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quarta-feira, 26 de fevereiro de 2025

A ARTE CÊNICA EM RONDÔNIA

       
Valdete Sousa[1]

O teatro tem uma história específica, capítulo essencial da história da produção cultural da humanidade. Nesta trajetória o que mais tem sido modificado é o próprio significado da atividade teatral: sua função social.
(Fernando Peixoto)

Resumo:     A pesquisa realizada trata das questões relacionadas ao desenvolvimento do teatro no Estado de Rondônia, desde suas primeiras manifestações até a atualidade. Os resultados partem de um estudo de desenvolvimento, feito através de instrumentos de coletas de dados, por meio de  formulários e entrevistas. A trajetória do teatro local inicia-se, ainda no período da construção de Porto Velho, com a instalação da sede da Estrada de Ferro Madeira Mamoré, às margens do rio Madeira.


Palavras Chaves: Teatro, Cultura, Arte, Rondônia.


1. INTRODUÇÃO
                   O objeto de pesquisa discutido no presente artigo é o desenvolvimento das artes cênicas no estado de Rondônia, tema abordado na Monografia de conclusão de curso de Graduação de Letras sob o título O Desenvolvimento do Teatro em Rondônia. Portanto, esta pesquisa delineia a  trajetória que a história do teatro em Rondônia trilhou, desde suas primeiras manifestações até a atualidade, sob o ponto de vista histórico, artístico e social.
                   O tema escolhido justifica-se, pois, não existe no estado, até o presente momento, pesquisas nesta área e não há registros que digam como, quando, ou mesmo se ocorrem essas manifestações. O objetivo geral desta pesquisa fixa-se na arte cênica em Rondônia tomando por base os acontecimentos nos municípios de Porto Velho, Ji-Paraná, Cacoal e Vilhena, observando qual a contribuição que o teatro proporciona a essas comunidades. Bem como, a trajetória que percorreu ao longo da história. Os objetivos específicos referem-se à pesquisa e a catalogação dos principais grupos, atores e técnicos em artes cênicas que estão em exercício no momento ou que tiveram relevância na história do teatro local. Como também, fez-se um levantamento de registros que comprovam a origem da arte no Estado.
                   Tendo em vista cumprir o propósito mencionado, foi feito um estudo de desenvolvimento, utilizando de instrumentos para coletas de informações como entrevistas e formulários. Além de pesquisas nos bancos de dados existentes no Estado, como o Centro de Documentação de Rondônia, Bibliotecas municipais e orgão ligados ao teatro: SATED – Sindicato dos Artistas e Técnicos em Espetáculos e Diversões e FETER- Federação de Teatro de Rondônia. Mas, grande parte da pesquisa foi conseguida através da história oral documentada nas entrevistas e de documentos de arquivos pessoais.

2. DESENVOLVIMENTO

2.1 O Porto de partida     
                   As manifestações culturais no município de Porto Velho, no início do séc. XX, conforme Arimar Souza de Sá (2000, p. 60) afirma, possuía alguns locais demarcados: “O Danúbio Azul, o Bancrévea, o Clube da Elite, onde aportava sem pudor a fina flor da rapiocagem. A casa Saudade e O mundo Elegante, os pontos chiques da moda”.O autor aponta, ainda, os encontros culturais do antigo Porto Velho Hotel, atual Unir Centro, local onde os principais artistas do município encontravam-se. Um dos nomes mais marcantes deste período é o de Dona Labibe Barthólo, nascida em 13 de maio 1909, atriz atuante e muito influente que chega a Porto Velho em 1912. Trabalhou como atriz e cantora, primeiro nos grupos do Madeira-Mamoré, na déc. de 30, que faziam apresentações nas casas de militares, a arte caminhava de casa em casa. Posteriormente, no Cine Phoenix ou em bailes que aconteciam no Antigo Clube Internacional.
                   Sabe-se que entre as décadas de 40 e 60, grandes Companhias de Teatro como a de Tônia Carrero passaram pela Capital. Um grande momento para arte deste período ocorre em 1950 com a inauguração do Cine Teatro Resky.
Porto Velho se rendeu fascinada a majestosa beleza do Cine Teatro (...) A partir daquele momento ele passou a ser o orgulho da população do então Território Federal do Guaporé.(...) Era o grande destaque onde o luxo e o requinte naquela nova sala de espetáculos empolgava. (ELETRONORTE, 2005, p. 76)

                   Neste período, Rondônia possui uma produção ainda insipiente e voltado para a encenação de maneira improvisada. Alguns espetáculos eram projetados para entreter o público nos intervalos de trocas das fitas dos filmes no cinema no início do séc. XX. De certa maneira, esta produção contribuiu para o desenvolvimento do jovem estado de Rondônia, a arte sempre presente em festas, cinemas, serenatas e saraus.
Vê-se que a história do teatro se confunde com a do cinema em Porto Velho, conforme se sabe:
As primeiras salas de espetáculos de Porto velho eram de cinemas e algumas ofereciam condições para representações teatrais, como o Cinema Caripuna, Cine Teatro Phoenix, Cine Rosas, Cinema Ideal, Cine Avenida, Cinema dos Padres, Cine Rocha, Cine Catega, Cine Brasil, Cine Teatro Resky, Cine Lacerda e outras salas que não foram registradas por nossos historiadores. (ELETRONORTE, 2005, p. 33)

Na capital, por volta de 1960, desenvolve-se o teatro radiofônico, feito através da Rádio Caiari que possuía um espaço destinado a produção teatral. Conforme afirma Arimar Souza de Sá, havia “na hora do almoço o Ronaldo Medeiros e seu teatrinho infantil, pela Rádio Caiari, a incitar o ânimo cultural da garotada” e segundo Alejandro Bedotti ”havia algumas cadeiras destinada ao público e se fazia teatro na rádio.”(Bedotti:2008)

