pública é que haja recursos.

A relação de quem faz cultura com os entes estatais sempre passou por momentos bons e conflituosos desde a Grécia Antiga. Mas sempre que há no Estado (município, UF e União) pessoas comprometidas com os avanços civilizacionais, nesses momentos as políticas públicas dão uma guinada e todos ganham, sobretudo os cidadãos, destino final de toda e qualquer política pública importante.

É fato que todas as pessoas têm uma forte relação com as artes, inclusive os políticos, por isso, via de regra, não se colocam contra. Todos têm algum momento marcante de suas vidas em que obras artísticas são lembradas: um poema, uma música, um filme um local histórico etc. Dessa forma, “ninguém” é contra a cultura, muito embora ela seja sempre a última área a ser pensada. E, ultimamente, artistas vem sendo criminalizados, como se eles não fossem importantes para o desenvolvimento do país.

A cidade de Porto Velho já tem algumas leis que não vem sendo cumpridas: Sistema Municipal de Cultura, Fundo Municipal de Cultura, Lei 1820 de 2009 (Programa de Fomento ao Teatro). Passou da hora do poder público dar a devida atenção a este problema. É preciso fazer com que essas leis saiam do papel.

O sociólogo Zygmunt Bauman em seu livro A cultura no mundo líquido moderno (2013) afirma que “Entre 1815 e 1875 [portanto, pós-revolução francesa, pós-terror, passando pela Primavera dos Povos e a Comuna de Paris], o regime do Estado mudou cinco vezes. A despeito das drásticas diferenças entre eles, um tema estabelecido por seus predecessores foi aceito sem questionamento: a necessidade de as autoridades do Estado prosseguirem em seus esforços no sentido de esclarecer e cultivar, noções agora coletivamente conhecidas como desenvolvimento e disseminação da cultura.” Mesmo o regime tendo mudado cinco vezes, repito, o regime, ninguém questionou o significado das artes e da cultura para aquelas sociedade, bem como a importância de investimento para o seu desenvolvimento. E hoje, esse é um dos países que miramos e vemos como civilizado.

Lembro um grande diretor de teatro, Amir Haddad, quando afirma que “os políticos fazem o país, os militares fazem a pátria, mas só os artistas fazem uma nação”. Ainda que tenha exageros nessa máxima, quando lembramos de Portugal pensamos em Camões, Fernando Pessoa, no fado; o Brasil é conhecido lá fora pela sua música, sua cultura popular, como o carnaval etc. Via de regra são os artistas, as obras artísticas, os monumentos patrimoniais  que nos fazem lembrar dos lugares, das cidades, dos países e marcam nossa história pessoal e coletiva. Por que então a arte e a cultura são tão negligenciadas?

No âmbito nacional gostaria de destacar as três dimensões da cultura, presentes no Plano Nacional de Cultura (Lei 12.343/2010), do qual Porto Velho é signatário: Dimensão simbólica, cidadã e econômica. A dimensão simbólica reconhece que todo ser humano é capaz de criar símbolos que se expressam nos costumes, nas artes, na culinária, nas crenças etc. A dimensão cidadã, reconhece a cultura como direito social, já presente na Constituição de 1988, isto é, por meio das políticas públicas, as pessoas devem acessar os “meios de produção, difusão e fruição”. A dimensão econômica, coloca a cultura como estratégia do desenvolvimento econômico.

E aqui é importante atentarmos ao fato e vermos a cultura como geradora de renda e empregos – em tempos de desempregos massivos, é fundamental o investimento em arte e cultura. Cito dois exemplos, para que se entenda a complexidade da cadeia produtiva das áreas artísticas – cabe destacar que cada linguagem tem suas especificidades. Vamos aos exemplos: um festival de teatro quando recebe recursos, por não lidar com a lógica da acumulação, faz com que todo o dinheiro circule por outras áreas: gráficas, transportes aéreos e terrestres, hotéis, restaurantes, até pequenos ambulantes ganham, além disso, os demais comércios, pois os artistas consomem no lugar onde ocorre o festival; um outro exemplo recente, o filme Bacurau impactou direta e indiretamente mais de 800 pessoas, apenas um único produto cultural mobilizou essa quantidade de pessoas. Isso talvez explique o pequeno milagre que a cultura brasileira opera: os investimentos na área nunca chegam se quer a 1%, mas a economia da cultura é responsável por quase 3% do PIB nacional.

Penso que fica claro a importância da Audiência Pública e do comprometimento do Presidente da Câmara em haver orçamento para a área cultural no próximo ano. Fica claro também a importância de mais artistas participarem do Movimento PaCultura, afinal as conquistas vêm organização e luta. Por fim, cabe destacar, que a vitória não está assegurada, é preciso acompanhar e cobrar os recursos e o funcionamento do Fundo Municipal de Cultura, só assim, talvez tenhamos o desenvolvimento de todas as linguagens artísticas em Porto Velho.


[1] Professor do Curso Licenciatura em Teatro da Universidade Federal de Rondônia; integrante do Teatro Ruante; articulador da Rede Brasileira de Teatro de Rua.

quarta-feira, 2 de outubro de 2019

Teatro Acreano


Amanara Brandão dos Santos Lube

Trabalho desenvolvido na matéria Teatro Brasileiro, ministrada pelo professor Adailtom Alves Teixeira, Curso Licenciatura em Teatro da Universidade Federal de Rondônia, junho de 2019.
   

Apresentação

A partir das aulas desenvolvidas no semestre 2019.1 acerca do Teatro Brasileiro, a presente pesquisa tem o intuito de pontuar informações que possibilitem o conhecimento sobre o teatro desenvolvido no etado do Acre, identificando e entendendo suas origens e características.
            A história do teatro brasileiro, bem como a história geral oficial, é contada a partir de um recorte que atenda aos interesses de quem a escreve, e nesse contexto encontramos como obstáculo no apanhado histórico teatral a escassez de informações sobre o teatro desenvolvido no Brasil que não esteja limitado ao eixo Rio-São Paulo.
            Quando se trata da Região Norte, é ainda mais gritante a ausência de registros, como se por aqui não houvesse arte ou pouco importasse o que acontece, o que artistas locais fazem ou se não houvesse público – com seu direito constitucional de ter acesso à cultura.
            Aos poucos essa realidade vem sendo transformada, com iniciativas de artistas, pesquisadoras e pesquisadores, que têm se empenhado na tarefa de registrar a história do teatro desenvolvido em terras amazônicas brasileiras, que ao contrário do que está difundido, existe e resiste há bastante tempo. É a partir de pesquisas dessa natureza, já realizadas ou em andamento, que vamos discorrer aqui acerca do teatro acreano.

Desenvolvimento
           
1.                  Contexto Histórico

Apesar de já ter sido visitada pelas expedições portuguesas, a colonização efetiva das terras que hoje compreendem o estado do Acre inicia-se em meados do século XIX, predominantemente por nordestinos que se direcionavam à Amazônia fugindo de difíceis condições sociais e em busca de oportunidades de renda com a extração do látex (essa movimentação em massa ficou conhecida como “Primeiro Surto da Borracha”).
Em meio as difíceis condições de trabalho, materiais e econômicas, e o isolamento geográfico ao qual a região estava sujeita até meados da década de 1980, tornou-se quase impossível falar de criações culturais acreanas no final do século XIX e início do século XX.
Esta tarefa ficou a serviço da imprensa local, que dava vazão às criações poéticas e intelectuais no início do século XX.

