Pesquisar este blog

domingo, 29 de março de 2026

Recompor certo imaginário do passado é apontar para o futuro

 

Adailtom Alves Teixeira[1]

A literatura infantil tem, cada vez mais, revelado uma potência estética e política que ultrapassa o mero entretenimento. Nesse sentido, as produções amazônidas tem muito a nos ensinar, especialmente da Amazônia Ocidental, como a que vem sendo produzida em Rondônia. O porco-do-mato e o caçador corajoso, de Eva Silva Alves (2024), insere-se como uma obra que recupera não apenas narrativas da tradição oral, mas também modos de existência profundamente enraizados na experiência da floresta. A autora, doutora em educação e sócia-fundadora da Editora Temática, é nascida em Guajará-Mirim, e, conforme me confidenciou, foi criada em um seringal. A partir desse universo ela mobiliza suas memórias e escutas para construir uma ficção que, embora destinada ao público infantil, carrega densidade histórica e simbólica dessa parte do Brasil.

Logo de início, chama atenção o modo como o livro constrói a espacialidade amazônica. As distâncias, que em contextos urbanos poderiam soar como exagero ou fantasia, aqui são apresentadas de modo espontâneo: a cidade mais próxima do seringal fica a cinco dias de canoa, isso se ela for motorizada (rabeta), o amigo do caçador, leva três dias para chegar após o seu chamado. Esses elementos não apenas situam o leitor em um território específico, mas também produzem um efeito de isolamento que amplia o campo da imaginação. Trata-se de um isolamento que não empobrece, muito pelo contrário, intensifica a experiência do mundo, fazendo com que o cotidiano se torne matéria de fabulação. Aqui é preciso relembrar Walter Benjamin no texto O narrador (2012), em que o autor aponta que os bons contadores de histórias são o marinheiro e/ou comerciante, que viaja o mundo e traz (aproxima) as histórias de um mundo distante; e o camponês, gregário, aquele que se fixa no seu lugar, mas detém a tradição, as histórias do lugar, portanto, aproxima o passado do presente. Penso que o livro de Eva faz parte desse universo, apresenta um certo passado de nosso presente, justamente porque ele ainda tem algo a nos ensinar.

Tais aspectos são fundamentais para compreendermos a obra em tela: o imaginário não surge como fuga da realidade, mas como extensão dela; é um modo de compreendê-la. Pensemos aqui na definição dada por Wunenburger, que entende o imaginário como “um conjunto de produções, mentais ou materializadas em obras, com base em imagens visuais (quadro, desenho, fotografia) e linguísticas (metáfora, símbolo, relato), formando conjuntos coerentes e dinâmicos, referentes a uma função simbólica no sentido de um ajuste de sentidos próprios e figurados” (2007, p. 11). Pensemos na floresta com sua densidade e mistério, exige dos sujeitos uma escuta atenta e uma relação sensível com o ambiente, por isso fundante na obra. É nesse ponto que o livro articula uma de suas dimensões mais potentes: o imbricamento entre humanidade e natureza. Diferentemente de narrativas que colocam o humano como dominador, aqui se evidencia uma relação de reciprocidade — ainda que atravessada por tensões.

A personagem de dona Raimunda, figura de sabedoria, sintetiza essa ética ao advertir sobre a desnecessidade da caça diante da abundância. Sua fala — “isso é pra vocês nunca mais pensarem que podem enganar a Mãe Natureza” — não funciona como simples moral didática, mas como expressão de um saber ancestral, que reconhece limites e consequências. Quando os caçadores desobedecem, a floresta responde, não como vingança, mas como reequilíbrio. A narrativa, assim, aproxima-se de cosmologias indígenas e tradicionais, nas quais a natureza não é recurso, mas entidade viva.

