Adailtom Alves Teixeira[1]
A noção de teatralidade
pode ser entendida como o conjunto de elementos expressivos (corporais, vocais,
espaciais e simbólicos) que produzem sentido para quem vê e para quem age. Ela
não se restringe ao teatro enquanto instituição ou prática artística formal;
antes, diz respeito à dimensão estética e comunicativa presente em toda ação
humana que, ao ser realizada diante de alguém, passa a revelar
intencionalidade, construção e presença. Nesse sentido amplo, a teatralidade é
o modo como o corpo, a voz, o ritmo, o silêncio, o olhar, a espacialidade e os
símbolos são ativados para narrar, transmitir, persuadir ou partilhar conhecimento.
Nas culturas indígenas, a
teatralidade se manifesta de forma intrínseca à oralidade e à cosmovisão. A
palavra falada, que vem carregada de ancestralidade, memória e territorialidade,
não opera sozinha: vem acompanhada de gestos, marcas no chão, inflexões vocais,
pausas e movimentos que compõem uma cena viva. A transmissão de histórias,
mitos de origem, ensinamentos sobre a floresta e o manejo da vida comunitária
envolve uma performance que é, ao mesmo tempo, estética, ritual e pedagógica.
Contar é encenar: o corpo do narrador torna-se veículo de conhecimentos
ancestrais, reativando a presença dos antepassados, dos espíritos e dos seres
da floresta que compõem a ontologia indígena.
Essa dinâmica se aproxima da
afirmação de Augusto Boal de que “todo mundo é teatro, ainda que não faça
teatro”. Ao narrar, o sujeito mobiliza sua corporeidade, modulando gestos e
palavras conforme observa a si mesmo e se relaciona com quem o escuta. Há um
processo contínuo de lapidação expressiva: cada história exige um corpo
específico, uma energia, um ritmo, uma intenção. Nos contextos indígenas, essa
lapidação torna-se ainda mais significativa, pois envolve uma responsabilidade
comunitária — não se trata apenas de transmitir um enredo, mas de manter viva
uma memória coletiva, vinculada ao território, à ética da convivência e à
continuidade espiritual.
A teatralidade indígena,
portanto, não está separada da vida cotidiana. Ela emerge nas cerimônias, nos
cantos, nos rituais de cura, nas narrativas ao pé do fogo, nas danças que
reatualizam presenças e fazem circular saberes. Mais do que representação, trata-se
de presentificação: o ato de contar faz com que o passado se torne agora; faz
com que o território fale através dos corpos; faz com que as gerações se
encontrem dentro de uma temporalidade circular.
Ao reconhecer essas
teatralidades, amplia-se também a compreensão sobre o que é teatro e sobre como
a cena pode ser concebida fora da lógica ocidental. As práticas indígenas
revelam que a teatralidade é inseparável da vida, da memória e do
corpo-território. E mostram que a arte de narrar, performar e partilhar saberes
é, antes de tudo, uma arte de existir em relação: relação com os outros, com a
natureza, com os ancestrais e com o futuro que se quer preservar.
Referências
BOAL,
Augusto. Brecht e, modestamente, eu!. Disponível em: https://augustoboal.com.br/2013/06/13/brecht-e-modestamente-eu/.
Acesso em: 15 nov. 2025.
SILVA,
Adnilson de Almeida; AMARAL, José Januário de Oliveira; LEANDRO, Ederson Lauri.
Narrativas indígenas e suas representações territoriais. In: AMARAL,
Gustavo Gurgel do. Cultura indígena, ciência e arte: exercícios de hibridismo
cultural. Porto Velho: Temática, 2017.
[1] Professor da Universidade Federal de
Rondônia (UNIR) no Curso Licenciatura em Teatro; mestre e doutor em Artes pelo
Instituto de Artes da Universidade Estadual Paulista (Unesp); ator, diretor e
dramaturgo; integrante do Teatro Ruante.