As publicações literárias de tal imprensa eram assentadas sobre o homem e o ambiente acriano, em um processo de busca de identidade e procura de superação do isolamento geográfico que envolvia a região. Essas produções foram escritas e publicadas nos jornais locais, desde 1903, em um movimento esporádico, mas significativo, de confecção de poemas impressos em pequenas partes dos jornais.
Somente no período posterior à elevação do Acre de território nacional à categoria de estado, em 1962, iniciou-se a circulação de um número maior de artigos poéticos, bem como as primeiras publicações de livros de poesias e prosas produzidos no estado por autores acrianos. O trabalho ainda se firmava em uma busca de identidades acrianas através de tentativas de inserção da produção literária no cenário nacional e amazônico, porém acrescentou-se a esse fato uma procura por originalidade na escrita da poesia e da prosa. Essa fase da intelectualidade e produção literária ocorreu simultaneamente com as iniciativas de intervenções das outras linguagens artísticas, já citadas (MELO, 2009).

Apenas após a elevação do Acre de território nacional à categoria de Estado (que ocorreu em 1962), ocorre a publicação dos primeiros livros de poesia e prosa de autores do estado, em busca de originalidade e a criação de uma identidade acreana. A partir daí inicia-se o que pode ser considerado a consolidação de um discurso artístico, constituindo os primeiros grupos de teatro e de música, festivais musicais, mostra de artes plásticas e produção de algumas películas de cinema.

2.    O Movimento Teatral

Os primeiros grupos de teatro estavam vinculados às CEBs – Comunidades Eclesiais de Base, para fins religiosos, sendo o primeiro grupo o “GESCA” (Grupo de Estudos Sociais Comunitário da Amazônia), com sua primeira dramatização sendo uma adaptação do texto Morte e Vida Severina (1965), de João Cabral de Melo Neto.
Porém, o movimento teatral no Estado do Acre se constitui, quanto movimento organizado, na década de 1970.
Os principais grupos que fizeram parte do movimento teatral amador, na cidade de Rio Branco, nesse período, foram Semente, Apúi, De Olho na Coisa, Gruta, Grito, Macaíba, Sacy, Fragmentos, Testa, Pimentinha, Vogal, Piatemar e Kennedy. Os grupos musicais foram constituídos, principalmente, por: Raízes, Vitória Régia e Brasas do Forró. Foram, também, realizados alguns festivais de músicas, tais como, O canto da Seringueira e o Festival Acreano de Música Popular – FAMP. No cinema, as películas foram elaboradas pelas produtoras ECAJA e Cine Clube Aquiri. Também houve alguns movimentos literários como o Barracão e o Contexto Cultural, veiculando poesias, contos, crônicas, literatura de cordel e artes plásticas (Rocha, 2006, p. 176 apud MELO, 2010).

3.        Forma e conteúdo

O teatro que vem a ser produzido a partir da década de 1970 é marcado por seu conteúdo de engajamento político, onde jovens acreditavam que através da linguagem teatral, em tom de denúncia e agitação popular, poderiam trazer mudanças ao cenário social, com uma estética voltada às questões amazônicas acreanas. A época ficou marcada pelo movimento chamado “Resistência Cultural”, que seria uma separação entre a cultura acreana e a cultural ‘de fora’ – sudeste e também resistência à ocupação das terras amazônicas; caracterizado como um teatro de militância política e de valorização de aspectos regionalistas, trançando o esboço de uma identidade cultural acreana.
A Federação de Teatro Amador do Acre (FETAC) é fundada em maio de 1978, a partir da reunião entre os grupos GRUTA (Grupo de Teatro Amador), Vogal (Grupo Vogal de Teatro Amador), Macaíba, Grupo Semente de Teatro Amador, Grupo Experimental de Teatro Universitário e Grupo Piatema de Teatro Amador, para discutirem a criação de uma instituição que legitimasse os interesses da crescente classe artística.
Através dessa instância representativa dos interesses da classe teatral abriu-se no Estado caminhos para trocas de experiências com outros grupos do cenário teatral, em sua maioria filiados à Confederação Nacional do Teatro Amador (CONFENATA). Iniciou-se, também, a partir daí, a vinda de diretores de teatro de outros Estados, que foram à Rio Branco ministrar diversos cursos, como os de direção teatral, interpretação, cenografia, entre outros (ROCHA, 2006, p. 193). No que se refere à exemplificação de grupos que estiveram à frente do formato de teatro de grupo a que nos referimos nesse tópico, podemos citar o Grupo Ensaio, dirigido por Gregório Filho. Esse é um exemplo de grupo evadido de uma Comunidade Eclesial de Base e que tem características e importância no sentido de ter sido um dos primeiro grupos, no Estado, a pensar em prática de preparação de ator e produção de peças sem fins religiosos. Das peças encenadas pelo grupo, e que sobreviveram ao esquecimento que o tempo destinou a um grande número de obras da época, podemos citar: Tempo de Espera (1975), A Cigarra e a Formiga (1976), A Margarida curiosa visita a floresta negra, É pois é. O Ensaio também foi pioneiro ao propor reuniões de diferentes grupos para prática de exercícios teatrais, tais como estudos de preparação do ator e leituras dramatizadas feitos no auditório do Colégio Acreano. O grupo era eclético em suas proposições, fazia tanto montagem de textos produzidos por dramaturgos acrianos como também montagens de peças de grandes dramaturgos. Por volta de 1975 e 1976 foi montada, por exemplo, a peça ― Aquele que diz sim, Aquele que diz não de Bertolt Brecht (Marco Afonso apud Calixto Marques, 2005). Outro grupo, especializado na linguagem teatral, na década de 1970, foi o Grupo Testa que resultou da reunião de alguns outros grupos de Rio Branco, como o Sacy, Fragmentos e Baia e era dirigido pela atriz Vera Fróes. Diferente de outros grupos, o Testa possuía vínculo institucional com uma entidade paraestatal, a saber, o SESC-AC. Por esse motivo, as encenações produzidas pelo grupo ocorriam nas dependências do próprio SESC, no Teatro de Arena, construído em 1979. Devido à grande proximidade do grupo com a instituição, foi comum a utilização de funcionários do próprio SESC na criação de espetáculos e na participação dos processos de encenação. Em um trecho de um dos referidos manifestos, produzidos pelos diretores da FETAC, percebe-se como as produções vinculadas ao SESC criavam polêmicas entre a classe artística acriana, uma vez que os privilégios dados para alguns grupos e a tomada deposição frente a uma determinada estética, não eram bem aceitos por muitos do movimento teatral (MELO, 2010).

            Um manifesto publicado pela FETAC em 1980 retrata as temáticas presentes nas encenações da época: “De um modo geral os grupos dão preferência a textos que dizem respeito à realidade acreana, apesar das dificuldades de encontrá-los sem que deixe de haver trabalhos experimentais baseados em tragédias gregas e teatros do absurdo” (Manifesto da FETAC, 1980:02-03).

Ao concluir o Manifesto, a comissão diretora falou o seguinte a respeito de suas pretensões para o movimento teatral:

A proposta da Comissão Diretora é de dirigir os trabalhos da FETAC, de maneira a servir também aos movimentos de oposição popular e a afirmação da cultura regional e nacional, pois acreditamos que o teatro não pode ser apolítico, desvinculado do processo histórico do povo. Estamos dispostos a trabalhar para a organização de uma política cultural digna da região norte, para não ficarmos sendo manipulados pela política reacionária estabelecida no país. (Manifesto da FETAC, 1980:03)
Quando fala dos movimentos de oposição popular, a Comissão Diretora está se referindo aos movimentos de intervenção política bastante atuantes, na época, no período histórico em que ocorria uma conturbada agitação e reestruturação sócio-política do estado. Por isso, estava incluído, no planejamento de trabalho, o apoio tanto às novas instituições de oposição popular quanto às que se faziam na afirmação da cultura regional e nacional” (MELO, 2009).
           
            A cena na época também foi marcada pelo “Teatro Relâmpago”, uma modalidade desenvolvida por alguns grupos no Estado, que, segundo Elderson Melo (2009), consiste em “(...) esquetes escritas, ensaiadas e apresentados num curto espaço de tempo, sem censura, envolvendo vários grupos, com o objetivo de levantar a discussão e reflexão sobre um acontecimento presente que precisa ser divulgado, geralmente a convite de alguma entidade como Comissão de Defesa dos Direitos Humanos, do Meio Ambiente e Pró-Índio” sendo um tipo de trabalho que está presente na cena acreana desde 1978. A carência de espaços físicos específicos fez com que os bares se tornassem palco das manifestações artísticas na época.