Essa perspectiva ganha ainda mais relevância quando situada no contexto histórico de Rondônia. Para quem conhece nossa história, é sabido que há uma tensão entre diferentes ciclos de ocupação: de um lado, os chamados ciclos da borracha, marcado também por certa violência, mas também por uma adaptação (ainda que forçada) aos modos de vida mais próximos dos povos que aqui já estavam; de outro, o chamado ciclo da colonização, sobretudo a partir da segunda metade da década de 1970, que intensifica a lógica de exploração e ruptura com a floresta. O livro, ao recuperar um tempo anterior, não o idealiza, mas aponta para formas de relação que foram progressivamente sendo apagadas.

Outro elemento que merece destaque é o diálogo entre texto e imagem. As ilustrações de Edina Costa, também oriunda de Guajará-Mirim, não apenas acompanham a narrativa, mas a expandem. Há, nelas, uma paleta e uma composição que evocam a textura da floresta, contribuindo para a imersão do leitor nesse universo.

Do ponto de vista editorial, é importante reconhecer o papel que a Editora Temática, responsável pela publicação do livro, vem desenvolvendo. Em um cenário em que produções regionais frequentemente enfrentam dificuldades de circulação, iniciativas como essa assumem uma função crucial na valorização da cultura amazônida, promovendo vozes e a ampliação da cultura local.

Por fim, O porco-do-mato e o caçador corajoso de Eva da Silva Alves, pode ser lido como uma obra que recompõe um imaginário de outros tempos, mas que dialoga diretamente com as urgências do presente. Em meio à crise climática global, a narrativa nos convoca a repensar nossa relação com o mundo natural. Ao recuperar saberes e sensibilidades, o livro reafirma aquilo que muitos xamãs já nos alertaram: contar histórias é, também, uma forma de adiar o fim — ou, como dizem em algumas cosmologias, de “adiar a queda do céu”.

Referências

ALVES, Eva da Silva. O porco-do-mato e o caçador corajoso. Porto Velho: Temática, 2024.

BENJAMIN, Walter. Magia e técnica, arte e política: ensaios sobre literatura e história da cultura. 8ª ed. Trad.: Sérgio Paulo Rouanet. São Paulo: Brasiliense, 2012. (Obras Escolhidas v. 1)

WUNENBURGER, Jean-Jaques. O imaginário. São Paulo: Edições Loyola, 2007.



[1] Professor na Universidade Federal de Rondônia (UNIR), doutor e mestre em Artes pelo Instituto de Artes da Universidade Estadual Paulista (Unesp), graduado em história pela Universidade Cruzeiro do Sul (Unicsul); dramaturgo, ator, diretor e integrante do Teatro Ruante.

sábado, 28 de fevereiro de 2026

Quem pode entrar no parquinho humano?

 Adailtom Alves Teixeira[1]

Nascemos entre humanos, mas não nascemos propriamente humanizados. A condição humana não é um dado biológico acabado; trata-se antes de um processo histórico, cultural e ético. Entre os animais, somos um dos mais frágeis ao nascer: dependemos do cuidado prolongado, da linguagem, da educação e da convivência social para adquirir as ferramentas simbólicas que nos tornam, de fato, humanos.

Em Regras para o parque humano (2018), Peter Sloterdijk estabelece um interessante diálogo com Martin Heidegger, especialmente a partir da Carta sobre o Humanismo (1947). Heidegger, cuja trajetória é marcada por sua adesão ao nazismo, questionava o esgotamento do humanismo clássico europeu. Sloterdijk retoma esse debate para perguntar quem, afinal, educa o ser humano e quais mecanismos culturais regulam o processo civilizatório. O texto, fruto de uma conferência, sugere que o humanismo sempre funcionou como uma tecnologia de domesticação: a leitura, a escola e a cultura escrita atuariam historicamente como dispositivos de contenção da barbárie.

Contudo, se antes os processos de humanização estavam ligados ao livro e à formação cultural, hoje eles parecem deslocar-se para os campos da biotecnologia, da engenharia genética e das plataformas digitais. Sloterdijk alerta para a necessidade de regras éticas diante do poder crescente dos conglomerados científicos e tecnológicos capazes de intervir diretamente na constituição biológica da vida humana.