2.2 Anos 80: O Auge do Movimento Teatral
Existe um consenso entre os artistas locais de que a década de 80 foi extremamente produtiva. Esse fato é atribuído à diversas razões: I - em 24 de maio de 1978, há a regulamentação da profissão de artista e técnico em espetáculos e diversões, através da lei nº 6.533, e pode ter surtido um efeito energizante para os artistas que passam a organizar-se em grupos; II - o intenso fluxo de pessoas que migravam de outros estado; e III - a criação da FETER - Federação de Teatro de Rondônia, em 1982, ajudou a organizar o movimento. Assim, no final da década de 70 e em toda a década de 80, pode-se encontrar grupos teatrais nas cidades situadas ao longo da BR 364.
Em 1976, há registros que comprovam a atividade teatral em Porto Velho. O grupo Terra ao qual pertencia o artista plástico Geraldo Cruz e o prof. Oswaldo Gomes Oliveira atuava, conforme afirma Geraldo, com um forte cunho político, em decorrência dos resquícios do ainda recente golpe de 1964. O grupo produziu um texto poético, também intitulado Terra, levando aos palcos a temática do meio ambiente. Alguns artistas mudavam-se para a região Norte fugindo da perseguição do eixo Rio-São Paulo, dessa maneira Rondônia ganhou alguns atores, diretores e autores nesse período.  Assim, contribui para uma nova formação no teatro local, a chegada de dois artistas do Rio de janeiro contratados pelo SESC para ministrar aulas de teatro, em Porto Velho, Alejandro Bedotti e Angela Cavalcante.
Esses profissionais, montam um grupo no Sesc, e trazem do Rio de Janeiro o espetáculo de bonecos Panelândia. Em seguida, fundam o grupo Cipó e montam um texto com temática regional Rio que é rio é... gente de Bedotti, que apresenta algumas lendas do folclore amazônico. Em entrevista Angela (2008) conta que:
Quando chegamos aqui, viemos pelo Sesc, a gente encontrou boatos, mas na verdade, não vimos nada. Sabia-se que já tinha o grupo Terra, O filho do homem(...) Então, criamos um grupo de teatro no sesc, anos depois, começamos a apresentar a Panelandia, que era um espetáculo do Rio de Janeiro que estava em cartaz nos parques e jardins lá, tinha bonecos tipo formas animadas. Juntamos as pessoas: era o Jango, Amauri, o Jota e nós, depois foi chegando mais gente. Então nós criamos o grupo Cipó para montar um espetáculo para a secretaria de educação. Era sobre temas amazônicos e se chamava Rio que é rio é...gente. Aí começou o trabalho com o grupo Cipó. (...) tivemos que ir embora do Território. No dia que estava virando Estado nós voltamos, então viemos pra cá (...) e nós fomos ficando, então nós montamos o Quebracabeça.

O grupo se desfaz e o casal funda, em 06 de setembro de 1982, o grupo de teatro amador Quebracabeça, que segunda consta, foi o primeiro grupo com personalidade jurídica do Estado. Durante o período em que ficou ativo montou diversos trabalhos, tais como Sapo Tarô-Bequê, Tempo bom com poesia pasquim, Banda Picolé, Rádio nossa de cada ouvinte, que eram apresentados em praças e auditórios.
O grupo Êxodo surge a partir de um grupo de jovens que reunia-se na igreja Nossa Senhora das Graças, em Porto Velho, e passa a funcionar como entidade jurídica em 25 de julho de 1984, com o nome de Clube Teatro Êxodo. Tem como sócios-fundadores José Monteiro, o jornalista Zogbi e Omedino Pandoja. O primeiro texto produzido foi O filho do homem, atualmente, O homem de Nazaré. O grupo possui cerca de 20 atores permanentes e durante a temporada de apresentações admite pessoas da comunidade que compõem o elenco. Ao final, são cerca de 300 pessoas em cena.
Na Porto Velho da década de 80, todos os dias surgia um novo grupo, pois o movimento teatral mostrava-se vivo e promissor. Cite-se os grupos que mais obtiveram destaque no período: O Grupo Porantin, ao qual pertencia o ator Jango Rodrigues que trabalhou com teatro de bonecos junto com Cláudio Vrena. Jango mantinha, com recursos próprios, um local denominado Espaço Curumim, destinado a receber artistas de outras localidade e a ser ponto de encontros culturais. O grupo É do mela volta ou do Mela continua? também esteve presente em muitos momentos, no teatro rondoniense, com a atriz Lenny Carneirinha de Lisboa.
O Água de Chocalho do ator Xuluca Dantas, foi um espaço pelo qual passaram muitos outros atores que atuam no teatro local, como é o caso de Greg Silva e Lú Rodrigues que participaram, em 1986, do Água. Trabalhavam com animação de festas e alguns projetos como Hoje tem espetáculo que trazia a peça  Pimpão, Alegria e confusão (Waldemar Silas, 1989) apresentados em escolas, no Teatro Municipal de Porto Velho e no Sesc.
Em Ji-Paraná, conforme afirma Firminetto Mendes, em 04 de abril de 1981, surge o Arterial seu registro data de 26 de setembro de 1984, fundado por Firmineto Mendes e sua irmã Floraci Mendes Silva. Uma das primeira peças criadas pelo grupo explora o improviso: os personagens Ourino Fedegoso e Caboeta saíam pelos bares da cidade encenando através de um roteiro, sem texto escrito. Em 1984, montam o espetáculo O sentir de nossa gente de Francisco Carlos Silva que foi apresentado em diversos municípios do estado, no Acre, Bahia, Espírito Santo e Mato Grosso.
O grupo, em cerca de 20 anos de história, montou muitos espetáculos de autores locais tais como: Firmineto Mendes(Ji-Paraná) com O manchão e o travesti, Eu não estou louco e Saga da Amazônia; Sheila Ferreira(Ji-Paraná) com Por Favor nos aposentem e Vilão? Aqui não!; Luiz Antônio de Araújo (Porto Velho) com Lulu e Mon’ Amor, Joaquim Inocente e O Menino Jardineiro e a Rosa do ano inteiro; e ainda Quando eu Crescer de Francisco Carlos Silva(Ji-Paraná), Perdidos na Floresta de Antero de Sales(falecido), Eu, Você e eles de Suely Rodrigues (Porto Velho) e Casamento em Crise de Rogério Casovik Viana (Ji-Paraná). Através de todas essas montagens o Arterial recebeu dois prêmios pela Funarte e um pela Petrobrás.
Em 1986, foi criado por Gregório Silva e Lucimar Rodrigues, em Ji-Paraná, o Grupo de Teatro Amador Fama que atuou por pouco tempo, montando os espetáculos: Canteiros(1986) texto de Romildo Monteiro(DF), Proibido ver I, Proibido ver II(1989) (adaptação de textos) e Yapuna-Caá, estrela das águas(1989) (texto adaptado). Seus fundadores mudam-se para Porto Velho, em função da força do movimento teatral na Capital, e começam a participar do Grupo Água de Chocalho. Cite -se ainda o Grupo Shallon que atuou no município em 1987 montando textos de cunho religioso.
                  Em Vilhena, encontra-se em 1986, o Group Novamente, do ator Bráz Divino,  escritor da primeira peça montada, Pé de Guerra, que dirigiu e atuou com Sandra Pedron. O grupo participou de congressos e festivais no Estado até 1993, ano que inicia um longo período de inatividade. Somente em 2004, Bráz produz o monólogo de Alexandro Bedotti A rede. O ator organiza periodicamente, durante o ano de 2006, o Retreta, em bares noturnos, uma espécie de Sarau em que qualquer pessoa pode participar com alguma atividade artística.
                   Na déc. de 80,  muitos grupos surgiram e outros tantos desapareceram em poucos anos: em Cacoal, registra-se o Sol criado por Claudio Vrena e o Essência das coisas(1986), de onde surge Chicão Santos; no cone sul, havia o Senzala, em Colorado do Oeste;  em Porto Velho, observa-se alguns grupos de teatro de bonecos como é o caso do grupo Porantim, Encenação, Teara, É do mela volta ou do mela continua? e o Cuniã. Além desses, havia atividade teatral em escolas e igrejas em diversas cidades, inicia-se nesses ambientes grande parte dos grupos do Estados.