O Grupo Semente, foi formada por jovens estudantes e teve sua estrutura criada a partir não mais de questões religiosas. Uma das características desse grupo foi sua ligação com as questões políticas, seguindo uma linha de pensamento eminentemente trotskista. O grupo teve vida curta, mas dele saíram representantes significativos para o movimento teatral e político acriano, como a ex-ministra do meio ambiente Marina Silva, o governador do Estado, Arnóbio Marques, e o professor do departamento de história da UFAC, José Dourado. Por volta de 1978, o grupo conseguiu construir um espaço próprio para seus encontros, estudos e ensaios, o Teatro Horta. Segundo Calixto Marques (2005, p. 51), ― o objetivo era fazer da atividade artística, especialmente a teatral, um caminho que retirasse as crianças e adolescentes da periferia da situação de risco. (...) O grupo se desfez devido a divergências internas que emanaram nas discussões a respeito dos objetivos de suas representações cênicas. Alguns integrantes achavam que o grupo deveria se especializar na linguagem artística, desenvolvendo trabalhos mais efetivos de preparação de ator e refinamento da cena. Outros acreditavam que a finalidade principal do grupo deveria ser a defesa de questões políticas. A disputa interna acabou provocando uma cisão, desmembrando o grupo em dois novos: o Cirkistilo e o Apuí. Os integrantes que se preocupavam com questões formais do teatro, passaram a integrar o grupo Cirkistilo. O grupo Apuí marcou uma volta às discussões relacionadas às Comunidades Eclesiais de Base, retomando as produções direcionadas às periferias da cidade de Rio Branco” (MELO, 2010).

Outro grupo de relevância na cena da época e para a história do teatro acreano é o Grupo De Olho Na Coisa, de onde vem o diretor “Matias”, atualmente homenageado pelo “Festival Matias de Teatro de Rua”, que ocorre no Estado, com a participação de grupos locais e nacionais.

Grupo De Olho Na Coisa. Essa é uma formação de longa trajetória no teatro acriano, uma vez que esteve presente nas práticas artísticas de Rio Branco desde o início da década de 1970 e mantém-se até hoje. A grande figura desse grupo era o seu diretor, José Marques de Souza – o Matias. Matias montou o grupo e esteve em sua direção até falecer, com 61 anos de idade, em abril de 1997, quando, então, o grupo passou a ser dirigido pelo seu filho Cláudio Matias. Com formação apenas pelo Mobral e nenhum contato com texto de teatros de outras localidades, a forma encontrada por esse autor passa essencialmente pela narrativa e como ocorre com a maior parte de textos produzidos nesse período de nossa pesquisa, pelo fio didático. Matias foi um seringueiro, poeta e contador de histórias. Escreveu diversas peças, nas quais evidenciava suas preocupações sociais com a população local. (...) Em uma segunda fase, o grupo dirigido pelo ex-seringueiro Matias segregou-se da Comunidade Eclesial de Base, instituindo, oficialmente, o Grupo De Olho na Coisa. Esse momento teve sua maior expressão na década de 1990 e marcou uma pesquisa mais específica dessa formação no tocante à linguagem teatral. Nesse período, o grupo conseguiu financiamento para construir o Teatro Barracão, um símbolo representativo do grupo e um espaço, efetivo, de mobilização artística. O local em que foi edificado esse teatro estava destinado à construção de um hospital público, em uma área que foi considerada insalubre. Silene Farias, presidente da FETAC na época, conta em depoimento a um jornal local que decidiu, junto a alguns colegas, construir o prédio destinado a um teatro com verba concedida pelo Instituto Nacional de Arte Cênica e destinada à FETAC (Zílio, 2004). O Barracão foi, então, construído em uma periferia da cidade de Rio Branco, o que, em parte, dificultava o acesso ao espaço, mas que tornava, contudo, o movimento teatral mais próximo das comunidades periféricas, um princípio básico para a maioria dos coletivos atuantes na época no tocante à utilidade do teatro. Como o teatro encontrava-se instalado próximo do lugar de atuação do De Olho Na Coisa, esse grupo acabou sendo o principal utilizador do espaço, realizando, nesse teatro, grande parte de suas práticas sociais. ―Foi na efervescência do trabalho de resgate do teatro na cidade [de Rio Branco] que se conseguiu com que Matias e Valério fossem contratados para trabalharem no Barracão e que duas casas fossem construídas para ambos atrás do prédio. Em 1997, a revista Aquiri registrou que o Grupo De Olho na Coisa já havia expandido, desde sua constituição como Grupo Baía, na década de 1970, suas atuações para outras e mais aprimoradas experiências artísticas. O grupo desenvolveu, durante a década de 1990, projetos de oficinas artes-educativas, oficinas de iniciação circense, capoeira, produção de máscaras teatrais, entre outras. As intervenções do grupo haviam, também, sido transpostas para outros espaços teatrais da cidade, tais como praças e igrejas, chegando a ocorrer encenações dentro de ônibus públicos. Exemplos de espetáculos apresentados pelo Grupo de Olho na Coisa, nesse período, foram as peças O Clamor da Floresta, A vida na Floresta, O Homem que Vendeu a Sua Alma, entre outros” (MELO, 2010).
           
            Como de costume do fazer teatral, alguns grupos já saíam em circulação com seus espetáculos pelo interior do Estado e fora do mesmo.

4.         Atualmente

            Já no século XXI, poucos dos grupos mais antigos mantiveram sua formação e muitos outros foram formados. Os interesses das produções teatrais ultrapassam o teatro engajado e emerge uma preocupação com questões técnicas, estéticas, de pesquisa e de preparação de atores.
            Atualmente, o movimento teatral dispõe de políticas culturais como a criação de Leis de Incentivo à Cultura, na cidade de Rio Branco, bem como a Fundação Cultural do Estado – criada na década de 1970, com a Lei de Incentivo à Cultura que beneficia atividades artístico-culturais, nos eixos de criação, produção, formação, memória, circulação, leitura, conservação, difusão e eventos; além dos Conselhos de Cultura, incentivados pelo até então Ministério da Cultura, promovendo uma participação democrática na elaboração e execução de políticas públicas culturais.
            Atualmente existem aproximadamente 23 grupos teatrais organizados no Estado do Acre, em sua maior parte instalados na capital Rio Branco. Alguns desses grupos são: Grupo de Olho na Coisa, Cia. Trupe do Banzeiro, Grupo de Teatro e Circo Palhaço Rufino e Sua Turma (GPRT), Grupo Orákulos, Grupo Guaratuja, Grupo Vivarte, Companhia Vice Versa, Grupo El-Shadai, Grupo Attos, Teatro Popular do Acre, Grupo Nauart, entre outros.
            A FETAC, a Usina de Artes João Donato, o Serviço Social do Comércio do Acre – SESC/AC, a Fundação de Cultura Elias Mansour, a Universidade Federal do Acre, são instituições de grande importância para a cena local, proporcionando espaços e financiamento para o desenvolvimento de ações artísticas, na pesquisa, formação e difusão do teatro no e do Acre.

Considerações finais
                                   
            É possível identificar certas características no movimento teatral do estado do Acre desde seu surgimento, como a preocupação em uma produção engajada em questões sociais dialogando com a realidade local, bem como a intenção de se estabelecer e discutir uma identidade local, como forma de afirma-se e resistir diante da constante marginalização cultural e econômica que a Região Norte sofre, especificamente o Acre, um dos extremos geográficos do país.
            Quem se guia por esses preconceitos para imaginar a cena artística do Acre com certeza surpreende ao deparar-se com a realidade tão rica, forte e efervescente da cena acreana, que apesar de sofrer com as questões econômicas – presente na maioria, senão em todos os estados brasileiros – para manter-se, existe e resiste enquanto voz de um povo que sabe seu valor e espaço no mundo.