Em certa medida, preocupação semelhante aparece em O futuro da natureza humana (2004), de Jürgen Habermas. Habermas questiona os riscos de uma eugenia liberal orientada pelo mercado, na qual escolhas genéticas poderiam produzir desigualdades irreversíveis entre indivíduos previamente “programados”. Para além de compartilharem origem intelectual europeia, ambos os pensadores enfrentam uma questão urgente: quem decidirá os limites da intervenção tecnológica sobre os seres humanos?

O debate torna-se ainda mais relevante em um contexto global marcado pela ascensão de movimentos autoritários e pelo enorme poder político e econômico das grandes empresas de tecnologia. A concentração de dados, riqueza e capacidade técnica levanta uma questão preocupante: poderíamos caminhar para a produção de humanos diferenciados, seja biológica, cognitiva ou socialmente? Se a espécie persistir, o que significará ser humano daqui a um século?

Essas inquietações, entretanto, não são novas. A própria modernidade ocidental construiu hierarquias de humanidade. Durante o período colonial, a Igreja Católica debateu se os povos originários das Américas possuíam alma, tal discussão foi decisiva para legitimar processos de conquista e catequese. Sabemos hoje que tal “salvação” implicou violência cultural, epistemicídio e extermínio. Em relação aos africanos escravizados, a lógica foi ainda mais brutal: a necessidade econômica da escravidão dispensava qualquer debate moral consistente sobre sua humanidade.

Assim, a pergunta permanece aberta: o que significa ser humanizado? Quem define os critérios? Sloterdijk afirma que, até 1945, predominou um humanismo burguês fundamentado na cultura livresca, posteriormente colocado em crise pelas guerras mundiais e pelos meios de comunicação de massa. Ainda segundo o autor, “O tema latente do humanismo é, portanto, o desembrutecimento do ser humano” (Sloterdijk, 2018, p. 17).

Mas caberia perguntar: apesar dos avanços científicos e da riqueza global acumulada, temos realmente avançado nesse processo de desembrutecimento? Em um mundo atravessado pela precarização do trabalho, pela superexploração econômica e por aquilo que Achille Mbembe denomina de necropolítica (a gestão política da morte), torna-se difícil sustentar que vivemos uma ampliação efetiva do “parque humano”.

Habermas recorda que a comunidade moral depende do reconhecimento mútuo entre sujeitos capazes de atribuir direitos e deveres uns aos outros: “Na linguagem dos direitos e deveres, a comunidade de seres morais [...] refere-se a todas as relações que necessitam de um regulamento normativo” (Habermas, 2004, p. 46).

Entretanto, a modernidade que produziu "direitos universais" também consolidou um sistema econômico que continuamente exclui parcelas imensas da humanidade. Para parafrasear George Orwell, alguns humanos parecem tornar-se e dia a dia seguem mais humanos que outros.

Essa crítica encontra eco também fora do pensamento europeu. O líder yanomami Davi Kopenawa, denuncia a lógica predatória do que chama de povo da mercadoria, os napë (os brancos/inimigos): “Os brancos se dizem inteligentes. Não somos menos. Nossos pensamentos se expandem em todas as direções e nossas palavras são antigas e muitas” (Kopenawa; Albert, 2020).

Tal perspectiva desloca radicalmente o debate: talvez o problema não seja ampliar o parque humano, mas redefinir suas regras a partir de outras cosmologias e formas de existência. Frear o avanço ilimitado do povo da mercadoria e de seu sistema baseado na acumulação infinita e na exploração da vida, pode ser não apenas uma escolha ética, mas condição de sobrevivência coletiva. Humanizar-se, afinal, talvez signifique reconhecer que ninguém deveria ficar do lado de fora do parque.