2.3 Anos 90: O Teatro Estudantil
                   A década de 90 inicia-se com mudanças no cenário teatral, a maioria dos grupos criados anteriormente se dissolve, continuam existindo: o Arterial, o Êxodo, o Group Novamente. Paralelamente, surgem alguns grupos novos como o Raízes do Porto em 1992, fundado por Suely Rodrigues, que adquire grande espaço no estado e na região, pois participa de festivais no Acre e em Manaus. O primeiro texto montado pelo grupo é de Suely, Eu, vocês e eles. Desde sua criação, esteve ativo mantendo sempre um espetáculo diferente em cartaz, são cerca de 17 texto produzidos de 1992 a 2007. Grande parte são obras de artistas locais, porém também produziram clássicos infantis. Cite-se: Suely Rodrigues com Eu, Vocês e Eles, Minhoca na Cabeça, Histórias do Sítio, Mateus e Zulmira e Porções e Magias (adaptação das poesias de Nilza Menezes); Tira a canga do boi de Marcos Freitas; Confissões de um espermatozóide careca de Carlos Eduardo Novaes; A formiga Fofoqueira de Carlos Nobre; Flicts, a cor de Aderbal Júnior e Os saltimbancos de Chico Buarque de Holanda.
Porém, a década de 90 é marcada por outro tipo de manifestação teatral: o teatro estudantil. Registra-se, ao longo da década, diversos grupos e festivais que partem da iniciativa de alunos e professores de escolas particulares e municipais em todo o estado. Em Porto Velho, há a criação do Grupo de Teatro Oficina da Unir, dirigido por Angela Cavalcante, que neste período era integrante da DIAC/UNIR e ministrou três cursos para os alunos. O Oficina produziu, Revolução da América do Sul(1990) de August Boal, Os sonhos de Tom e Théo(1991) de Arnaldo Miranda e Hep e Heg - Os moleques(1992) de Arnaldo Miranda.
                   Fato importante também foi o surgimento do GRUTTA - Grupo Regional Unidos Trabalhando pelo Teatro Amador, em 1991, por iniciativa da Prof. Léia Leandro da Escola Risoleta Neves. Em 1994, o GRUTTA possuía, cerca de 48 integrantes, e mantinha apresentações no espaço do Teatro I do Sesc, além de uma oficina permanente semanal que desenvolvia atividades de reciclagem teatral. O espaço conquistado por esse grupo é relevante e a partir dessa iniciativa outras escolas também envolveram o teatro em suas atividades. Como ocorre na Escola Kepler, onde se desenvolve o Grupo Art Kepler, que destacava-se entre os grupos de escolas particulares. Ocorria, em Porto Velho, em 1993, diversos festivais de teatro estudantil, congressos e encontros de teatro amador. Além disso, o grupo organizou um Festival de Teatro  entre as escolas particulares de Porto Velho. Assim como o movimento teatral estudantil estava forte em Porto Velho, no restante do estado não era diferente.

2.4 Anos 2000: Uma nova fase
Ao longo de sua história, o teatro produzido em Rondônia acumulou experiências e desenvolveu-se em diversos sentidos. Os profissionais que atuam após a década de 90, buscam uma atividade teatral mais concisa, e muitos tem o  teatro como profissão ou ligam de alguma maneira sua atividade profissional ao teatro. A atuação de artistas como Alejandro Bedotti, Angela Cavalcante e Firminetto Mendes, durante mais de duas décadas, trouxeram para o teatro local grande desenvolvimento quanto à formação de atores, diretores e outros profissionais da área. O resultado dos cursos e oficinas ministrados por esses profissionais irão aparecer nesse momento. Os grupos que surgem, demonstram maior preocupação estética, mais responsabilidade com o público.
Assim, temos artistas antigos como Chicão Santos, formando grupos novos como a Associação Cultural O Imaginário, surgido em 2005, um grupo preocupado com a formação de seus atores e da platéia, que viaja o estado promovendo oficinas e divulgando seus espetáculos, além de participar de festivais em outros estados. Junto com o Raízes do Porto são atualmente os dois grupos mais conhecidos e ativos de Porto Velho.
Encontra-se também, em Cacoal, atividade teatral com o grupo Risoterapia, formado em 2003, pelo ator Edimar Oliveira que trabalha com texto de comédia, todos escrito pelos próprios atores. Desde sua criação, manteve-se ativo, montando espetáculos periodicamente,  são mais de 13 peças, dentre elas, cite-se: Penosa do sul vai às urnas, Quem matou Tenório?, O pecado da Carne, Homem por um fio, O Madrasto, O escritor, Programa de Quinta, Pequenos cérebros, grandes bobagens e Dolores da Madrugada. Assim como o grupo Nada d+ da atriz Tainah Musa Lobato que é formada em Artes cênicas e além do trabalho com o grupo de teatro produz oficinas paralelas.
                   O Cone sul do Estado, ainda possui uma produção insipiente. Apesar de existirem grupos atuantes, em Vilhena, a produção é pequena e em sua maioria de cunho religioso. Um exemplo é o grupo The Crasy formado em meados de 2000 por jovens da Igreja católica. Assim como o Manah, grupo desenvolvido por pessoas da Igreja Comunidade Cristã que além da atividade teatral engloba a música gospel. Também de cunho religioso é o grupo Tempus, criado por atores oriundo do Manah. O Canaã, de criação de Josemar Fernandes, surgiu de atividades estudantis, dentro da Escola Zilda da Frota Uchôa.
Além desses, em Vilhena atua, desde 2004, o grupo de teatro Wankabuki surgido da iniciativa do professor Oswaldo Gomes Oliveira e das  acadêmicas da Universidade Federal de Rondônia Valdete Sousa, Diomar Soares e Núbia Rodrigues, em 16 de agosto de 2003. O grupo montou Morte e Vida Severina uma adaptação do texto de João Cabral de Melo Neto por Luiz Antônio de Araújo, A Lenda da Ecologia, texto do Prof. Oswaldo Gomes, e o texto Tragédia no Lar adaptação das poesias de Castro Alves por Valdete Sousa.