Referências

MARQUES, Maria do Perpétuo Socorro Calixto. Recepção do teatro político em terras amazônicas. <Disponível em: https://www.publionline.iar.unicamp.br/index.php/abrace/article/view/3337>

MELO, Elderson Melo. Teatro de grupo no Estado do Acre: Trajetória, prática e inserção do estilo regional (1970-2010). Campinas - SP, 2010. < Disponível em: https://pt.slideshare.net/EduardoCarneiro1/meloelderson-melode-teatro-de-grupo-no-estado-do-acre-a-insero-do-estilu-regional-19702010>

MELO, Elderson Melo. O teatro de grupo no Acre: uma história a se escrever. ANPUH – XXV SIMPÓSIO NACIONAL DE HISTÓRIA. Fortaleza, 2009. <https://anpuh.org.br/uploads/anais-simposios/pdf/2019-01/1548772190_601c48addb988abe579ae7daad3a8827.pdf>

terça-feira, 23 de julho de 2019

MEMÓRIAS DA MARGEM: O NÃO-RIO, AS LAVADEIRAS E A HISTÓRIA QUE RENASCE


Dennis Weberton Vendruscolo Gonçalves[1]

Trabalho apresentado ao curso de Licenciatura em Teatro da Fundação Universidade Federal de Rondônia (UNIR), na disciplina “Teatro Brasileiro”, sob orientação do Professor Mestre Adailtom Alves Teixeira.

Acompanhe o processo de montagem do espetáculo “À Margem”, idealizado por mulheres do Grupo de Teatro Wankabuki, de Vilhena (RO)

“Caiu, caiu, do pé de ipê, uma flor amarela bonita de ver”, cantam enquanto descem a barranca de um rio. Você vai ouvir mais uma vez, quem sabe a única vez o canto delas.  Essas mulheres que viram e ouviram a história contada nas feiras, após missas, num encontro furtivo entre comadres, nas beiras dos rios, seus locais de trabalho. Nessa história gente importante é vista de longe, com olhos bem miúdos e com pouca palavra. Outras bocas, as bocas e braços invisíveis, desenrolam as trouxas de lembranças, de fragmentos domésticos, esfregam as roupas-memórias, enxáguam na água-acontecimento-esquecimento e colocam para secar nos varais do tempo. Um tempo em que poeira, lama, suor, e por que não, lágrimas, garantiam o sustento de muitas mulheres e suas famílias em Rondônia. Este estado, com todas as suas complexidades e disparidades, com céu azul, como brada o hino rondoniense, e também com seus rios assoreados, mortos, encurralados, é revisitado no espetáculo “À Margem”, realizado por mulheres artistas do Grupo de Teatro Wankabuki, localizado no município de Vilhena, distante mais de 700 km da capital Porto Velho.
Valdete Sousa. Foto Dennis Weber.
A trama de “À Margem” foi construída a partir de vozes femininas, de mães e avós, que em cena contam as histórias de rios mortos e também de famílias que abandonaram suas origens em outras paragens do Brasil e partiram em busca do Eldorado, da terra prometida, da fartura disponível mais ao Norte, como bradavam os anúncios midiáticos. “Em 2016 nós montamos ‘Contos do não-rio’ [uma breve cena apresentada na segunda edição do Festival Amazônico de Monólogos e Breves Cenas] que provém de uma pesquisa sobre a vinda das nossas mães para cá. Eu sentia necessidade de começar a falar daquilo que é nosso. Eu queria contar a história de um rio morto, como tantos outros que temos aqui na cidade, dentre eles o Pires de Sá. Ao mesmo tempo eu via que a história desse rio passava pela história da ocupação de Vilhena. Enquanto a cidade ia crescendo o rio ia minguando, então queria falar sobre isso. Comecei a conversar com minha mãe e com pessoas mais velhas, perguntando como que era quando elas tinham chegado aqui. Daí eu tive esse estalo da vinda da minha própria mãe e comecei a relembrar as histórias que escutei na infância e desta forma foi surgindo a dramaturgia de ‘À Margem’”, relata Valdete Sousa, uma das fundadoras do Grupo de Teatro Wankabuki e responsável pela dramaturgia e direção de “À Margem”, espetáculo contemplado pelo Prêmio Sesc de Incentivo às Artes Cênicas em 2018.


Resgatando um quase morto
O Rio Pires de Sá, ao qual Valdete se refere, é um dos mais importantes de Vilhena e está localizado, em partes, na zona urbana do município. Ao longo do processo de ocupação populacional, o rio foi degradado, chegando a quase sumir. Quase. Através da iniciativa da professora Ana Neri, que atua em uma escola estadual, um projeto propôs a recuperação de nascentes e matas ciliares. O resultado foi o plantio de mais de sete mil mudas e a preservação de uma das nascentes, como aponta uma reportagem publicada em 24 de outubro de 2014 pelo Portal de Notícias G1 Rondônia. Em contato com a professora, Valdete tomou conhecimento das pesquisas realizadas.  “Ela tem essa pesquisa com mais de dez anos, que faz junto com os alunos da escola. Em conversa, ela falava sobre o Pires de Sá, sobre a revitalização do rio, que antes estava só um filete, já não tinha nem água mais, e aí comecei a me interessar muito por essa pesquisa dela e falei ‘Ana Neri a gente tinha que escrever um espetáculo sobre isso né’. Comecei com essas conversas com a minha mãe sobre um rio que tinha quando nos mudamos para Ji-Paraná e que hoje não existe, e era um rio limpinho que pegávamos água. Queria então falar como foi a vinda dessas pessoas para o estado de Rondônia e como isso, de certa forma, foi matando esses rios. No início era disso que eu queria falar e acabou entrando nesta história das lavadeiras, que ficavam nesses rios e que lavavam roupas”, detalha a dramaturga que é licenciada em Letras/Português pela Universidade Federal de Rondônia. 
Tainá Sousa e Valdete Sousa. Foto Dennis Weber.
A partir de relatos orais a Valdete foi tecendo os primeiros contornos da trama já apresentada mais de dez vezes em diferentes cidades do Estado de Rondônia, dentre elas a capital Porto Velho, além de Ariquemes, Nova Mamoré e Vilhena, município onde reside boa parte do Grupo de Teatro Wankabuki. “Fui ouvindo histórias, conversei mais com a Ana Neri, relembrei muitas histórias do meu pai, fui coletando esses fragmentos orais, depois parti para a pesquisa histórica. Li sobre a passagem de Rondon por aqui, a respeito da lenda do Urucumacuã, que conta a história de que aqui nós temos o maior tesouro perdido, que é uma coisa que os incas já pensavam. Fui muito nesse filete da história, que fala sobre a passagem de Rondon pelo Cone Sul, de como ele achou que aqui tinha um tesouro perdido e que iria deixar o país inteiro rico. Depois de tudo isso coletado, eu abandonei o texto por um tempo. Quando ganhamos o prêmio do Sesc retomei as pesquisas.  E aí, durante uma noite inteira acordada, escrevi a peça. Peguei o texto “Contos do não-rio”, reestruturei e redigi como peça mesmo, com os cinqüenta minutos de cena que o espetáculo tem hoje”, narra Valdete.