 

Bibliografia

HABERMAS, Jürgen. O futuro da natureza humana. São Paulo: Martins Fontes, 2004.

HEIDEGGER, Martin. Carta sobre o humanismo. São Paulo: Centauro, 2005.

KOPENAWA, Davi; ALBERT, Bruce. A queda do céu. São Paulo: Companhia das Letras, 2020.

MBEMBE, Achille. Necropolítica. São Paulo: n-1 edições, 2018.

ORWELL, George. A revolução dos bichos. São Paulo: Companhia das Letras, 2007.

SLOTERDIJK, Peter. Regras para o parque humano. São Paulo: Estação Liberdade, 2018.



[1] Professor adjunto da Universidade Federal de Rondônia (Unir); mestre e doutor em Artes pelo Instituto de Artes da Universidade Estadual Paulista (Unesp); graduado em História pela Universidade Cruzeiro do Sul (Unicsul).


domingo, 22 de fevereiro de 2026

Oficina de Teatro – Teatro em Porto Velho anos 1980

 

O coletivo Oficina de Teatro surgiu, de fato, a partir de um processo formativo desenvolvido no Sesc Rondônia, em Porto Velho, durante a década de 1980, quando a unidade ainda funcionava na Rua Gonçalves Dias. A iniciativa nasceu como uma oficina teatral cujo núcleo inicial era composto por L. C. Marinho, Geraldo Cruz e Ângela (cujo sobrenome Marinho não se recordou).

Desse primeiro movimento estruturou-se o núcleo principal do grupo, formado por L. C. Marinho, Mário Zumba, Ana Pereira, Arlênio Miranda e Ery Oliveira, mantendo atividades contínuas entre 1984 e 1990. A estreia ocorreu em 1985, com o espetáculo Do Grito à Canção. Na sequência, o coletivo realizou montagens como A Oncinha Bilú, Os Vizinhos, O Banheiro, Soprando no Vento, Gran Circo Caravana e Cemitério dos Esquecidos, este último revisitado em diferentes versões e lembrado com especial carinho por Marinho.

Estreia de Os Vizinhos, na Casa da Cultura/PVh, nov/86. Autoria e direção, Marinho. Produção e montagem, Oficina de Teatro do SESC. Atores: Acima, o Superior (Arlênio Miranda). No centro, da esquerda: Baltazar (Marinho), Fulô (Ettiene Angelin), Donana (Ana Pereira), Teçado (Waldo Angelin), Zé Óide (Gil Neúch) e Zé do Peixe (Ery Oliveira). Deitado, Machadinho (Mario Zumba). Foto: autor desconhecido. Fonte: L.C. Marinho (postado em seu Facebook em 15/12/2024).


Em 1988, já em sua terceira montagem de Cemitério dos Esquecidos, o grupo conquistou o Festival Estadual de Teatro, garantindo a representação de Rondônia no Festival Brasileiro de Teatro Amador (FBTA/88). Embora o desempenho no evento nacional não tenha alcançado o mesmo destaque, aquele ano marcou uma mudança decisiva: o rompimento institucional com o Sesc e a continuidade do coletivo como grupo independente.

Em 1990, já atravessando um processo de dispersão interna, a trupe realizou uma última remontagem de Cemitério dos Esquecidos, encerrando suas atividades no mesmo ano. Um aspecto singular de sua trajetória, além de ter surgido dentro do Sesc, o Oficina de Teatro — diferentemente de outros grupos atuantes naquele período — nunca integrou a Federação de Teatro Amador de Rondônia (FETEAR).

Em 12 de fevereiro de 2024, foi realizada uma conversa com L. C. Marinho e Mário Zumba, por meio da plataforma Google Meet. Ambos participaram do coletivo e vivenciaram diretamente o movimento cultural teatral de Porto Velho nos anos 1980. A entrevista pode ser acessada no link: https://youtu.be/oSdb0QUPsmQ.