3. CONCLUSÃO
                  Conclui-se então que o início das artes cênicas no Estado ocorre sem planejamento ou teoria a seguir. Mesmo assim, houve um aprimoramento e surgiram técnicas, textos e grupos ao longo da história. Do teatro dos grupos do Madeira-Mamoré e de Dona Labibe, poucos dados restaram.         As apresentações para o público dos cinemas portovelhenses da década de 50, ocorridas nos intervalos das trocas de fitas, serve como marca de um período e do comportamento de um povo. Assim como, é prova da evolução do teatro local que, nesse momento, migra das casas e clubes para o palco dentro dos cinemas. O público, também é outro. Quem vai ao cinema tem o intuito da diversão, o teatro passa a ser mostrado para um público seleto e elitizado.
                  O período promissor do teatro de Rondônia firma-se nas formações de grupos, prevalece a “idéia coletiva”. Assim, as décadas de 70, 80 e 90 serão repletas de formações e desaparecimentos de grupos. Esse movimento, serviu para que os profissionais se aprimorassem, são geradas oficinas, cursos, discussões, festivais, seminários e todo tipo de atividades que sem a coletividade ficaria mais difícil ocorrer. Nos últimos anos,  observa-se uma mudança de comportamentos. Ainda há, certamente, muitos grupos desenvolvendo-se, principalmente no interior do estado, mas vigora os princípios de individualidade. Os profissionais das artes cênicas estão aprendendo a trabalhar como nos grandes centros culturais: um produtor que contrata diretor, atores, iluminador, e todos os profissionais necessários.
                  Fato é que as produções rondonienses existem e possuem valor reconhecido, tanto dentro do estado quanto fora dele. É o que se vê nas participações feitas por grupos locais em festivais no Acre, Manaus, Recife, entre outras localidades. Dessa maneira, resta concluir-se que esta pesquisa comprova a existência das artes cênicas de Rondônia a qual segue uma linha evolutiva paralela aos acontecimentos no Brasil, com suas particularidades e necessidades.

4. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
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ASSIS, Machado. Críticas teatrais. São Paulo: LEL. Proveniente de www.dominiopublico.gov.br [s.d.]. p.200-229.
BERRETTINI, Célia. O teatro ontem e hoje. São Paulo: Perspectiva, 1980.
BORIE, ROUGEMONT & SCHERER. Estética teatral: textos de Platão a Brecht. 2ed. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, 2004.
BRECHT, Bertold. Diário de trabalho. Vol. I. Rio de Janeiro: Rocco, 2002.
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BORZAKOV, Yêdda Pinheiro. Rondônia Cabocla. Porto Velho: Instituto histórico e geográfico de Rondônia. Academia de Letras de Rondônia, 2002.
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CADEMARTORI, Lígia. Períodos Literários. 7ed. São Paulo: Ática, 1995, p. 36.
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DESLANDES, Suely F., GOMES, Romeu. Maria Cecília de S. Minayo(org). Pesquisa social: teoria, método e criatividade. 25ed rev. atual. Petrópolis(RJ): Vozes, 2007.
ELETRONORTE. Memória da energia elétrica de Rondônia. Porto Velho,RO: Eletronorte - Centrais Elétricas do Norte do País, p. 33, 2005.
GUINSBURG, J. Stanislavski e o teatro de arte de Moscou. São Paulo: Perspectiva, 1985.
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MOISÉS, M. A análise literária. 15ed. São Paulo: Cultrix, 2005.
PEIXOTO, Fernando. O que é teatro. 14ed. São Paulo: Brasiliense, 1995.
ROSENFELD, Anatol. Texto/Contexto I. 5ed. São Paulo: Perspectiva, 1996.
                                      . O Teatro épico. São Paulo: Perspectiva, 1997.
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SOUZA, Roberto Acízelo de. Teoria da literatura. 4ed. São Paulo: Ática, 1991.
STANISLAVSKI, Constantin. A preparação do ator. 21ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2005.




[1] Graduada em Letras pela Universidade Federal de Rondônia. E-mail: valdetesous@hotmail.com

domingo, 23 de fevereiro de 2025

Políticas Públicas para a Cultura: o caso do teatro

 

Adailtom Alves Teixeira

A arte existe porque a vida não basta.

Ferreira Gullar

A cultura é um dos pilares fundamentais para a construção da identidade de um povo, e o teatro, como uma das expressões artísticas mais antigas da humanidade, desempenha um papel crucial nesse processo. Porém, o modo de produção que regula nossas vidas não é muito favorável a algumas artes, por isso mesmo é importante ressaltar que nem tudo cabe no mercado, e o teatro, em particular, é uma linguagem que ainda mantém forte vínculo com o artesanal, o humano e o coletivo. Desse modo, depende essencialmente do apoio público para sua sobrevivência e desenvolvimento. As políticas públicas voltadas para a cultura são fundamentais, especialmente para o teatro, mas ainda padecemos de políticas estruturantes, apesar do direito assegurado na Constituição Federal. Investir em arte e cultura é caminhar na direção de uma sociedade mais inclusiva e reflexiva.

O teatro é uma arte milenar que transcende o entretenimento. Ele é um espaço de diálogo, de questionamento e de descoberta de aspectos profundos do humano. Por meio da linguagem teatral, somos convidados a refletir sobre nossa existência, nossa história e nossa relação com o/a outro/a e o mundo. No entanto, essa forma de arte não se sustenta apenas pela lógica do mercado. Diferentemente de produtos culturais massificados, o teatro não gera lucros expressivos, mas é essencial para a formação crítica e sensível dos/as cidadãos/ãs. É aqui que as políticas públicas se tornam indispensáveis, garantindo que essa linguagem artística continue viva e acessível para todos/as.

Um exemplo emblemático de política pública bem-sucedida nessa área é o Programa de Fomento ao Teatro para a Cidade de São Paulo. Criado em 2002, esse programa foi pioneiro ao destinar recursos especialmente para grupos teatrais, permitindo que coletivos artísticos mantivessem suas pesquisas e produções. O programa não apenas capilarizou o teatro pela cidade, levando espetáculos para regiões periféricas, mas também fortaleceu a cena teatral paulistana, tornando-a uma das mais vibrantes do país. Ao investir em grupos, o programa reconheceu a importância do trabalho coletivo e da continuidade das pesquisas artísticas, que são fundamentais para a evolução da linguagem teatral. No entanto, o programa vive sob constante ataques, especialmente nos governos de direita.

A necessidade da arte é intrínseca ao ser humano. Buscamos a beleza, a reflexão e a conexão com o/a outro/a, e o teatro nos oferece isso de maneira única. A arte é diversão, mas não é só isso, é também conhecimento, é um modo de vivenciarmos uma experiência, de nos completarmos por meio do/a outro/a. a arte nos permite explorar outras perspectivas, questionar verdades estabelecidas e nos reconhecer na diversidade das experiências humanas. Serve para que critiquemos o mundo existente e possamos imaginar outros mundos possíveis. Por isso, mais uma vez, a arte não pode ser submetida exclusivamente à lógica do mercado, que tende a priorizar o lucro em detrimento da diversidade e da qualidade de vida. O Estado tem um papel crucial em garantir que a arte seja acessível e plural, sem se restringir aos interesses comerciais.