           Lavadeiras não há mais!
O rio quase morto ganha voz através das bocas de duas lavadeiras, que na peça não possuem nomes, e que podem ser a mãe, a avó ou a tia de você que está lendo esta reportagem. São elas, que ao longo de quase uma hora de espetáculo, vão destrinchar a história de ocupação do estado de Rondônia, da busca desenfreada por riquezas, de pequenos e grandes, e também das desventuras dos mais fracos, daqueles que o discurso hegemônico relegou as margens do processo histórico. “Nós estamos falando de mulheres que não só vieram para Rondônia, mas que ficaram no estado. Na maioria das famílias com as quais conversamos, a família vinha inteira para cá, mas quando chegaram aqui e os homens descobriram o quão duro era trabalhar nessa terra, uma terra com muitas facilidades, mas também dificuldades, então alguns desses homens ficaram com certo melindre, e voltaram para casa, que foi o caso do meu pai, e as mulheres não quiseram voltar, porque a viagem era muito cansativa, e já que estavam aqui, porque não fazer daqui seu lar? Então as mulheres ficaram e criaram seus filhos”, expõe Valdete. 
Foto Dennis Weber.

            A opção por colocar lavadeiras como protagonistas de “À Margem” foi, ao mesmo tempo, um resgate de uma personagem que a tecnologia está suprimindo do imaginário popular, como também uma homenagem à sua mãe que foi lavadeira, explica Valdete. “É uma personagem que está no imaginário da nossa história, mas ele deixou de existir. Você não encontra mais mulheres lavando roupa nos rios. Você vai ao Rio Machado não tem mais ninguém, no Madeira só se for nas comunidades menores que você vai ver alguma mulher lavando. É uma personagem que está começando a desaparecer da nossa região. Apesar de ter muitos rios aqui, você quase não vê mais a mulher na beira do rio com um batente batendo roupa. Era uma personagem que eu queria resgatar, trazer de volta e mostrar ela na cena”, acrescenta. 

           Retrato de todos nós
Partindo de histórias pessoais, de memórias das décadas de 1960, 1970, 1980, “À Margem” tem como ponto de partida narrativo a família de Valdete, desembocando em uma saga que congrega as vivências e desafios de muitas outras e outros que se aventuraram em busca de pedras preciosas, terras e de uma vida menos sofrida. Contar essa saga, para Valdete, não foi difícil. É uma história tão recorrente que poderia ser de qualquer família daqui da região. É muito normal isso acontecer aqui, por isso não foi difícil levar para a cena, porque é uma intimidade que não é só minha, é de um monte de gente. Foi divertido, tem umas passagens que são muito interessantes de lembrar. Eu recordei junto com a minha mãe, ficamos mais próximas. Fiquei muito feliz quando ela viu a peça. Toda vez que vê ela chora, então quer dizer que de alguma maneira a peça está tocando. Venho tentando transformar assuntos pessoais em histórias universais, ideia que eu ouvi do Fabiano Barros. Ele faz muito isso, cada espetáculo dele é uma história que ouviu de alguém e ele vai lá e escreve e transforma em uma coisa em que todo mundo já viveu. Pensei muito sobre isso, em quantas histórias que eu conheço da minha família, ou de algum conhecido e que podem ser trabalhadas em cena. Em “A Margem”  consegui ir permeando pelas histórias da família, junto com a pesquisa sobre Rondônia”,  relata.
Débora Veiga Ruiz. Foto Dennis Weber.
Emoção é o termo utilizado pela atriz Tainá Sousa para definir o que o espetáculo “À Margem” causa nela a cada vez que pisa no palco e interpreta uma das lavadeiras. Em cena ela se depara com episódios familiares de sua mãe e também de seu tio, sua tia e sua avó.  “É sempre emocionante quando falamos a respeito, principalmente para a minha avó, sempre que ela assiste. Nossa família possui uma grande quantidade de histórias, e isso é muito bacana, principalmente pela criatividade de cada uma delas. O espetáculo fluiu facilmente tendo essas memórias como embasamento”, descreve a jovem que é sobrinha de Valdete e está no grupo desde 2014.
Um exemplo de como a dramaturgia de “À Margem” se conecta com as histórias de outras pessoas, que não às da família de Valdete e Tainá, pode ser conferido no relato de Débora Veiga Ruiz, responsável pela sonoplastia do espetáculo. “Apesar de não estar no grupo na época da pesquisa, a história da minha família também é representada ali: família grande de retirantes do nordeste, que vem em busca do ‘Eldorado’ e de uma vida melhor. Minha avó, minha mãe e minhas tias lavaram roupas no Pires de Sá, o nosso ‘não rio’ de hoje”, fala.

         Criando tempos e espaços amazônicos
Sons de passos pisando em folhas secas, passarinhos cantando, outros animaizinhos também registram sonoramente passagem pela cena. Ao mesmo tempo, as lavadeiras cantam amores e desilusões, enquanto lavam as roupas das gentes que vieram do Sul do país.  Com esses elementos sonoros e outros, o espetáculo “À Margem” propõe aos espectadores um mergulho em um tempo e clima amazônicos, como descreve Valdete. “O incômodo que às vezes as pessoas sentem quando assistem ao espetáculo, por ter uma brecha de tempo que não acontece ‘nada’ no palco e fica só a sonoplastia ou com pouca luz, é proposital, porque a gente quer criar esse espaço amazônico. Minha proposta, no início, era que ele fosse totalmente sensorial, que as pessoas sentissem um cheiro de mato, de lugar molhado, de beira de rio, ouvisse o que tem nessa mata que a gente nunca pára pra ouvir, e que sentisse esse tempo amazônico que não passa nunca, que é um tempo looongo. Era nisso que a gente estava pensando quando criamos essa sonoplastia”, relembra.
Grande parte dos efeitos sonoros do espetáculo é executada pela sonoplasta Débora. “A ideia de fazer a sonoplastia ao vivo, era a de levar o público a uma maior imersão à floresta e ao rio, onde se passam as cenas. Na época, a Tainá Sousa fazia a sonoplastia, utilizando apitos, chocalhos e instrumentos que o grupo já possuía. Quando entrei para fazer a sonoplastia fui acrescentando outros sons de pássaros com os apitos que o grupo já tinha, acrescentei o som do ‘caminhar na mata’ e durante a produção também fomos comprando outros instrumentos, como o pau de chuva e o sapo. Então essa sonoplastia está em construção contínua, conforme vamos encontrando elementos que se adéquam ao espetáculo, vou acrescentando. E a própria sonoplastia de cada apresentação, por ser ao vivo, é sempre única. Vou fazendo conforme sinto a cena”, informa a profissional que atualmente estuda o Curso de Tecnologia em Teatro, com ênfase em Sonoplastia em Cuiabá (MT).
Foto Dennis Weber.

Além dos sons da natureza, o espetáculo é marcado por cantos de trabalho. “A maioria são músicas populares e já estão em domínio público, outras eu criei. Nesse espetáculo a música não é ilustrativa, é necessária. Minha mãe, por exemplo, canta várias coisas que ela cantava quando estava lavando roupa ou fazendo algum trabalho manual. Isso é uma coisa que é normal, principalmente para o povo nordestino, que sempre está cantando enquanto trabalha, para entreter a mente, para o tempo passar mais rápido”, explica Valdete.
Enquanto isso, a iluminação do espetáculo, ora amarelada, ora vermelha, recria os dias ensolarados tão comuns em Rondônia.  “A escolha das cores é por conta dessa cor que temos no nosso estado, desse sol. Eu queria trazer essa ideia e um pouco do amarelo representa a cor da água do rio, que é da cor de folha amarelada, que nós temos aqui, que não chega a ser um rio escuro, nem límpido também, é amarelado, e a iluminação ela parte por aí, uma vez que a maioria das cenas vai acontecer embaixo desse sol, com as lavadeiras fazendo o trabalho delas”, esclarece Valdete, que destaca também que “À Margem” pode ser apresentada em espaço aberto. “Depois da estreia, em outras ocasiões apresentamos durante o dia, numa escola, embaixo de umas árvores. Foi lindo, com a iluminação do sol e com as árvores balançando”.

          Um cacaio (ou sarapilha) cheio de recordações
“Nossa, ficou lindo! Que maravilhoso! O senhor é um artista!!!”, elogia Valdete que observa o caminhãzinho feito de madeira pelo artesão Vilson. Estamos em uma manhã de sábado (11 de agosto de 2018), em que a artista verifica o andamento da confecção de alguns objetos de cena do espetáculo, que estreará no Palco Giratório, no dia 16 de setembro de 2018. O ancião apresenta alguns truques que adicionou para o brinquedo/objeto de cena ter melhor desempenho. “Que legal! Isso daqui vai ser um show. Tem é que tomar cuidado, porque a criançada vem tudo em cima”, diz a atriz aos risos. Além do caminhãozinho, que será utilizado na cena de abertura para retratar a vinda dos migrantes ao estado de Rondônia, seu Vilson também está responsável por confeccionar uma mala (onde será guardado o caminhão) e um baú que servirá para armazenar parte do cenário e de apoio para a manipulação dos bonecos. Entre uma conferência e outra, o artesão, sabendo do enredo da peça, confidencia memórias sobre a sua vinda para Rondônia, dentre elas, as características do cacaio, por ele chamado de sarapilha, utilizado por moradores durante suas jornadas entre uma cidade e outra, muitas vezes, percorridas a pé. É nesse espírito de resgate, onde todos os habitantes têm algo a dizer sobre a colonização do estado, que “À Margem” finca sua dramaturgia, provocando identificação até mesmo antes de estrear. 
Foto Dennis Weber.

Antes de ser madeira serrada e esculpida, o caminhão e outros objetos de cena foram ideias que pularam da cabeça de Tainá para os papéis. “As coisas do cenário, a maioria foi a Tainá quem desenhou, os caixotes, o caminhão, a mala. Os outros objetos de cena eu fui inserindo conforme as necessidades, as bacias, os baldes, as panelas, colheres, muito dessas coisas que estão na cena são da minha mãe. A  maioria são de objetos que já tem uma história, uma afetividade que já vem de outros lugares”, informa Valdete.
Tainá, que cursa Arquitetura e Urbanismo, conta que a sua formação contribuiu com alguns conhecimentos extras na hora de pensar os objetos de cena,“[...] mas minha maior experiência com artes manuais adquiri sozinha por ser uma área que me dedico desde a infância. A minha área de formação é importante quanto ao planejamento técnico dos adereços e cenários, assim posso passar para o papel de forma mais precisa e adequada e em seguida executar”.

            Lençóis, bonecos e uma trouxa de roupas com muita prosa  
Os lençóis no varal anunciam que a cena é um local de trabalho. A eles vão se juntar mais tarde, outras estampas, tamanhos, formas e texturas. A água do pequeno riacho instalado em cena, aliada à técnica, ao sabão e à força dos resistentes braços das lavadeiras, vai limpar suor e outros fluídos depositados nas roupas dos migrantes mais abastados. Vai limpar também as roupas das lavadeiras que, com esmero, mantém suas vestimentas sempre em bom estado de conservação. “Para o figurino eu fiz uma pesquisa sobre lavadeiras, vi algumas fotos de mulheres que lavavam roupa no nosso Estado. Também pesquisei sobre lavadeiras em outras partes do país. A partir disso comecei a esboçar o figurino. Fiz uma pesquisa sobre tecidos que eram utilizados na época, conversei com a minha mãe sobre as roupas que ela tinha quando chegou aqui. Demorei certo tempo nesta pesquisa, porque não é fácil achar tecidos mais antigos, os tecidos são todos novos, com elastano e outras coisas e eu queria um tecido que realmente fosse do período. Algumas pessoas falaram na estréia que o figurino tinha que estar amassado, sujo, mas na pesquisa que fiz, não vi nenhuma lavadeira suja, nem amassada, nem mal arrumada.  Elas usavam sim a roupinha para dentro da saia, a blusinha bem abotoada, a roupa limpa, porque afinal de contas elas são lavadeiras, então a roupa tem que estar limpa, porque se elas pegam a roupa dos outros para lavar e chegam lá todas sujas, quem é que vai querem contratar né”, comenta Valdete a respeito de uma das críticas que recebeu sobre o espetáculo.
Tecido é o que não falta em “À Margem”, além de estar presente nos figurinos, espalhado pelo cenário, ele também é a base para confecção de dois bonecos que personificam a infância de Valdete e de seus irmãos. “Com esses bonecos de pano eu queria trazer essa referência da minha infância e da minha irmã. Então eu coloco as duas crianças do espetáculo sendo esses bonecos de pano, para trazer essa lembrança da brincadeira”, explica a atriz que confessa gostar de manipulação de formas animadas: “Desde o início quando comecei a fazer teatro, já trabalhava com a manipulação de fantoches. É um assunto que me interesso muito”.

            História para todas e todos
As vozes que falam em “À Margem” são de gente silenciada pelo discurso hegemônico, varridas ou só lembradas de forma superficial no processo histórico-político do Brasil. “Se for dar voz para aquele que já tem nos livros de história, na TV, ou que já tem o poder, então não tem porque estarmos fazendo esse trabalho. Nós, enquanto atores, dramaturgos, diretores de teatro, precisamos trazer para a cena aquilo que as pessoas não conhecem bem no dia-a-dia. É trazer as nossas lendas que estão desaparecendo, sumindo embaixo de tanta tecnologia. É resgatar nossos personagens cotidianos  os quais passamos por eles todos os dias e fingimos não ver, é apresentar esses personagens que passaram em branco na história e que realmente construíram o Estado, quem com a força de trabalho, com o suor da testa, como diz no texto, construiu esse estado aqui do zero”, argumenta Valdete.
Nubia Labov. Foto Dennis Weber.
As vozes dos esquecidos pela historiografia oficial é o que alicerça “À Margem”, mas só isso não é o suficiente. É preciso contar uma história que o máximo de pessoas compreendam. Para isso, as atrizes do Wankabuki, durante a concepção do espetáculo, pensaram na questão da acessibilidade, propondo a tradução e interpretação em Língua Brasileira de Sinais (LIBRAS). “A interpretação em Libras é algo que descobrimos ao começar a montar o espetáculo “Já passa das oito”. Levamos uma leitura dramatizada da peça para uma escola e lá tinha vinte surdos, aí a Lu Rodrigues [integrante do Grupo de Teatro Wankabuki] conseguiu um tradutor de Libras da escola, e nos apresentamos. Foi tão lindo, a gente se emocionou tanto. Foi tão bom e gratificante, que fiquei com isso na cabeça. E quando fomos montar o projeto para o SESC, o edital pedia a questão da acessibilidade e eu coloquei. O trabalho com a intérprete em cena fazendo a tradução foi maravilhoso, ainda mais com a nossa intérprete, que é a Nubia Labov, uma das melhores interpretes do estado. Ela se dedicou muito ao texto e à tradução e interpretação do mesmo”, contou Valdete. 
Visitas guiadas ao cenário para pessoas cegas ou com baixa visão também integram as propostas de acessibilidade do espetáculo. “Em 2018, quando assisti ‘Seu Bonfim’, fiquei surpresa positivamente com a existência de interpretação em libras do espetáculo, feita por vídeo. Foi a primeira vez que vi esse tipo de acessibilidade no teatro. O edital do SESC exigia a inclusão, então essa foi uma das alternativas que escolhemos. E a questão das visitas guiadas foi uma dica que pegamos com o Território Sirius de Teatro, que também tinha essa opção para Seu Bonfim. Uma coisa que o Sidney [amigo que apresentou questões de acessibilidade e inclusão para Débora em um grupo do Facebook, em 2016] sempre diz, é que a acessibilidade deve vir antes da necessidade, então sempre que possível levo para os projetos que participo essa mentalidade. Vemos poucas pessoas ou nenhuma com deficiências físicas no teatro porque não é acessível a elas. E a acessibilidade é uma forma de fidelizarmos um público que é carente de acesso às artes”, relata Débora.