Além disso, o investimento público em cultura gera impactos positivos que vão além do campo artístico. Quando um festival de teatro é realizado, por exemplo, os recursos circulam por diversos setores da economia local: restaurantes, hotéis, transportes e comércio em geral são beneficiados. Diferentemente de outras áreas, onde o investimento público pode gerar concentração de riqueza, na cultura os recursos são distribuídos de maneira mais democrática, promovendo o desenvolvimento econômico e social. O investimento em cultura pode ser revertido de muitas maneiras, afinal cidadãos/ãs cultos/as, custam menos para o Estado em outras áreas, como a da saúde, pois se cuidam melhor, cuidam melhor da cidade e do patrimônio público. Em geral nos miramos em outras sociedades, elogiando sua cultura, mas pouco conhecemos acerca dos investimentos desses países em arte e educação.

A relação entre arte e educação é um ponto crucial. Ambas precisam do olhar especial do Estado, pois são fundamentais para a formação de cidadãos críticos e conscientes, por isso mesmo estão asseguradas na Constituição Federal brasileira. Submeter a arte e a educação à lógica do mercado é correr o risco de excluir aqueles/as que não têm acesso a recursos financeiros, perpetuando, portanto, desigualdades. O teatro, em particular, é uma ferramenta poderosa de educação, capaz de incluir e empoderar indivíduos e comunidades. Logo, se o teatro não muda a realidade, pode mudar os sujeitos e estes podem engajar-se para transformar sua cidade. Ao logo da história o teatro sempre foi uma poderosa ferramenta pedagógica na transformação de valores, como exemplo basta citar dois momentos históricos, primeiro entre os gregos na antiguidade clássica, bem como na ascensão da burguesia como classe hegemônica na modernidade.

Mais uma vez, a arte é um elemento central na constituição da identidade local. Quando pensamos em um lugar e sua gente, o que nos vem à mente é sua cultura: suas tradições, suas expressões artísticas, sua maneira única de ver o mundo. O teatro, como expressão cultural, contribui para a construção dessa identidade, refletindo as particularidades de uma comunidade e ao mesmo tempo conectando-a ao universal. Políticas públicas que fomentam o teatro e as demais artes estão, portanto, investindo na preservação e na valorização da identidade cultural de um povo. O campo das artes é a última trincheira que nos separa da barbárie, por isso mesmo, em momentos extremos os artistas são sempre os primeiros a serem atacados.

Em um mundo cada vez mais dominado pela lógica do mercado, é essencial defender a arte como um bem comum, que não pode ser reduzido a uma mercadoria. Em um mundo cada vez mais dominado pelo tecnológico, é essencial defender uma arte que promova o encontro humano. O teatro é uma arte da presença e tem a capacidade de tocar corações e mentes, de questionar e transformar pessoas – ao menos quem faz – mas, para tanto, precisa do apoio do Estado para continuar existindo e cumprindo seu papel na sociedade. Políticas públicas como o aqui citado, Programa de Fomento ao Teatro para a Cidade de São Paulo, é um bom exemplo e deve ser conhecido, pois é um modelo possível de política pública – aliás, a partir dele, outras linguagens artísticas lutaram e conquistaram também seus programas de fomento, como a dança, o circo e mesmo toda um território, como o fomento à periferia. Cabe a nós, como sociedade, reconhecer a importância dessas iniciativas e lutar para que elas se ampliem e se disseminem em outras cidades, garantindo que a arte continue a ser um direito de todos e um reflexo da nossa humanidade. Porto Velho, por exemplo, tem uma lei que foi criada tomando como modelo o Programa de Fomento ao Teatro, ainda em 2009, trata-se da Lei 1820/09. No entanto, a lei nunca foi regulamentada, nunca saiu do papel. No entanto, a lei nunca foi regulamentada, nunca saiu do papel. Talvez seja um bom momento para os artistas de teatro da capital conhecerem a lei, fazer a comparação e lutar pelos devidos ajustes e sua regulamentação, já que estamos em início de nova gestão.

domingo, 10 de novembro de 2024

A cultura de um tempo fluido

 

Adailtom Alves Teixeira[1]

Se como seres humanos somos o resultado cultural de onde fomos socializados (Laraia, 2005), em um mundo globalizado, integrado por um único modo de produção que regula nossas vidas, somos todos/as afetados e formados (postos na forma) por esse tempo e sistema do qual não temos como nos desvincularmos. Mesmo a crítica ou oposição, é feita a partir de um ponto de vista de dentro. Como alerta Terry Eagleton: “Cultura é uma dessas raras ideias que têm sido tão essenciais para a esquerda política quantos são vitais para a direita [...]” (2005, p. 11). Mas nosso ponto aqui será as mudanças profundas realizadas pelo capitalismo tardio.    

Tanto Zygmunt Bauman em Vidas Desperdiçadas (2005), como Richard Sennett em A Cultura do Novo Capitalismo (2006), apresentam uma crítica contundente à forma como a sociedade contemporânea foi moldada pelo capitalismo tardio. Ao abordar a fluidez e a volatilidade que caracterizam a modernidade atual, eles destacam como as mudanças no trabalho, no chamado “talento” e no consumo afetaram profundamente a vida humana. Essa transformação cultural, segundo ambos os autores, não trouxe a tão prometida e propagandeada liberdade, mas, ao contrário, aprisionou os indivíduos em novas formas de insegurança, precariedade e alienação.

Sennett descreve como a aceleração do tempo se tornou uma característica central da vida moderna. Na cultura capitalista contemporânea, o tempo não é apenas um recurso, mas um campo de batalha onde todos lutam para não ficarem para trás. A lógica de mercado demanda que os trabalhadores migrem constantemente de uma tarefa para outra, de um emprego para outro, de um lugar para outro. O "ideal do artesanato", que valorizava a dedicação e o aprofundamento em uma habilidade específica, foi relegado ao passado. Para Bauman, esse deslocamento contínuo reflete a liquidez da modernidade, pois nesse nosso tempo tudo é transitório e descartável, inclusive as pessoas.

O tempo, que antes oferecia um senso de continuidade e planejamento (como nas carreiras lineares do passado), tornou-se uma série de momentos fragmentados, em que a acumulação de experiência ou conhecimento a longo prazo é desvalorizada. O trabalhador deve ser flexível, capaz de se adaptar rapidamente a novas demandas. Nesse cenário, a estabilidade e a profundidade dão lugar à superficialidade e ao imediatismo.

A Crise do Artesanal

Para Sennett, o novo capitalismo destrói o ideal do trabalho artesanal. Fazer algo bem feito, simplesmente pelo prazer de fazê-lo, perdeu sentido em um contexto onde o que importa é a capacidade de executar múltiplas tarefas, muitas vezes desconectadas entre si. “A especialização profunda é substituída pela "portabilidade de habilidades”, valorizando-se profissionais que podem ser deslocados para diferentes funções sem muita preparação.