           As vozes que narram o percurso
     Do que é feito um espetáculo? Uns dirão que é feito de maquiagem (que vai transformar jovens em senhoras com mais de 40 anos), de luz (que vai reproduzir aquele sol quente do Norte na moleira de quem trabalha longe da sombra), de sons (que vai te levar para dentro da mata, para perto do rio), de vestimentas (limpas, estampadas, com cores fortes ou mais suaves), de objetos cênicos (construídos ou emprestados que levarão nossas imaginações para três, quatro ou cinco décadas atrás). Outros vão citar ainda os discursos recolhidos de fontes múltiplas e que são costurados e colocados ao sol da criatividade para germinar. E por fim vão destacar que um espetáculo é composto de gente, principalmente de gente (que vai se desdobrar para escrever, dirigir, atuar, divulgar, e muitas outras funções, não é mesmo Valdete, Tainá e Débora?). E gente mulher, que fique bem claro. “São mulheres em cena, falando sobre mulheres e o espetáculo foi escrito e dirigido por uma mulher, então é muito forte. É um espetáculo totalmente feminino. Em Vilhena, praticamente são só mulheres que fazem teatro. É muito difícil encontrar um homem para fazer um personagem. Os homens entram e saem do grupo, não se firmam, não ficam”, reflete Valdete. 
Esse protagonismo feminino veio de uma forma quase natural, segundo Tainá. “No fim das contas, apenas nós mulheres ficamos para assumir os espetáculos. É importante lembrar que além dos palcos somos responsáveis pela parte técnica, montagem dos cenários, por vezes a iluminação e transporte de tudo, isso reforça a independência e força do grupo, principalmente para outras mulheres”, destaca.
Foto Dennis Weber.

Débora explica que busca incentivar e divulgar a produção cultural e artística de mulheres. “Pois se não formos nós a levantarmos uma às outras, quem será? Então me sinto muito grata de trabalhar com mulheres tão maravilhosas e ativas no fazer artístico. Eu acho muito simbólico e potente sermos só mulheres em cena, pois a própria raiz da dramaturgia são as histórias reais de nossas mães, avós e vizinhas que vieram para Rondônia atrás de um futuro melhor. E chegando aqui, tiveram que enfrentar situações desagradáveis em uma sociedade muito mais machista do que hoje. E apesar do distanciamento temporal, mesmo um curto período de tempo, Rondônia é um estado muito novo e o espetáculo gera fácil identificação e reconhecimento no público que assiste. Por isso acho importante que esta encenação esteja acontecendo hoje, pois retrata um período não muito distante, mas que ainda representa a cultura local. É fato que vivemos em uma sociedade patriarcal, machista e capitalista e por estarmos inseridos nessa sociedade, muitas vezes não enxergamos as problemáticas que essa estrutura gera, pois parece tudo normal e natural. Mas apresentando ao público esse recorte no formato de teatro, acredito que conseguimos dar algumas cutucadas e fazer algumas pessoas pensarem e se questionarem sobre o assunto”, complementa a artista.

             1, 2 , 5... 10... 15 anos de aventuras...
O figurino de lavadeira já está no corpo da atriz, enquanto ela, com maquiagem, vai se transformando em uma mulher mais velha. O clima no camarim é de descontração, muitas risadas. Tainá faz aquecimento vocal enquanto define os contornos de sua personagem. Débora, a sonoplasta e social media do Wankabuki, confere as redes sociais do grupo.  A tradutora e interprete de LIBRAS, Nubia Labov, dá mais uma olhada no texto. O celular grava Valdete, e o interlocutor pergunta: “Val, como você se sente fazendo esse espetáculo agora...” ao que a atriz já dispara: “Com as pernas tremendo, né, porque a gente vai estrear no Palco Giratório!”. É dia 16 de setembro de 2018. Estamos a poucos minutos da noite de estreia de “À Margem”, no principal evento de artes cênicas de Rondônia, promovido pelo SESC: o Palco Giratório.  Mas o trabalho no Teatro Sesc Esplanada I começou bem antes, com a montagem da piscina no meio do palco, que representa o rio não-rio, com a afinação da luz realizada por Edmar Leite e um último ensaio para garantir que tudo funcionará conforme o planejado.
Foto Rafael Reis.