Bauman complementa essa análise ao mostrar que, em um mundo governado pela lógica do consumo, o valor do trabalho está atrelado à sua utilidade imediata e descartabilidade. Se no passado havia um vínculo entre a identidade do trabalhador e o seu ofício, hoje, essa relação é fragmentada. Os trabalhadores tornaram-se meras engrenagens, peças substituíveis, sempre à mercê das demandas do mercado.

Daí a chamada modernidade líquida de Bauman, enfatizar o conceito de "vidas desperdiçadas" ou refugos humanos. A aceleração do tempo e a superficialidade no trabalho levam a um aumento no número de indivíduos considerados descartáveis, ou como chamou Fernando Henrique Cardoso, "inimpregáveis" – pessoas que, devido à sua idade, falta de qualificação ou até mesmo obsolescência tecnológica, são descartadas pelo sistema. Sennett reforça essa ideia ao observar que a lógica do capital privilegia o jovem, flexível e barato, enquanto os mais velhos, com suas habilidades que se tornam obsoletas rapidamente, são deixados de lado.

O medo de se tornar supérfluo, redundante, isto é, refugo humano, assombra os trabalhadores, que precisam constantemente requalificar-se para se manterem relevantes. A incerteza e o medo se tornam os novos motores de uma economia que demanda eficiência e lucratividade instantâneas. Desse modo, a criação de espantalhos é outro aspecto desse problema, isto é, o outro, sobretudo o imigrante para as economias desenvolvidas, passa a ser o inimigo de plantão.

Uma política para ser consumida

Sennett também explora como o consumo permeia não apenas o mercado, mas todas as esferas da vida, incluindo a política. Os cidadãos são tratados como consumidores, cuja insatisfação é capitalizada para gerar lucros e manipular o mercado político. Bauman identifica esse fenômeno como uma alienação extrema, onde até mesmo os desejos e as aspirações das pessoas são moldados por uma lógica consumista. A política torna-se um produto, com plataformas que mais se assemelham a estratégias de marketing do que a ideais de transformação social. Conforme salienta Sennett, cinco aspectos afastam o consumidor-espectador-cidadão da política progressista: ele é

[...] (1) convidado a aprovar plataformas políticas que mais parecem plataformas de produtos e (2) diferenças laminadas a ouro; (3) convidado a esquecer a “retorcida madeira humana” (como se referia a nós Immanuel Kant) e (4) dar crédito a políticas de mais fácil utilização; (5) aceitar constantemente novos produtos políticos em oferta (2006, p. 148).

 

Nesse contexto, o engajamento político autêntico é corroído, pois os cidadãos-consumidores tornam-se passivos, movidos mais pelo desejo de satisfação imediata do que pela reflexão crítica. A democracia, assim, é simplificada e diluída, transformando-se em um espetáculo onde a participação se resume a um "comprar" simbólico de ideias políticas, muitas vezes já mastigadas e pré-formatadas para fácil digestão.

Uma falsa liberdade para consumo

Os defensores do novo capitalismo argumentam que ele oferece maior liberdade, mas tanto Bauman quanto Sennett discordam. A liberdade prometida é ilusória: em vez de promover uma autonomia real, ela aprisiona os indivíduos em um ciclo constante de consumo e atualização. A liberdade de escolha, evidentemente, é superficial, pois, na prática, as opções são limitadas às mercadorias e às experiências oferecidas pelo mercado, seja ele de um novo governo, seja de um novo mundo.

A "paixão consumptiva", como Sennett descreve, reflete a necessidade constante de buscar algo novo, mesmo que esse algo não satisfaça plenamente. No entanto, essa busca constante é, paradoxalmente, uma fonte de alienação e solidão. A frustração gerada pela insaciabilidade do consumo é frequentemente canalizada para o campo político, criando um ambiente onde o populismo e as respostas simplistas ganham força.

Considerações finais

A reflexão sobre a cultura no capitalismo contemporâneo, a partir de Bauman e Sennett, revela um cenário sombrio: um mundo onde o tempo é acelerado, o talento é descartável, e o consumo se tornou o único paradigma válido. A promessa de liberdade e progresso se desfaz diante de uma realidade em que os indivíduos são constantemente substituídos, descartados e manipulados. Assim, o capitalismo tardio não trouxe a liberdade que prometia, mas sim uma sociedade mais fragmentada, onde as vidas são desperdiçadas em nome de um progresso que serve apenas a uma elite cada vez mais rica. Kohei Saito em O capital no antropoceno afirma que “[...] que os 26 capitalistas mais ricos do mundo controlam tanta riqueza quanto os 3,8 bilhões mais pobres (aproximadamente metade da população mundial)” (2024, p. 143).

Medo, por rumarmos ao desconhecido e por estarmos pressionados pelo iminente descarte, nos sobra a ânsia de mergulhar cada vez mais fundo no mundo das mercadorias, seja ela reais ou simbólicas:

Em suma, as mercadorias encarnam a derradeira falta de razão e a capacidade que as escolhas têm de serem revogáveis, assim como a extrema descartabilidade dos objetos escolhidos. Mais importante ainda, parecem colocar-nos no controle. Somos nós, os consumidores, que traçamos a linha divisória entre o útil e o refugo. Tendo por parceiras as mercadorias, podemos deixar de nos preocuparmos em terminar na lata de lixo (Bauman, 2005, p. 161).

 

Ao final, se temos todos/as nos tornado meros consumidores/as, resta-nos a pergunta: é possível resgatar um sentido de pertencimento e propósito em um mundo que valoriza mais o efêmero do que o duradouro? Teremos capacidade de realizarmos as mudanças necessárias? Fato é que é mais que necessário repensar radicalmente as estruturas que regem nossas vidas, antes que nos tornemos, todos, meros consumidores em um espetáculo sem fim.

 

Referências

BAUMAN, Zygmunt. Vidas desperdiçadas. Trad.: Carlos Alberto Medeiros. Rio de Janeiro: Zahar, 2005.

EAGLETON, Terry. A ideia de cultura. Trad.: Sandra Castello Branco. São Paulo: EdUnesp, 2005.

LARAIA, Roque de Barros. Cultura: um conceito antropológico. 18ª ed. Rio de Janeiro: Zahar, 2005.

SAITO, Kohei. O capital no antropoceno. Trad.: Caroline M. Gomes. São Paulo: Boitempo, 2024.

SENNETT, Richard. A cultura do novo capitalismo. Trad.: Clóvis Marques. Rio de Janeiro: Record, 2006.