Aos poucos, o público vai ocupando as cadeiras de local, até que ... começa o espetáculo. Tainá entra em cena com uma mala grande de onde tira o caminhãozinho de madeira confeccionado pelo senhor Vilson. Adiciona na carroceria alguns bonecos de pano, que representam aqueles que migraram para a região Norte nas décadas anteriores. Em seguida empurra o brinquedo pelo palco simulando o trajeto cheio de obstáculos (o corpo da atriz se transforma em morro) até a chegada na terra de oportunidades. Seguem-se cenas com cantos de trabalho, conversa entre as lavadeiras, manipulação de bonecos que remetem à infância de Valdete e seus irmãos, entrada e saída de um cacaieiro/garimpeiro e o final marcado pelo desparecimento das lavadeiras que, agora atrizes, se banham nas águas de um rio barrento ao som do Hino de Rondônia: “Aqui, toda vida se engalana, de beleza tropical, nossos lagos, nossos rios, nossas matas, tudo enfim”. A luz vai sumindo... e fim. 
            As atrizes se secam (depois de ficarem quase uma hora dentro da piscina com água), enquanto conversam com parte do público que ficou após o espetáculo para o bate papo. “Por ser a estreia oficial, após alguns ensaios abertos apenas, fiquei um pouco nervosa, mas me senti preparada e confortável”, confidenciou Tainá meses após a primeira apresentação. De lá para cá foram mais 12 apresentações de “À Margem”, a última delas, mais uma vez, em Porto Velho, durante o Madeira Festival de Teatro, realizado entre os dias 05 e 09 de junho de 2019.  O espetáculo percorreu, em outubro de 2018, escolas estaduais e outras organizações, tocando em temas como protagonismo feminino e preservação ambiental, assuntos recorrentes na trajetória de mais de quinze anos no grupo. “Montamos de tudo, mas temos uma pegada ecológica. Em um dos textos montados falamos do desaparecimento dos índios e natureza [Espetáculo “A lenda da ecologia”, apresentado em 2005, logo no início do Wankabuki]. Em outro, o Perdidos na Floresta, de 2010, conversamos com crianças sobre a preservação do meio ambiente. Mas também trabalhamos com espetáculos que vão tratar sobre o feminino e espetáculos políticos, onde discutimos sutilmente sobre o que está acontecendo no país, na nossa cidade. Temos performances de 2014, durante a Copa do Mundo, que vão discutir várias questões políticas que o país estava passando e enquanto estava todo mundo assistindo futebol e comemorando. Nós temos uma pegada crítica em relação a vários assuntos. Se não for para criticar e falar das coisas erradas, para que trabalhar com arte, né?”, alfineta Valdete.
De 2003 até os dias atuais foram muitos os trabalhos desenvolvidos pelo Grupo de Teatro Wankabuki, que surgiu dentro da Universidade Federal de Rondônia, Campus de Vilhena. A ideia de se reunir para montar um espetáculo foi de Valdete Sousa, que havia acabado de chegar de Ji-Paraná, onde morava e participava do Grupo Arterial. A jovem migrou para o Cone Sul com o objetivo de estudar Licenciatura em Letras na Unir. “Eu precisava continuar a fazer teatro, porque pra mim teatro é uma necessidade. Comecei a ir em tudo o que diziam que era grupo de teatro, fui em teatro de escola, fui em outro que era de igreja. Queria entrar em algum grupo, não queria montar um, só que não me identifiquei com nenhum deles. Achei os trabalhos um pior que o outro.  Pensei: ‘vou na Unir mesmo, ver o que acontece’. E lá encontrei duas pessoas que se interessavam, a Núbia Rodrigues e a Diomar Soares. Começamos a conversar e elas falaram: ‘Ah que legal, também queria fazer teatro, mas nunca soube como é’.  Mostrei o texto ‘Morte e Vida Severina’ para elas,  tinha trazido todas as coisas do espetáculo que já havia sido montado pelo Arterial . O Firminetto Mendes [artista de Ji-Paraná que comandava o Grupo Arterial] me deu figurino, painel, o que tinha do espetáculo ele me deu.  Aí falei para as meninas: ‘Olha, a gente podia montar” e elas já se apaixonaram, porque João Cabral não tem como não se apaixonar, e daí começamos a trabalhar esse texto. Éramos só em três, fomos agregando gente, convidando”, relembra a presidente do grupo.
            O trio recebeu apoio de um dos professores do Departamento de Letras, Oswaldo Gomes, que estava em processo de montagem de um grupo na UNIR. Em 2004, o grupo estreou “Morte e Vida Severina”, durante o IX Seminário de Estudos Linguísticos e Literários (SELL), evento organizado pela instituição educacional. “As montagens eram bem simples, até porque eu não tinha o conhecimento que tenho hoje, que não é tanto, mas que é mais do que era naquela época [ri]. Uma coisa que eu sinto falta que fazíamos no início e que não fazemos mais é trabalhar muito com literatura. Hoje não trabalhamos mais tanto assim. Entramos em outra fase, que é a da pesquisa”, segreda Valdete.
            A esta altura da reportagem, você deve estar se perguntando qual o significado ou origem do nome estranho do grupo, né? A resposta foi dada em um livro-reportagem escrito pela atriz Núbia Rodrigues, para conclusão do Curso de Comunicação Social/Jornalismo na Unir de Vilhena. “Numa tarde enquanto subíamos a pé a rua que nos levava até a Unir, [...] Valdete, Diomar, Poliana e eu conversávamos sobre um tipo específico de teatro japonês, surgido por volta do século XVII,  [...] o Kabuki era o assunto do momento, em meio dele a constante busca por um nome para o grupo. Uma de nós que estava um pouco mais distante e distraída disse ‘ãh... kabuki?’ outra ouviu e repetiu ‘uãn kabuki’ e todas gostaram do novo som que ouviram. ‘Esse dá um nome bacana’, ‘diferente’, ‘original’, e logo estava definido e surgia, então, o Grupo de Teatro Wankabuki”, relata no livro ainda não publicado, a também licenciada em Letras e umas das fundadoras do grupo.
De Mostras de Performances (2012 a 2014), aos Festivais de Monólogos e Breves Cenas (2015, 2016 e 2018), passando por produção de videoclipe (Negrolô, 2006), leituras dramatizadas (promovidas principalmente pelo Sesc entre os anos de 2012 e 2014), saraus (Poesia da Boca para fora – 2011 e 2012), temporadas de espetáculos (Morte e Vida Severina, A lenda da Ecologia, Vai Carlos, ser gauche na vida, Tragédia no Lar, Perdidos na Floresta, José & Cia, Jujubinha e Paçoquinha em Gostosuras e Travessuras, O Amor de Colombina, Já passa das oito, À Margem) apresentações em praças vilhenenses (Projeto Invadindo a Praça, 2011) e oficinas de iniciação teatral (a partir de 2010), o Wanka, como é conhecido por seus participantes, ex-integrantes e pessoas mais próximas, experimentou várias possibilidades cênicas, passando do palco do anfiteatro da Unir para as ruas, praças, jardins, bares, casa de chá, hospitais, escolas, e outros espaços, figurando nos jornais e sites do Estado do Rondônia. “Um momento que foi muito marcante e que me emocionou bastante foi o primeiro festival que realizamos em 2015. O projeto do festival estava na gaveta já tinha uns dois anos ou mais. Era uma coisa que eu sonhava em fazer, mas não tinha ideia de que ia dar certo. Em 2015 ganhamos o edital do Banco da Amazônia e fizemos o Festival. Foi muito importante, porque mostrou que tínhamos conseguido chegar a algum lugar, trazendo para Vilhena uma série de artistas do nosso estado, para apresentações e outras atividades. O grupo para mim é um filho. Investi uma parcela grande da minha vida nisso, e é por isso que eu cuido, que eu tenho tanto cuidado, porque não é só um grupinho de amigos de fim de semana. Eu vivo isso 24 horas por dia. Minha ligação é muito forte”, revela Valdete ressaltando que o teatro, para ela “[...] é vida, é como se ele fosse um personagem vivo e ele está o tempo todo na minha vida, é uma parte dela. Não tem como ignorar! Se tirar o teatro da minha vida, eu não sei o que sobra”.

            ...  que continuamos a escrever! 
Núbia, que atualmente mora em Comodoro (MT), resgatou em seu livro-reportagem de quase cem páginas, grande parte da história do Wankabuki, desde as primeiras conversas para a montagem de “Morte e Vida Severina”, em 2003, até o momento em que o grupo se torna Ponto de Cultura, em 2017. “À Margem” ainda era uma breve cena (Contos do não-rio), apresentada durante a segunda edição do Festival de Monólogos e Breves Cenas, em 2016, mas já figura na obra. “Resgatando a imagem de um rio que durante muito tempo serviu para que as mães de família lavassem roupa, ou mesmo levassem água para casa, para beber. O espetáculo busca retratar também nuances da natureza desta região amazônica e suas peculiaridades culturais, desenvolvidas através da mistura de povos e cultura”, informa no livro.
Foto Rafael Reis.

De 2017 até agora [junho de 2019], outros momentos importantes da história do grupo continuaram a ser contados em seu blog e outras redes sociais. Um dos mais significativos foi a conquista do Prêmio Sesc de Incentivo às Artes Cênicas em 2018, que propiciou a montagem do espetáculo “À Margem”, obra mais recente do Wankabuki. Em pouco mais de um ano, muitos foram os quilômetros percorridos por Valdete, Tainá e Débora, entre Vilhena e Porto Velho, depois entre Vilhena e Cuiabá e de lá para a capital rondoniense [Débora mora atualmente na capital matogrossense, onde estuda o curso de tecnologia em teatro, com ênfase em sonoplastia], nos mesmos caminhos pelos quais passaram milhares de migrantes. Tudo isso com o objetivo de levar a públicos variados as histórias de lavadeiras, de um não-rio, de gentes à margem. Enquanto isso, relatos sobre apresentações, oficinas, enfim, das ações do Wanka, são postados quase que diariamente no Facebook, Instagram, apresentados em podcasts, entrevistas para emissoras de televisão, livros-reportagens e trabalhos acadêmicos, como este que agora você está terminando de ler. “Fico feliz porque dentro do grupo nós temos outros pesquisadores [Valdete pesquisou sobre a história do teatro em Rondônia para conclusão da Licenciatura em Letras/Português] como, por exemplo, a Núbia, que também fez a monografia dela em cima da história do grupo. Acho que a gente tem mesmo que falar sobre a nossa história, pesquisar mais sobre ela. Nós sempre tivemos essa ligação muito forte com a universidade, nós surgimos lá, então sermos convidados para congressos, ter citação sobre o grupo em um trabalho de pós-graduação de uma acadêmica da Universidade Federal do Amazonas falando sobre o nosso Festival [Amazônico de Monólogos e Breves Cenas], me deixa feliz, porque nós estamos servindo de material de pesquisa para outras universidades, outros pesquisadores e estudantes. Isso quer dizer que de alguma forma estamos começando a crescer”, pontua Valdete, enquanto planeja as próximas ações do Wankabuki.

REFERÊNCIAS
OLIVEIRA, Núbia Rodrigues de. Wankabuki: o palco é a vida! Trajetória de um Grupo de Teatro. 2017. 96 f. Trabalho de Conclusão de Curso (Graduação) – Fundação Universidade Federal de Rondônia, Vilhena,  2017.  




[1] Graduado em Comunicação Social pela UNIR; acadêmico do Curso Licenciatura em Teatro da UNIR.