[1] Professor adjunto da Universidade Federal de Rondônia (UNIR). Doutor e Mestre em Artes pelo Instituto de Artes da Universidade Estadual Paulista (Unesp); graduado em História; autor dos livros Circo Teatro Palombar: somos periferia; potência criativa (Fala, 2024), Teatro de rua: identidade, território (Giostri, 2020) e coorganizador de Paky`op: experiência, travessias, práxis cênica e docência em teatro (Edufro, 2022).

quinta-feira, 5 de setembro de 2024

Carta de Solidariedade ao Grupo de Teatro Wankabuki

 Carta de Solidariedade ao Grupo de Teatro Wankabuki

 

Rondônia, setembro de 2024

 

Amigos/as do Grupo de Teatro Wankabuki,

 

É com profunda indignação e tristeza que recebemos as notícias recentes sobre as tentativas de cerceamento e perseguição ao trabalho de vocês, motivadas por uma onda de pânico moral injusta e equivocada e que, infelizmente, grassa em nossa sociedade. Em um país onde a Constituição Federal, no artigo 5º, inciso IX, garante a livre expressão artística, é inadmissível que um coletivo cultural com tamanha relevância para Vilhena e todo o estado seja alvo de ataques que violam esse direito fundamental.

O Grupo de Teatro Wankabuki, com mais de duas décadas de dedicação à cultura do estado de Rondônia, tem contribuído para o enriquecimento de nossa cultura, seja por meio da produção de espetáculos teatrais, seja pela realização do Festival Amazônico de Teatro, debates, entre outras ações. A criação da Escola Livre de Teatro é mais um exemplo do claro do compromisso de vocês com a formação de novos artistas e o fortalecimento do cenário cultural local. A iniciativa de oferecer um espaço para que a arte floresça, independentemente das correntes ideológicas que a sociedade impõe, merece ser celebrada, não condenada. Cabe lembrar que nenhuma sociedade civilizada prescindiu da arte, que sempre impulsionou a humanidade em direção ao senso crítico e à sensibilização; toda arte é um meio de conhecimento da realidade e da condição humana no mundo.

Por isso, toda manifestação artística ou mesmo um simples exercício no processo de aprendizagem, não deve ser motivo de perseguição, mas sim de reflexão. A arte tem o poder de questionar, provocar e transformar. É por meio desses questionamentos que a sociedade avança, confrontando suas próprias contradições e limitações. Lamentavelmente, ao invés de valorizar essa contribuição essencial do campo artístico, setores da nossa sociedade preferem alimentar o pânico moral, que só serve para empobrecer o debate público e limitar a liberdade criativa.

Neste momento difícil, saibam que vocês não estão sozinhos(as). Acreditamos firmemente no valor do trabalho desenvolvido pelo Wankabuki e na importância de uma sociedade onde a diversidade de vozes e expressões artísticas possa prosperar livremente. Estamos juntos(as) na defesa do direito à liberdade de expressão artística, na resistência contra a censura e na promoção de uma cultura mais justa e inclusiva.

 

Com solidariedade e admiração,

1.    Adailtom Alves Teixeira – professor do Curso Licenciatura em Teatro/UNIR

2.    Teatro Ruante – Porto Velho/RO

3.    Selma Pavanelli – Conselheira de Cultura do Estado – Setorial Circo

4.    Alexandre Falcão de Araújo - professor do Curso de Licenciatura em Teatro/UNIR

5.    Laudemir P. Santos (Lau Santos). Artista da Cena e Professor do Curso de Licenciatura em Teatro/UNIR

6.    Luiz Daniel Lerro – professor do Curso Licenciatura em Teatro/UNIR

7.    Jória Lima – Associação Cultural Anômade. Porto Velho

8.    Frank Busatto – Artista de artes visuais

9.    Associação Cultural, Educação, Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável Diversidade Amazônica (ACEMDA)

10.  Associação Coletivo Madeirista – ACME

11.  Andréa Melo – Coletivo Gaia

12.  Poliana Espíndola – professora e representante da Setorial de Artes Visuais, CMPC de Porto Velho

13. Marfiza de França - cantora/produtora cultural - Movimento Pró-Cultura Rondônia

14. Édier William - Produtor Cultural

15. Francisco Leilson Chicão/ presidente Federação Rondoniense do Artesanato

16. Sindicato dos Artistas e técnicos em Espetáculos de Diversões de Rondônia – Sated/RO

17. Associação de Artes e Cultura Arterial

18. O Imaginário - Porto Velho - RO

19. Taquara Produções LTDA, Porto Velho - Rondônia

20. Cultura Rock Underground - Ji-Paraná – RO

21. Walterlina Brasil - Docente Titular Curso Pedagogia/UNIR e atriz

22. Izabela Lima – cantora e produtora cultural (Porto Velho)

23. Leoni Taurino – Presidente da Associação dos Artesãos de Pimenta Bueno, Conselheira da cultura e conselheira de Turismo

24. Helionice de Moura Silva - Presidente da ASELCI - Rolim de Moura

25. João Marcos Pancoti de França – Cantor, Compositor, Professor de música

26.  Taiane Sales Nunes - artista e produtora cultural,  Porto Velho

27.  Berenice Perpetua Simão - Presidente do Conselho Municipal de Políticas Culturais de P. Velho/RO

28. Joaquim Lopes Louredo - Dirigente sindical dos Urbanitários de Rondônia

29. Naviola Banda

30. Val Barbosa - artista e Produtora Cultural

31.  Andressa Batista - produtora cultural

32. Ponto de Cultura, Memória, Leitura e Mídia Livre Serpentário Produções

33. Produz Filmes – Rolim de Moura

34. Grupo Jurubebas de Teatro - Manaus/AM

35.    Fada Inad – Ji-Paraná/RO

36.    Associação Waraji – Guajará-Mirim

37.    Suely Rodrigues – produtora cultural e diretora da Associação Cultural Raízes do Porto


Apoios de outros estados:

RBTR - Rede Brasileira de Teatro de Rua

1          Amora Balaio Criativo - Santo André/SP

2          Árvore Casa das Artes - Vitória/ES

3          Associação Cultural Bigorna/RJ

4          Associação Nacional dos Títeres do Teatro Lambe-Lambe

5          Associação Pano de Roda - MG

6          Bando Golíardis - São Paulo/SP

7          Boca Suja Coletivo de Rua e Mostra de Performance na Rua - MS

8          Bonita Lampião - São Paulo/SP

9          Brava Companhia - São Paulo/SP

10       Bugiganga de Artes - São Paulo/SP

11       Cafi Otta - São Paulo - SP

12       Casa Vermelha - SC

13       Centro de experimentação artístico e Cultural Encanto dos Alagados - AP

14       Centro de Pesquisa para o Teatro de Rua Rubens Brito - SP

15       CETA - Centro Experimental de Teatro e Artes - Nova Iguaçu/RJ

16       CHAP - RJ

17       Cia 2 em Cena - Recife/PE

18       Cia As Marias - SBC/SP

19       Cia Bornal de Bugigangas - Assis/SP

20       Cia Chirulico - Macaé/RJ

21       Cia Circunstância - Belo Horizonte/MG

22       Cia Colcha de Retalhos - São Paulo/SP

23       Cia Cultural Ciranduís - Janduís/RN

24       Cia de Teatro Madalenas - Belém/PA

25       Cia de Teatro Nu Escuro - Goiânia/GO

26       Cia de Teatro Soluar - João Pessoa/PB

27       Cia Estável de Teatro - São Paulo/SP

28       Cia Fábrica SP - Peruíbe/SP

29       Cia Forrobodó de Teatro - João Pessoa/ PB

30       Cia KHAOS Cênica - Canoas - RS

31       Cia Lá de Casa de Circo, Teatro e Educação - Sorocaba-SP

32       Cia LaCasa – Maceió/AL

33       Cia Lamparim de Circo e Teatro - Quixeramobim/CE

34       Cia MiraMundo - São Luís/MA

35       Cia Mundu Rodá - São Paulo

36       Cia Nega Luzia - São Paulo

37       Cia Opinião - SP

38       Cia Pituã - ES

39       Cia Sorteio de Contos - Belém/Pa

40       Cia Teatro dos Ventos - Osasco-SP

41       Cia Teatro Em Cordel - Edmilson Santini - RJ

42       Cia Visse e Versa de Ação Cênica - Rio Branco - Acre

43       Cia Vulcânicas - São Paulo - SP

44       Circo Pratodos - Mariana/MG

45       Circo Teatro Capixaba - Colatina/ES

46       Circo Teatro Palombar - São Paulo/SP

47       Circovolante - Mariana/MG

48       Cirquinho do Revirado - Criciúma/SC

49       Coletivo Casarão do Boneco - Belém/PA

50       Coletivo CLanDesTino - Dourados/MS.

51       Coletivo Fulô - Crato - CE

52       Como La em Casa Teatro & Cia Bella - SP/SP

53       Consuarte ltda - PE

54       Corpos & Sombras - teatro e circo - Novo Hamburgo -RS

55       Duo Caponata- Sorocaba/SP

56       Dzaine Produções João Pessoa PB

57       Ecoaecoa Coletivo - Porto Alegre/RS

58       ERRO Grupo - Florianópolis - SC

59       Escarcéu de Teatro - Mossoró/RN;

60       Eslipa - Rio de Janeiro/RJ

61       Esquadrão da Vida - DF

62       Fábrica de Teatro do Oprimido - Londrina-PR

63       Fanfarrosas - São Paulo

64       Fátima Sobrinho - Belém/Pa

65       Federação de Teatro do Acre- FETAC /AC

66       Flor e Espinho - Campo Grande/MS

67       Gira Cia Andante - Miguel Pereira/RJ

68       Grupo A Pombagem - Salvador-Ba

69       Grupo Casa3 - Guarujá-SP

70       Grupo Cutucurim - Angra dos Reis-RJ

71       Grupo de teatro De Pernas Pro Ar - Canoas/RS

72       Grupo de Teatro de Rua Loucos e Oprimidos da Maciel - Recife/PE

73       Grupo de Teatro Quem Tem Boca é Pra Gritar - João Pessoa-PB

74       Grupo de Teatro Revirado - SC

75       Grupo exército Contra Nada

76       Grupo Experimental de Artes Vivarte Acre e Casa de Cultura Vivarte - Acre

77       Grupo Glacê - Guarulhos -SP

78       Grupo GRUTTA - Tangará da Serra/MT

79       Grupo Konga/RJ

80       Grupo Mãe da Rua - São Paulo

81       Grupo Manjericão - Porto Alegre/RS

82       Grupo Máscaras - Guaranésia - MG

83       Grupo OffSina - Rio de Janeiro - RJ

84       Grupo Olho Rasteiro - Curitiba/PR

85       Grupo Pombas Urbanas - São Paulo/SP

86       Grupo Populacho - Guarulhos/SP

87       Grupo Put's de Teatro - Toledo/PR

88       Grupo Rosa dos Ventos- Presidente Prudente SP

89       Grupo TAMTAN - Tanquinho-Bahia.

90       Grupo Teatral De 4 No Ato - Rio de Janeiro/RJ

91       Grupo teatral Hemisfério

92       Grupo Teatro de Caretas - CE

93       Grupo TIA - Canoas-RS

94       Grupo Ueba – Caxias do Sul-RS

95       Grupo Xingó - São Paulo/SP

96       Impacto Agasias Grupo de Teatro - São Paulo/SP

97       Instituto Potiguar de Cultura e Cidadania - RN

98       Ivanildo Piccoli - Brincantuar CNPq Ufal

99       Lacarta Circo Teatro de Rua - ES

100     Licko Turle - PELE NEGRA - Salvador/BA

101     Locômbia Teatro, Cantá, Roraima

102     Mamulengo Rasga Estrada - Presidente Prudente - SP

103     Mamulengo Riso Frouxo - São Paulo

104     Mamulengo Sem Fronteiras - DF

105     MARL – Movimento de Artistas de Rua de Londrina / PR

106     Movimento Cabuçu - Guarulhos - SP

107     Nativos terra rasgada - Sorocaba/SP

108     Nóis de Teatro - Fortaleza/CE

109     Núcleo Aclowndemia de Palhaçaria - Sorocaba/SP

110     Núcleo Ás de Paus - Londrina-PR

111     Núcleo Pavanelli - Tatuí/SP

112     Núcleo Sem Drama Na Cia da Cabra Orelana - São Paulo/SP

113     O Buraco d'Oraculo - São Paulo/SP

114     O Pessoal do Tarará - Mossoró/RN

115     OIgalê Cooperativa de Artistas Teatrais - RS

116     Os Mamatchas - Morón/Buenos Aires

117     Oskaraveyo, Ricardo Pavão Rio de Janeiro/ Uberlândia MG

118     Palhaço Piruá - Natal - RN

119     Palhaços Pindaiba - MG

120     Palhaços Trovadores - Belém/Pa

121     Povo da Rua - Porto Alegre/RS

122     Rué La Companhia- Guarulhos/SP

123     Salmonela Urbana Cia- Curitiba-PR

124     Será O Benedito?! / RJ

125     Som na Linha - Presidente Prudente/SP

126     Teatro de Rocokóz - São Paulo/SP

127     Teatro de Trincheira - Caraguatatuba - SP

128     Teatro em Trâmite - Florianópolis/SC

129     Teatro Imaginário Maracangalha - Campo Grande MS

130     Teatro Itinerante RJ (Marcondes Mesqueu)

131     Teatro Widia - Santos/SP

132     Tribo de Atuadores Ói Nóis Aqui Traveis - Poa/RS

133     Troupe Teatral Espantalho - Arcoverde-PE

134     Trupe Arlequin - PB

135     Trupe Circuluz - Olinda - PE

136     Trupe Olho da Rua - Santos-SP

137     Trupe Será o Benedito - Caicó/RN

138     Turma Em Cena - RJ